Por Maria da Graça
A OLIVEIRA *
«Oliveira»
vem do latim «olivaria» (ardor) e designa a árvore que produz azeitonas. Em
documentos proto-portugueses aparecem, em 922, as palavras «olibaria» e
«olibaria» e «oliuaria» e em 998 «oliueira».
Após
estes vestígios arcaicos lê-se pela primeira vez na toponímia em 1108 o vocábulo
«Uluaria» e em 1131 «ulueyra».
O
bocábulo «oliveira» é a forma erudita e a via popular «olveira». Assim, o
colectivo de oliveiras é «olival» e «olvar».
Como
andarilho na meninice e juventude, ouvia, muitas vezes, do povo, em Mirandela e
Leiria, referir-se à «oliveira» e menos a «olvar».
As
plantas têm o nome vulgar, no caso popular «oliveira» e a comunidade científica
chama-lhe «Olea europaea». Pertence à família das Oleáceas, provindo da
selecção aturada do zambujeiro.
É
uma árvore Mediterrânica por excelência, com a folha perene, flores pequenas e
brancas, fruto verde e na maturação negro ou arroxeado. Encontra-se em Portugal
nas zonas de transição do carvalho negral e azinheira, sendo o azeite mais fino
e no habitat do sobreiro, o «ouro da terra» é mais grosso.
As
variedades de oliveiras da nossa região:
A
Lentisca, de azeitona muito miúda, de forma alongada, preta e de fraca
qualidade, parecendo estar mais próxima do zambujeiro ou oliveira bravia;
A
Borrenta, de azeitona miúda, maior que a lentisca, arredondada, muito preta e
temporã na maturação, de fácil vareja, de fraca qualidade, muito produtiva, com
os seus galhos ramos compridos que pendem para o chão, como se fossem longos
cabelos lisos, sendo, tal como a lentisca, uma espécie em extinção devido à
fraca qualidade;
A
Madural é uma azeitona preta, de tamanho normal, alongada, temporã na
maturação, de fácil varejo, carrega quase todos os anos e a árvore
desenvolve-se bem;
A
Rebolã, devido ao formato arredondado e crescido, mas a árvore é de crescimento
lento, o fruto amadurece no tempo, estando em extinção;
A
Bical é temporã, desenvolvida e preta, toma este nome devido a terminar em
bico;
A
Cobrançosa é um cultivar que amadurece no tempo, de tamanho médio e elíptico,
muito produtivo e regular mantendo-se na árvore;
A
Cordovil é muito produtiva, cor preta, maturação no tempo, formato elíptico,
mais pequena que a bical;
A
Verdeal de formato arredondado, quando madura é arroxeada, tamanho médio,
maturação tardega, produzindo azeite fino com um aroma perfumado intenso, a
mais abundante na Terra Quente.
A
oliveira tem um forte simbolismo bíblico e social. Tal como o loureiro
simboliza a glória ou triunfo dos vencedores como a palma ou palmeira a
apoteose festiva, a oliveira simboliza a paz, na harmonia na natureza.
Aquando
do mítico dilúvio, o Patriarca Noé enviou uma pomba e esta de volta, trouxe-lhe
um ramo de oliveira. Era feita a paz com as águas revoltas e a esperança
renascia na arca salvadora.
Por
certo, o encontro entre Jesus e a Samaritana, junto ao Poço de Jacob, tinha
oliveiras por perto.
Jesus
Cristo ao sentir aproximar-se a hora do martírio recolheu-se no Jardim das
Oliveiras para aí aceitar o sacrifício de Redenção da Humanidade.
Ainda
hoje existem lá oito oliveiras na base do monte Olivete, a Este de Jerusalém,
anteriores a Jesus Cristo.
É
pacífico que a oliveira do clima mediterrânico tenha tido como berço a
Mesopotâmia, hoje Iraque, onde terá vagueado a Arca de Noé.
A
oliveira terá sido trazida para Portugal pelos Fenícios e Cartagineses aquando
das trocas comerciais com os povos ibéricos.
Visitei
a árvore mais antiga de Portugal, a «Oliveira de Tavira» ou «Oliveira de Pedras
d`el Rei», que se situa no aldeamento turístico do mesmo nome, na freguesia de
Santa Luzia, do concelho de Tavira.
É
uma árvore com mais de 2000 anos e foi classificada «Árvore de Interesse
Público» por publicação no Diário da República nº 178, de 02/08/1984. Não é já
uma árvore frondosa - os anos pesam - com a altura da copa de 7,70 m (metros),
11,80 m de diâmetro maior e 9,82 de diâmetro menor, o tronco é imponente com
1,92 m de altura, 3,60 m de diâmetro na base e 2,45 m de PAP (perímetro à
altura do peito). São precisos cinco homens para o abraçar no seu perímetro de
7,75 m.
Já
passou por quatro milénios, o que é admirável. O tronco tem sido carcomido,
apresentando uma coroa circular, com porta de 0.40 m e interiormente uma sala
com 1,30 m de diâmetro.
Perto
desta oliveira estão outras milenares e que a empresa gestora do aldeamento
soube sabiamente preservar, integrando-as entre as moradias e espaços
ajardinados.
Até
hoje, a datação da idade das árvores antigas penso que será a do carbono
catorze que apenas dá uma margem de erro de 100 anos. Fiquei estupfacto quando
uns «sábios universitários» se propunham classificação de árvores por
fotografias ...
Também,
voltei a duvidar da fórmula com que apregoam o abate de árvores nos espaços
públicos, devido ao tronco ter alguma podridão. Quando observo o tronco
serrado, vejo grande solidez da mesma árvore. Há aspectos que se deviam
privilegiar como a diminuição da carga lenhosa de árvores nos espaços públicos,
corrigindo-se as podas bárbaras praticadas.
In
Diziam os Antigos ... (Noticias de
Mirandela, de 15Nov.2003)
Jorge Lage


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