Parecer da ANPRI sobre o processo de aplicação das provas de aferição em suporte digital

Esta experiência de provas de aferição digitais foi um
fiasco que só não se revelou inútil porque, embora não sirva para avaliar os
alunos, serve para avaliar o ministério. E o ministério chumbou.
01 jun. 2023, 00:217
Os governantes portugueses falam de digitalização dia
sim, dia não. É a palavra da moda, erguida como bandeira reformista. Sim, o
potencial é indiscutível e entusiasmante. Só que o potencial é apenas uma parte
— a outra parte consiste em implementar políticas públicas devidamente
planeadas para que a digitalização seja uma mais-valia, em vez de um problema.
Ora, é nesta dimensão de planeamento que as coisas geralmente correm mal.
Na Educação, conhecemos agora um caso exemplar dos
efeitos nefastos dessa falta de planeamento. Decorreu, entre 16 e 26 de Maio, o
período para a realização da prova de aferição do 8º ano de Tecnologias da
Informação e Comunicação (TIC) — a primeira vez que uma prova destas se
realizou 100% em formato digital. E foi um pequeno desastre operacional. De
acordo com um parecer da ANPRI, apenas 27% dos alunos concluíram a prova no tempo
regulamentar e metade dos alunos (49%) não a concluiu de todo. Houve ainda
alunos (24%) que concluíram a prova dispondo de um período extra e
discricionário (que oscilou entre 30 minutos e toda uma manhã/tarde).
Consequência óbvia: estas provas de aferição pouco ou nada aferiram. Se metade
(!) dos alunos não concluiu por motivos técnicos e um quarto dos alunos
concluiu porque beneficiou de tolerâncias de que outros não beneficiaram, a
comparabilidade entre resultados ficou comprometida e não há generalização
possível a partir dos resultados, que não espelharão os conhecimentos dos
alunos portugueses. Um fiasco.
A culpa do fiasco atribui-se ao formato digital? Não — as avaliações internacionais também se fazem em Portugal com provas digitais e tudo corre bem. O problema aqui esteve na falta de planeamento em vários momentos. Primeiro, o procedimento concursal para o desenvolvimento da plataforma das provas digitais foi tardio — o contrato público data de 21 de Março de 2023, menos de dois meses antes da realização das provas de aferição. Segundo, os atrasos converteram-se em pressão sobre as escolas, que receberam orientações para a realização da prova (e instalação do programa) cerca de 72 horas antes (com fim-de-semana) do início do período para a sua realização. Terceiro, a esmagadora maioria das escolas não pôde fazer testagem prévia dos equipamentos com uma prova-teste, porque esta deixou de estar disponível logo no dia 16 de Maio. Quarto, o programa para realizar as provas tinha incompatibilidades de requisitos com vários dispositivos, pelo que gerou bloqueios e anomalias em inúmeros computadores, impedindo a realização da prova por parte dos alunos. Quinto, as palavras-passe facultadas pelo Ministério não cumpriam os requisitos legais para a segurança e protecção de dados


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