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| ANTÓNIO ARESTA |
Nem
me falta na vida honesto estudo,
Com
longa experiência misturado
Luís de Camões, Os
Lusíadas, X.154
A
última aula chega agora, no termo do ano lectivo de 2022/2023, após mais de quarenta
e dois anos de ininterrupto serviço, ou de servidão, como dizia Jorge de Sena, espalhado
por Escolas em três continentes [Europa, África e Ásia] e por vários ramos do
ensino [preparatório, secundário, médio, superior politécnico e prisional]. Todas
estas andanças de muitos anos fora de Portugal, quase que me transformaram num
estrangeirado. Viajei bastante, aprendi muito e sempre procurei trazer a
cultura do mundo para dentro da sala de aula.
Olhando
para trás, parece que tudo começou ontem, tal a vertigem do tempo e do percurso.
Fiz de tudo na Escola, dentro e fora da sala de aula. E a Escola Secundária de
Paredes foi a última estação de serviço de uma vida cheia, que mantive limpa,
honrada e solidária com os outros. Nesta Escola, para além das minhas estritas
obrigações profissionais, ajudei a manter vivo o Prémio de Ensaio Filosófico
Dalila Lello Pereira da Costa [15ª. edição consecutiva], a Revista Papel
de Paredes [14 edições consecutivas] e o Seminário Paredes:Cultura e
História [5 edições realizadas, tendo a pandemia cancelado outras duas],
iniciativas criadas e lideradas pelo Grupo de Filosofia. Integrado em diversas
equipas de gestão da Biblioteca, dei também o meu contributo para a
actualização do acervo da mesma, que é o centro de inteligência de qualquer
Escola. E as aulas dadas no espaço da Biblioteca eram realmente especiais e
diferentes de todas as outras.
Deixo
aqui uma menção especial, de grande apreço, de agradecimento e de
reconhecimento ao Grupo de Filosofia [professores Mário Cruz, Virgínia Lopes,
Manuela Pacheco, João Capote e Luís Ribeiro], pela amizade, pela leal camaradagem
e pela competência profissional. Também
extensivo aos Colegas do meu Departamento de Ciências Sociais e Humanas, naturalmente
a todos os meus Colegas dos outros Departamentos e à Direcção da Escola. Não me
esqueço igualmente das Assistentes Operacionais e das Assistentes Técnicas. E,
como os últimos são os primeiros, os Estudantes, os meus Estudantes, que me
escutaram, me aturaram, que comigo dialogaram e trocaram ideias e saberes
variados.
As
relações humanas não são nada fáceis, as mais das vezes são “ralações”, e desde
já apresento as minhas desculpas por qualquer incorrecção involuntária que
tenha protagonizado.
O
professorado começou por ser para mim uma carreira atractiva, prestigiada, com
um interessante recorte intelectual e, sobretudo, com uma boa disponibilidade
de tempo. O Estado ainda era considerado uma pessoa de bem e com a segurança e a
estabilidade legislativas garantia-se que após 36 anos de serviço , e cumpridos
os requisitos de formação, se atingia o topo da carreira e , logo de seguida, a
aposentação ou a jubilação. Era um contrato justo, para ambas as partes. Poucos
anos depois, sobretudo a partir do “governo” de José Sócrates, o caos foi-se
instalando: deitaram fora os direitos adquiridos, o professorado transformou-se
numa carreira artificialmente difícil, com uma permanente e rancorosa hostilidade
profissional por parte da tutela, ficando uma carreira mal remunerada, muito
burocratizada, desautorizada e agora completamente proletarizada. Está por
estudar e explicar o ódio à Escola, à Cultura e a todos os seus intervenientes.
O professorado ou docência é, paradoxalmente, um trabalho solitário e muito desapoiado,
que está bem no centro do turbilhão da vida escolar.
A
última aula significa igualmente o fim de uma rotina, um arrumar de papéis e um
afastamento de um mundo que parece que deixa de fazer sentido. Sempre achei
estranho e anormal, e disse-o publicamente em muitos lados e em muitos
contextos, que a experiência e o saber acumulados ao longo de décadas pelos
professores, não fossem devidamente aproveitados, pelo menos na fase derradeira
da carreira. Afinal, eles são os verdadeiros especialistas numa área onde
abundam os “treinadores de bancada”, os demagogos ignorantes que a comunicação
social acarinha e os partidos políticos assalariam com sinecuras várias.
Venho
de uma família alargada, com várias gerações de professores. Hoje é uma
carreira ou uma profissão completamente fora de cogitação. Depois de mim, em
toda a família, que é grande e alargada, ninguém mais enveredará por esta
profissão. E isto já começa a ter custos e cada vez serão maiores e mais
gravosos para toda a sociedade. Os professores têm de voltar a ser respeitados,
estimulados e apreciados em todas as suas dimensões.
Necessitei
de consultar a Wikipédia para ver a imensa lista de pessoas que ocuparam
o lugar de Ministro da Educação, o responsável máximo pela política educativa, no
período em que estive no serviço activo. Surpreendi-me com tantos nomes
desconhecidos ou completamente irrelevantes, tal como os figurantes nos filmes.
Saíram como entraram, apenas uma corrente de ar, um vazio e nada mais. E já nem
falo do batalhão de secretários de estado ou da multidão de assessores e de
adjuntos. A mediocridade instalada centralmente foi e tem sido uma catástrofe
continuada para a sociedade portuguesa. Esta gente, que se resguarda na
penumbra dos gabinetes, tem uma elevadíssima responsabilidade no desastre em
que se transformou o sistema educativo. Ricardo Jorge, amigo de Camilo Castelo
Branco, médico higienista e grande pensador, dizia, há cem anos, nos Sermões
dum Leigo, que “o iletrismo das classes dirigentes” comprometia severamente
o desenvolvimento do país. E o resultado continua, infelizmente, à vista.
Esforcei-me
por ser um bom profissional, sobretudo como professor de Filosofia. Estudei
sempre, investiguei e fui publicando algumas coisas ao longo dos anos, tendo
mais de uma dúzia de livros editados e umas largas dezenas de estudos
espalhados em revistas várias. Artigos em jornais, esses perdi-lhes a conta. E
interessei-me por outras áreas de conhecimento, ligadas ao orientalismo e à
história da cultura. Atribuíram-me o
Prémio do Livro do Ano [2017], o Prémio de Jornalismo da Lusofonia\Ensaio
[2018], o Prémio Identidade [2022] e diversos louvores. Mantenho um trabalho muito
intenso nessas áreas e a dar resposta a várias demandas que me são apresentadas,
mesmo do estrangeiro.
Nunca
me esqueci desta advertência de José Rodrigues Miguéis [1901-1980] – grande e
esquecido escritor português, que viveu uma boa parte da sua vida expatriado
nos Estados Unidos da América – que definiu, nas páginas da Seara Nova,
justamente aquilo que um professor jamais deve ser: “O professor amargo,
estreito, injusto, autoritário ou sarcástico, sem princípios, pode então abrir
feridas incuráveis ou deixar indeléveis cicatrizes na alma dos alunos”. Esta
reflexão acompanhou-me sempre como um aviso solene e grave, inscrito no pórtico
de cada ano lectivo.
Filosofia,
ensino ou iniciação? O clássico dilema parece deixar de fazer sentido. Os
programas de Filosofia foram decaindo, podados e enxertados com banalidades
analíticas, até se transformarem numa rapsódia pseudo-argumentativa que culminou
com as minimalistas aprendizagens essenciais. Retiraram dos programas a leitura
de obras integrais, ficando o ensino a viver de uma constelação de citações
temáticas completamente descarnadas. As duas áreas do conhecimento mais
flageladas, perseguidas e quase banidas na Escola e na cultura escolar, são a Filosofia
e a História. Nesta contemporaneidade tão exigente e complexa, a Filosofia e a História
são os saberes nucleares de primeira linha. Incomodam muito o poder político e
bem se percebe porquê. E a Filosofia é um saber fantástico e profundo que
ilumina o ser e ensina a pensar.
Tratei
sempre os estudantes com boa educação e com uma autoridade tranquila, porque os
nossos papéis eram e foram sempre diferentes, eu estava ali para ensinar e eles
para aprenderem. Procurei incutir neles o interesse e o gosto pela cultura,
pelas artes e pelas humanidades e o respeito pela liberdade criadora. E o
hábito de ler, de pensar pela própria cabeça, de questionar e de problematizar
sem receios. Aprendemos até ao fim da nossa vida e nas circunstâncias mais
inesperadas.
A
administração educativa dirigida a nível local ou intermunicipal é um buraco
negro que ninguém sabe o que pode significar. Entre o actual centralismo
napoleónico, corrupto e incompetente, e o municipalismo, sequioso de poder, de
afirmação, mas sem provas dadas, necessitamos de construir um meio-termo
inteligente, democrático e verdadeiramente ao serviço de todos.
A
Escola Pública, como organização antiga, não falhou. Pelo contrário, actualizou-se,
transformou-se e reinventou-se. Quem falhou foi a Família. Falhou na educação,
falhou na transmissão dos valores e falhou em todos os mecanismos de construção
da socialização. Cerca de um terço dos alunos chega à Escola sem nada: sem educação,
sem valores, sem regras, sem patriotismo. Por vezes com fome. Retirou-se a
autoridade à Escola, ficando esta incapaz de resolver, de uma forma rápida,
célere e prática, os problemas que sempre surgem e agora se eternizam sem
resposta. A Escola Pública está refém de interesses ilegítimos e espúrios: o
Estado demite-se das suas responsabilidades e transforma-se numa fábrica de
subsídios que alimentam uma rede clientelar que faz prova de vida nos actos
eleitorais. Corrigidas estas graves entorses, a Escola Pública é uma
instituição magnífica, que merece o melhor das nossas capacidades, o melhor do
nosso esforço e o melhor da nossa dedicação. A Escola é a antecâmara do futuro.
Os
meus colegas, que ainda estão no serviço activo, têm de ser corajosos e muito
resistentes, porque estão no labirinto do minotauro institucional, um bicho mau
e traiçoeiro. E reza a lenda que tem de ser morto, e várias vezes, porque tem uma inaudita capacidade para
renascer.
Temos
ainda de aprender a lidar com os novos desafios oriundos da inteligência
artificial, que irá revolucionar o modelo escolar de educação, de instrução, de
transmissão e de controle dos conhecimentos.
Saio
com alívio e com vontade de escrever um livro de memórias, se a tanto chegar a
saúde física e a saúde mental.
Até
lá, aprenderei a viver com outra liberdade e com outros horizontes.
Alea
jacta est, a sorte está lançada.
Até sempre.
António
Manuel de Aragão Borges Aresta

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