O país poderia ter entrado em guerra civil: a extrema-esquerda pôs-nos a uma fagulha de distância dessa desgraça. Houve quem morresse para sermos livres: os dois “comandos” mortos nesse dia. E teriam sido muitos mais, de um lado e doutro, se os militares e políticos democratas não tivessem posto ponto final na revolução nesse dia. Depois, só tivemos democracia.
José Ribeiro e Castro
Na sua notoriedade, o
25 de Novembro é vítima da sua própria discrição e sobriedade – uma espécie de
“data-Salgueiro Maia” da nossa revolução: não quis nada para
si; tudo entregou ao 25 de Abril pelo qual se fez.
Devemos
muito mais, no teatro de operações, à coragem e serenidade de Salgueiro Maia,
em momentos decisivos do golpe de Estado na Ribeira das Naus e no Largo do
Carmo, do que a outros
militares que quiseram cavalgar a fama sem cuidarem do país. Seriam estes últimos,
propagandistas de trompeta, a empurrarem-nos para a vertigem do PREC de cuja loucura final
o 25 de Novembro nos salvou. Mas este,
tão discreto como Salgueiro Maia, tudo entregou ao 25 de Abril e seu propósito democrático.
Por isso é necessário que o 25 de Novembro seja celebrado também como remate
final e pela sua eficácia e discrição.
O 25 de Novembro não tem
autonomia face ao 25 de Abril: só existiu por causa deste e para o restituir ao
caminho para a democracia. Se tivesse autonomia, como golpe ou contra-golpe,
teria inaugurado uma outra história, da qual só podemos imaginar o que teria
sido, numa hipótese ou noutra. O 25 de Novembro foi apenas – este “apenas” não
é pouco, mas muito – o
fecho do desvario e dos perigos do PREC. É o momento do triunfo final do 25 de
Abril democrático.
Se é comum, na história, que as
revoluções tenham um dia de partida e outro de conclusão, os factos podemos
dizê-los assim:
1. O 25 de Abril, enquanto dia de
1974, foi o golpe de Estado militar que derrubou o regime anterior.
2. A seguir, arrancou um processo
revolucionário, cujo início podemos situar no 11 de Março, em 1975; ou, se se
preferir, ainda em 1974, a partir dos
governos gonçalvistas em 18 de Julho,
ou na crise político-militar do arranque da descolonização, ou no 28 de
Setembro.
3. Este processo revolucionário,
o PREC, uma revolução política e social, cresceu
e acelerou no curso do tempo, sempre mais à esquerda e para destino
totalitário.
4. O 25 de Novembro (1975) põe termo,
em definitivo, ao processo revolucionário e coloca de vez o país no patamar das
instituições democráticas, sua constitucionalização e consolidação.
Por isso, quando falamos do 25 de Abril, já não apenas como dia, mas para festejar a revolução democrática, devemos esta revolução ao 25 de Novembro, seu
momento conclusivo. Se não tivessem sido a resistência da sociedade
civil, as forças democráticas lideradas pelo Partido Socialista de Mário
Soares, Salgado Zenha, Manuel Alegre, Sottomayor Cardia, os militares
democratas do 25 de Novembro, não teríamos nada para festejar, mas para chorar
e repudiar.
O país poderia ter entrado em
guerra civil: a extrema-esquerda pôs-nos a uma fagulha de distância dessa
desgraça. Houve quem morresse para sermos livres: os dois “comandos” mortos
nesse dia. E teriam sido muitos mais, de um lado e doutro, se os militares e
políticos democratas não tivessem posto ponto final na revolução nesse dia.
Depois, só tivemos democracia.
O 25
de Novembro segurou o 25 de Abril. O
privilégio de, a seguir ao 25 de Abril de 1974, ter-se afastado o mau, vencido
os perigos, evitado o abismo e, hoje, só ter o lado bom e luminoso para
celebrar, devemo-lo ao 25 de Novembro.
Por isso, é chocante a falta de
conhecimento e de memória. Em rigor, não é falha de conhecimento e de
memória, mas vontade deliberada de tirar o 25 de Novembro da história e do
caminho. Não surpreende ver nestes sectores o PCP e o BE: os comunistas e a extrema-esquerda
cavalgavam o PREC e, portanto, foram os que perderam no fim. Foram expressamente
salvaguardados na democracia, na célebre declaração de Melo Antunes. Mas
gostariam de voltar atrás e retomar as linhas políticas do PREC.
Mas já surpreende que
largos sectores do PS se juntem à falsa ignorância. São os militantes
da “geringonça”, que agora se mobilizam atrás de Pedro Nuno Santos. Representam
real perigo para a democracia. Habituámo-nos a ver o PS do lado da democracia e
não do extremismo. Já não é certo que seja assim. Os que querem apagar o 25 de Novembro aspiram a
romper com o PS de Mário Soares e,
na linguagem do século XX, suspiram pelo regime de Frente Popular. Esta, mostra
a história, foi sempre uma desgraça. Hoje, aqui, não seria diferente. É preciso
ter cuidado.
Lembrar o 25 de Novembro ganha,
por isso, por estes próximos meses, novo significado. Não podemos voltar atrás.
Importa consolidar a democracia e a liberdade, à esquerda, ao centro e à
direita, isto é, defender o 25 de Abril, como os mais novos puderam recebê-lo:
em democracia e em liberdade. Seria mau demais, nos 50 anos do 25 de Abril,
estar a assinalá-lo de novo em crise existencial e outra vez no abismo.
FONTE: https://ionline.sapo.pt/artigo/808527/25-de-novembro-ontem-hoje-e-amanha?seccao=Opiniao_i

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