segunda-feira, 10 de abril de 2023

Lisbonadas

 

Lisbonadas                                                         


 

Hoje aprendi outra palavra,

Que vocês não sabem também!

É um neologismo e, em nós grava.

Algo que aos portugueses sabe bem.

Imaginem é o neologismo “lisbonadas”…

Trará a Lisboa jovens de muitas estradas! (1)

 

Hoje, com bilhete oferecido,

Fui à Missa das Palmas, no Vaticano.

Rezando o Terço, pelo caminho, distraído,

Vi que nem sequer comigo tinha um ramo.

Mas vi, por ali, muito jovens escuteiros…

Dispunham de ramos de oliveira, verdadeiros! (2)

 

É um autofinanciamento para as “lisbonadas”,

Dito de outra maneira, para a Jornada Mundial

Da Juventude, desde há tempos, anunciadas,

Em terras da Lusitânia, hoje chamada Portugal.

Generoso, deixei-lhes toda a minha fortuna.

Foram três euros, moedas contadas uma a uma! (3)

 

Só depois é que vi que estava sem carteira,

E veio-me o pensamento: terá sido roubada?

Foi essa, por instinto, a reação primeira…

Mas poderia estar em casa, apenas, olvidada.

Não me lembrava de a trazer comigo…

Sou assim descuidado, desde tempo antigo! (4)

 

Já nem sequer um centavo tinha, para um café!

Valeu-me, nesta situação, a minha amiga Fernanda!

Depois da Eucaristia que vivemos, com muita fé,

Pelas ruas de Roma, em bom passo, comigo anda!

Não te preocupes, Teófilo, não vais morrer com fome.

Tenho uns centavos, mais do que o teu apetite consome! (5)

 

Teófilo Minga

Roma, 02 de abril de 2023, esperando o comboio entre Roma e Manziana, às 18.42

 

1)      Estamos sempre a aprender, diz um velho ditado. E está correto. Hoje experimentei, outra vez, essa verdade, da nossa sabedoria popular. E aprendi um neologismo que, tenho a certeza, vocês, não conhecem também. Como eu não conhecia, aliás. Trata-se do neologismo “LISBONADAS”. Mas, como sou inteligente, deduzi logo, que deveria ser qualquer coisas relacionada com LISBOA. E era mesmo. Não me enganei.

2)      Consegui bilhetes para toda a Semana Santa no Vaticano, graças ao meu amigo P. Fenando Matos. Acabei por dá-los todos menos os de hoje. Com muito pena, que nunca tinha assistido às cerimónias da Páscoa no Vaticano. Às de Natal, sim já tinha assistido. Mas os “ossos do ofício” dizem-me que devo passar toda a Semana Santa encerrado numa “gaiola” de tradução. Estes é um dos momentos em que mais gostava de estar no Vaticano, do que estas a tradizir mesmo neste tempo santo. Mas não há opções. Os “ossos do ofício” são mais fortes que a as devoções. Pude oferecer todos os bilhetes da Semana Santa a colegas meus da Casa Generalícia dos Irmãos Marista, em Roma, que admiraram a minha generosidade e sacrifício! Imaginem!  Quando não tens outra opção… generosidade não muita, sacrifício talvez algum!

3)      Mas voltemos às “Lisbonadas”: ia eu distraído, rezando o Terço e olhando as vitrinas, quando vejo muitos jovens escuteiros e outros jovens, de diferentes paróquias romanas. Milhares, talvez, que vi pelas diferentes ruas, nas imediações do Vaticano. Estavam ali para “proporem” um ramo pelo que quiséssemos oferecer.  Era uma atividade preparada para fazerem dinheiro para a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa. Era uma “Lisbonada”. Outros vendiam bolos e ainda outros símbolos, religiosos em geral, para autofinanciarem uma viagem aa Lisboa, em fins de Julho e agosto. A criatividade dos jovens é sempre muito grande. Louvando a sua criatividade, dei-lhes logo pelos ramos a fortuna toda que trazia: 3 euros. Certamente, as poucas folhas de oliveira, nem isso valiam, mas, como digo, há eu ser generosos para com estes jovens. Aliás, fizeram-me voltar atrás aos meus tempos de “escuteiro, no ativo”, em que fazíamos coisas muito parecidas.

4)      Mas logo depois desta minha “generosidade total”, tive um pequeno-grande calafrio. Vi que estava sem a carteira. O primeiro pensamento quase instintivo, é o pensar em algum roubo no metro. Aliás, muitas vezes nos chamam a atenção dos vigaristas. Mas logo me serenei dizendo que no Domingo de Ramos, e quando íamos para a Missa Vaticano, não podia haver ladrões. Optei por pensar que a devia ter deixado em caso. Mas sem ter, absolutamente, certeza nenhuma. Não me lembrava, de facto, se a tinha trazido comigo ou não. De qualquer maneira, ali estava eu plantado no meei de Roma, sem um centavo no bolso. Felizmente tinha um bilhete de meto comigo, válido ainda, e poderia voltar a casa sem grande problema.

5)      De todos os modos, estava um pouco envergonhado que andava com uma velha amiga, desde os meus tempos de Friburgo, na Suíça. É a Fernanda. Na altura, eu estudava, ela era enfermeira no Hospital Cantonal de Friburgo. Depois o “destino” nos afastou, cada um para seu lado, e ficaram os contactos em linha de vez quando. E conseguimos um “encontro presencial” aqui em Roma. Nos tempos da Suíça. Bem mais jovens, também nos tínhamos encontrado em Taizé. E estava envergonhado porque a tinha convidado para almoçar comigo, nalgum restaurante peto do Vaticano (e há muitos por ali!), e claro, tinha de voltar atrás nos meus propósitos. Mas podem já imaginar o filme: eu convidei, a Fernanda pagou! Ela tinha razão. Não íamos morrer à fome! E não morremos. Mas com um almoço assim, até adquiri forças para escrever este poema, com mais dois outros, no comboio que me trouxe de Roma a Manziana. Aí fui previdente: comorei logo de ida e volta. Se não a pobre Fernanda ainda teria de me pagar a viagem de volta. Tudo acabou, finalmente, e voltei “LISBONADDAS” , para escrever este poema que vos mando.

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