sexta-feira, 28 de abril de 2023

A oliveira - Diziam os antigos ...

Por Maria da Graça

A OLIVEIRA *

«Oliveira» vem do latim «olivaria» (ardor) e designa a árvore que produz azeitonas. Em documentos proto-portugueses aparecem, em 922, as palavras «olibaria» e «olibaria» e «oliuaria» e em 998 «oliueira».

Após estes vestígios arcaicos lê-se pela primeira vez na toponímia em 1108 o vocábulo «Uluaria» e em 1131 «ulueyra».

O bocábulo «oliveira» é a forma erudita e a via popular «olveira». Assim, o colectivo de oliveiras é «olival» e «olvar».

Como andarilho na meninice e juventude, ouvia, muitas vezes, do povo, em Mirandela e Leiria, referir-se à «oliveira» e menos a «olvar».

As plantas têm o nome vulgar, no caso popular «oliveira» e a comunidade científica chama-lhe «Olea europaea». Pertence à família das Oleáceas, provindo da selecção aturada do zambujeiro.

É uma árvore Mediterrânica por excelência, com a folha perene, flores pequenas e brancas, fruto verde e na maturação negro ou arroxeado. Encontra-se em Portugal nas zonas de transição do carvalho negral e azinheira, sendo o azeite mais fino e no habitat do sobreiro, o «ouro da terra» é mais grosso.

As variedades de oliveiras da nossa região:

A Lentisca, de azeitona muito miúda, de forma alongada, preta e de fraca qualidade, parecendo estar mais próxima do zambujeiro ou oliveira bravia;

A Borrenta, de azeitona miúda, maior que a lentisca, arredondada, muito preta e temporã na maturação, de fácil vareja, de fraca qualidade, muito produtiva, com os seus galhos ramos compridos que pendem para o chão, como se fossem longos cabelos lisos, sendo, tal como a lentisca, uma espécie em extinção devido à fraca qualidade;

A Madural é uma azeitona preta, de tamanho normal, alongada, temporã na maturação, de fácil varejo, carrega quase todos os anos e a árvore desenvolve-se bem;

A Rebolã, devido ao formato arredondado e crescido, mas a árvore é de crescimento lento, o fruto amadurece no tempo, estando em extinção;

A Bical é temporã, desenvolvida e preta, toma este nome devido a terminar em bico;

A Cobrançosa é um cultivar que amadurece no tempo, de tamanho médio e elíptico, muito produtivo e regular mantendo-se na árvore;

A Cordovil é muito produtiva, cor preta, maturação no tempo, formato elíptico, mais pequena que a bical;

A Verdeal de formato arredondado, quando madura é arroxeada, tamanho médio, maturação tardega, produzindo azeite fino com um aroma perfumado intenso, a mais abundante na Terra Quente.

A oliveira tem um forte simbolismo bíblico e social. Tal como o loureiro simboliza a glória ou triunfo dos vencedores como a palma ou palmeira a apoteose festiva, a oliveira simboliza a paz, na harmonia na natureza.

Aquando do mítico dilúvio, o Patriarca Noé enviou uma pomba e esta de volta, trouxe-lhe um ramo de oliveira. Era feita a paz com as águas revoltas e a esperança renascia na arca salvadora.

Por certo, o encontro entre Jesus e a Samaritana, junto ao Poço de Jacob, tinha oliveiras por perto.

Jesus Cristo ao sentir aproximar-se a hora do martírio recolheu-se no Jardim das Oliveiras para aí aceitar o sacrifício de Redenção da Humanidade.

Ainda hoje existem lá oito oliveiras na base do monte Olivete, a Este de Jerusalém, anteriores a Jesus Cristo.

É pacífico que a oliveira do clima mediterrânico tenha tido como berço a Mesopotâmia, hoje Iraque, onde terá vagueado a Arca de Noé.

A oliveira terá sido trazida para Portugal pelos Fenícios e Cartagineses aquando das trocas comerciais com os povos ibéricos.

Visitei a árvore mais antiga de Portugal, a «Oliveira de Tavira» ou «Oliveira de Pedras d`el Rei», que se situa no aldeamento turístico do mesmo nome, na freguesia de Santa Luzia, do concelho de Tavira.

É uma árvore com mais de 2000 anos e foi classificada «Árvore de Interesse Público» por publicação no Diário da República nº 178, de 02/08/1984. Não é já uma árvore frondosa - os anos pesam - com a altura da copa de 7,70 m (metros), 11,80 m de diâmetro maior e 9,82 de diâmetro menor, o tronco é imponente com 1,92 m de altura, 3,60 m de diâmetro na base e 2,45 m de PAP (perímetro à altura do peito). São precisos cinco homens para o abraçar no seu perímetro de 7,75 m.

Já passou por quatro milénios, o que é admirável. O tronco tem sido carcomido, apresentando uma coroa circular, com porta de 0.40 m e interiormente uma sala com 1,30 m de diâmetro.

Perto desta oliveira estão outras milenares e que a empresa gestora do aldeamento soube sabiamente preservar, integrando-as entre as moradias e espaços ajardinados.

Até hoje, a datação da idade das árvores antigas penso que será a do carbono catorze que apenas dá uma margem de erro de 100 anos. Fiquei estupfacto quando uns «sábios universitários» se propunham classificação de árvores por fotografias ...

Também, voltei a duvidar da fórmula com que apregoam o abate de árvores nos espaços públicos, devido ao tronco ter alguma podridão. Quando observo o tronco serrado, vejo grande solidez da mesma árvore. Há aspectos que se deviam privilegiar como a diminuição da carga lenhosa de árvores nos espaços públicos, corrigindo-se as podas bárbaras praticadas.


In Diziam os Antigos ...  (Noticias de Mirandela, de 15Nov.2003)

Jorge Lage

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