quinta-feira, 7 de setembro de 2023

S. BRÁS DE CARAVELAS - IN "DIZIAM OS ANTIGOS"


 Por Maria da Graça

«Pelo S.Brás, a cegonha verás», é o dito do início do ciclo do despertar da Natureza que tem outra efeméride colada, precedendo-a e tapando-a, a festa da Candelária ou da Senhora das Candeias tem o dito meteorológico invernal:

Quando a Candelária ri,

está o Inverno para vir,

e quando chora,

está o Inverno a ir-se embora.

Quer chore quer cante,

Inverno atrás ou adiante.

Para rir devemos entender: não chover, bom tempo ou fazer sol.

Porque se o Inverno não tiver vindo, há-de vir.

O santo em questão é o S.Brás de Caravelas que dista uma vintena de quilómetros de Mirandela ...

No meio do Terreiro da Fonte, a grande fogueira de cepos de sobreiros mortos aqueciam a festa. Esta mantém-se crepitante até às duas da madrugada, testemunhando a carrada de troncos de reserva e de guarda de honra.

Uma conversa franca com os homens da fogueira e os anciãos deixara-me mais informado sobre as tradições do S.Brás de Caravelas. Em vez da Missa cantada, dei uma volta ao adro da igreja. Deliciei-me a contemplar as casas de avermelhado xisto, mas doía-me o abandono ou ruína de muitas.

Finda a missa em honra do orago S.Brás, patrono das gargantas, tinha que haver a procissão, povo acima e Terreiro abaixo, com cânticos, orações e ladainhas para esconjurar os males e propiciar um bom ano agrícola. A procissão com o florido andor de S.Brás, sem armadores e sem grandes figurantes e com o estandarte paroquial, seguiu junto à belíssima Fonte de chafurdo, entre cânticos e orações e no seu demorado passo, termina no adro. Mas não vi ninguém a andar de lado, porque faltava o áspero Zéfiro, estando muito manso.

Antigamente é que era, diziam, com três dias de festejo em honra de S.Brás:

-Era um assombro!

No primeiro era o «dia dos carros»:

-Vinham carros de bois de todo o lado, até de Bragança, carregados de produtos da terra, para serem vendidos!

Carros de tracção animal, todos de madeira, desde o pinalho, ao chavelhão, às treitouras e aos barbiões.

No segundo era «o dia do fumeiro» e de outros produtos, fruto da generosidade da terra e do suor e saber dos lavradores.

No terceiro vinham vendedores de toda a região e era  «o dia dos tendeiros».

Tendeiros? Só lá vi um, de Sambade, a vender sapatos e que me dizia:

-Os negócios estão no fim!

No fim!? ... Queixava-se dos polícias da alimentação, dizendo que estavam ao serviço dos grandes lóbis portugueses e duma Europa desligada das pequenas realidades e memórias imateriais locais. Por isso, nem cheirar uma caçoula de pingo ou uma talhada de carne gorda de porco de curral,quanto mais outro fumeiro mimoso  e divino!

Mas, as 26 carroças presentes lá estavam alinhadas no Terreiro, encabeçadas pelo carro de burros e ladeado por dois carrinhos de mão. De bois nem um carro carregado de telha, que recordasse o antigo fabrico da mesma por artesãos locais.

Após a parte religiosa da festa, houve discursos do Presidente do Município, José Silvano, e Carlos Cunha, Presidente da Junta para inaugurar a cobertura dum tanque e os sanitários públicos junto à Fonte.

As dezenas de pessoas presentes já ougavam pelas febras(do talho) no braseiro e, apesar de muitas investidas ainda sobraram, bem como o pão caseiro de Caravelas ...

Fui puxado, pelo Padre Coelho e pelo Amândio Pires para casa do Presidente da Junta para um «lauto alomoço a S. Brás», com rojões, marrã, pão e vinho. Os rojões dos folhos, redenho ou sobentre, de porco do cortelho consolaram-me o corpo e a alma.

( ...)

Jorge Lage (excerto)


1 comentário:

  1. O sr. Dr.Jorge Lage sempre aparece nas festinhas religiosas, mas é quando dão marrã assada ou alheira de Mirandela nas brasas ...-não falha!

    ResponderEliminar

Lá fora, naquela noite gelada...

MONDIM CENTRO   Por Maria da Graça   Antigamente cedo se reservava um toro de oliveira velha e um molho de vides enleado com vencelhos, ...