sexta-feira, 9 de junho de 2023

A Última Aula

ANTÓNIO  ARESTA
 

Nem me falta na vida honesto estudo,

Com longa experiência misturado

Luís de Camões, Os Lusíadas, X.154

 

 

A última aula chega agora, no termo do ano lectivo de 2022/2023, após mais de quarenta e dois anos de ininterrupto serviço, ou de servidão, como dizia Jorge de Sena, espalhado por Escolas em três continentes [Europa, África e Ásia] e por vários ramos do ensino [preparatório, secundário, médio, superior politécnico e prisional]. Todas estas andanças de muitos anos fora de Portugal, quase que me transformaram num estrangeirado. Viajei bastante, aprendi muito e sempre procurei trazer a cultura do mundo para dentro da sala de aula.

Olhando para trás, parece que tudo começou ontem, tal a vertigem do tempo e do percurso. Fiz de tudo na Escola, dentro e fora da sala de aula. E a Escola Secundária de Paredes foi a última estação de serviço de uma vida cheia, que mantive limpa, honrada e solidária com os outros. Nesta Escola, para além das minhas estritas obrigações profissionais, ajudei a manter vivo o Prémio de Ensaio Filosófico Dalila Lello Pereira da Costa [15ª. edição consecutiva], a Revista Papel de Paredes [14 edições consecutivas] e o Seminário Paredes:Cultura e História [5 edições realizadas, tendo a pandemia cancelado outras duas], iniciativas criadas e lideradas pelo Grupo de Filosofia. Integrado em diversas equipas de gestão da Biblioteca, dei também o meu contributo para a actualização do acervo da mesma, que é o centro de inteligência de qualquer Escola. E as aulas dadas no espaço da Biblioteca eram realmente especiais e diferentes de todas as outras.

Deixo aqui uma menção especial, de grande apreço, de agradecimento e de reconhecimento ao Grupo de Filosofia [professores Mário Cruz, Virgínia Lopes, Manuela Pacheco, João Capote e Luís Ribeiro], pela amizade, pela leal camaradagem e pela competência profissional.  Também extensivo aos Colegas do meu Departamento de Ciências Sociais e Humanas, naturalmente a todos os meus Colegas dos outros Departamentos e à Direcção da Escola. Não me esqueço igualmente das Assistentes Operacionais e das Assistentes Técnicas. E, como os últimos são os primeiros, os Estudantes, os meus Estudantes, que me escutaram, me aturaram, que comigo dialogaram e trocaram ideias e saberes variados.

As relações humanas não são nada fáceis, as mais das vezes são “ralações”, e desde já apresento as minhas desculpas por qualquer incorrecção involuntária que tenha protagonizado.

O professorado começou por ser para mim uma carreira atractiva, prestigiada, com um interessante recorte intelectual e, sobretudo, com uma boa disponibilidade de tempo. O Estado ainda era considerado uma pessoa de bem e com a segurança e a estabilidade legislativas garantia-se que após 36 anos de serviço , e cumpridos os requisitos de formação, se atingia o topo da carreira e , logo de seguida, a aposentação ou a jubilação. Era um contrato justo, para ambas as partes. Poucos anos depois, sobretudo a partir do “governo” de José Sócrates, o caos foi-se instalando: deitaram fora os direitos adquiridos, o professorado transformou-se numa carreira artificialmente difícil, com uma permanente e rancorosa hostilidade profissional por parte da tutela, ficando uma carreira mal remunerada, muito burocratizada, desautorizada e agora completamente proletarizada. Está por estudar e explicar o ódio à Escola, à Cultura e a todos os seus intervenientes. O professorado ou docência é, paradoxalmente, um trabalho solitário e muito desapoiado, que está bem no centro do turbilhão da vida escolar.

A última aula significa igualmente o fim de uma rotina, um arrumar de papéis e um afastamento de um mundo que parece que deixa de fazer sentido. Sempre achei estranho e anormal, e disse-o publicamente em muitos lados e em muitos contextos, que a experiência e o saber acumulados ao longo de décadas pelos professores, não fossem devidamente aproveitados, pelo menos na fase derradeira da carreira. Afinal, eles são os verdadeiros especialistas numa área onde abundam os “treinadores de bancada”, os demagogos ignorantes que a comunicação social acarinha e os partidos políticos assalariam com sinecuras várias.

Venho de uma família alargada, com várias gerações de professores. Hoje é uma carreira ou uma profissão completamente fora de cogitação. Depois de mim, em toda a família, que é grande e alargada, ninguém mais enveredará por esta profissão. E isto já começa a ter custos e cada vez serão maiores e mais gravosos para toda a sociedade. Os professores têm de voltar a ser respeitados, estimulados e apreciados em todas as suas dimensões.

Necessitei de consultar a Wikipédia para ver a imensa lista de pessoas que ocuparam o lugar de Ministro da Educação, o responsável máximo pela política educativa, no período em que estive no serviço activo. Surpreendi-me com tantos nomes desconhecidos ou completamente irrelevantes, tal como os figurantes nos filmes. Saíram como entraram, apenas uma corrente de ar, um vazio e nada mais. E já nem falo do batalhão de secretários de estado ou da multidão de assessores e de adjuntos. A mediocridade instalada centralmente foi e tem sido uma catástrofe continuada para a sociedade portuguesa. Esta gente, que se resguarda na penumbra dos gabinetes, tem uma elevadíssima responsabilidade no desastre em que se transformou o sistema educativo. Ricardo Jorge, amigo de Camilo Castelo Branco, médico higienista e grande pensador, dizia, há cem anos, nos Sermões dum Leigo, que “o iletrismo das classes dirigentes” comprometia severamente o desenvolvimento do país. E o resultado continua, infelizmente, à vista.

Esforcei-me por ser um bom profissional, sobretudo como professor de Filosofia. Estudei sempre, investiguei e fui publicando algumas coisas ao longo dos anos, tendo mais de uma dúzia de livros editados e umas largas dezenas de estudos espalhados em revistas várias. Artigos em jornais, esses perdi-lhes a conta. E interessei-me por outras áreas de conhecimento, ligadas ao orientalismo e à história da cultura. Atribuíram-me  o Prémio do Livro do Ano [2017], o Prémio de Jornalismo da Lusofonia\Ensaio [2018], o Prémio Identidade [2022] e diversos louvores. Mantenho um trabalho muito intenso nessas áreas e a dar resposta a várias demandas que me são apresentadas, mesmo do estrangeiro.

Nunca me esqueci desta advertência de José Rodrigues Miguéis [1901-1980] – grande e esquecido escritor português, que viveu uma boa parte da sua vida expatriado nos Estados Unidos da América – que definiu, nas páginas da Seara Nova, justamente aquilo que um professor jamais deve ser: “O professor amargo, estreito, injusto, autoritário ou sarcástico, sem princípios, pode então abrir feridas incuráveis ou deixar indeléveis cicatrizes na alma dos alunos”. Esta reflexão acompanhou-me sempre como um aviso solene e grave, inscrito no pórtico de cada ano lectivo.

Filosofia, ensino ou iniciação? O clássico dilema parece deixar de fazer sentido. Os programas de Filosofia foram decaindo, podados e enxertados com banalidades analíticas, até se transformarem numa rapsódia pseudo-argumentativa que culminou com as minimalistas aprendizagens essenciais. Retiraram dos programas a leitura de obras integrais, ficando o ensino a viver de uma constelação de citações temáticas completamente descarnadas. As duas áreas do conhecimento mais flageladas, perseguidas e quase banidas na Escola e na cultura escolar, são a Filosofia e a História. Nesta contemporaneidade tão exigente e complexa, a Filosofia e a História são os saberes nucleares de primeira linha. Incomodam muito o poder político e bem se percebe porquê. E a Filosofia é um saber fantástico e profundo que ilumina o ser e ensina a pensar.

Tratei sempre os estudantes com boa educação e com uma autoridade tranquila, porque os nossos papéis eram e foram sempre diferentes, eu estava ali para ensinar e eles para aprenderem. Procurei incutir neles o interesse e o gosto pela cultura, pelas artes e pelas humanidades e o respeito pela liberdade criadora. E o hábito de ler, de pensar pela própria cabeça, de questionar e de problematizar sem receios. Aprendemos até ao fim da nossa vida e nas circunstâncias mais inesperadas.

A administração educativa dirigida a nível local ou intermunicipal é um buraco negro que ninguém sabe o que pode significar. Entre o actual centralismo napoleónico, corrupto e incompetente, e o municipalismo, sequioso de poder, de afirmação, mas sem provas dadas, necessitamos de construir um meio-termo inteligente, democrático e verdadeiramente ao serviço de todos.

A Escola Pública, como organização antiga, não falhou. Pelo contrário, actualizou-se, transformou-se e reinventou-se. Quem falhou foi a Família. Falhou na educação, falhou na transmissão dos valores e falhou em todos os mecanismos de construção da socialização. Cerca de um terço dos alunos chega à Escola sem nada: sem educação, sem valores, sem regras, sem patriotismo. Por vezes com fome. Retirou-se a autoridade à Escola, ficando esta incapaz de resolver, de uma forma rápida, célere e prática, os problemas que sempre surgem e agora se eternizam sem resposta. A Escola Pública está refém de interesses ilegítimos e espúrios: o Estado demite-se das suas responsabilidades e transforma-se numa fábrica de subsídios que alimentam uma rede clientelar que faz prova de vida nos actos eleitorais. Corrigidas estas graves entorses, a Escola Pública é uma instituição magnífica, que merece o melhor das nossas capacidades, o melhor do nosso esforço e o melhor da nossa dedicação. A Escola é a antecâmara do futuro.

Os meus colegas, que ainda estão no serviço activo, têm de ser corajosos e muito resistentes, porque estão no labirinto do minotauro institucional, um bicho mau e traiçoeiro. E reza a lenda que tem de ser morto, e várias vezes,  porque tem uma inaudita capacidade para renascer.

  Temos ainda de aprender a lidar com os novos desafios oriundos da inteligência artificial, que irá revolucionar o modelo escolar de educação, de instrução, de transmissão e de controle dos conhecimentos.

Saio com alívio e com vontade de escrever um livro de memórias, se a tanto chegar a saúde física e a saúde mental.

Até lá, aprenderei a viver com outra liberdade e com outros horizontes.

Alea jacta est, a sorte está lançada.

Até sempre.

António Manuel de Aragão Borges Aresta

antonioaaresta@gmail.com

 

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