Por BARROSO da FONTE
São
compreensíveis as muitas divergências surgidas desde que se soube da iniciativa
da Grã Ordem Afonsina, em deslocar-se a Zamora, por alturas do Pentecostes que
todos os anos ocorre na sua Catedral. Essa data religiosa, segundo a tradição,
foi escolhida pelo Infante Afonso Henriques para se armar cavaleiro.
A
historiadora Cristina Torrão adianta, neste contexto, que «a partir de 1120,
D. Afonso Henriques passou a viver na corte e a ocupar nela uma posição de
destaque, pois algumas vezes é mencionado como outorgante de documentos,
juntamente com sua mãe, ou confirma-os em posição superior à do conde galego
Fernão Peres e até 1127, não se podendo apontar nenhum indício seguro de
qualquer conflito entre ele e a “rainha” (D. Teresa).»
A
mesma historiadora, em artigo de 17 de Maio de 2017, na mesma fonte, confirma que
no ano de 1125 o Pentecostes calhou no dia 17 de Maio. E pergunta: «se
alguma investidura houve, porque não se escolheu Braga, Guimarães, o Porto,
Coimbra ou Viseu? (…) Não esquecer que Zamora pertencia ao senhorio de D.
Teresa.»
Zamora
pertencia ao senhorio de D. Teresa, mãe de Afonso Henriques, desde que lhe fora
concedida por D. Urraca, durante o cerco de Peñafiel em 1111. E, «se
aceitarmos a veracidade da referência ao lugar, teremos, logicamente, de
admitir que a cerimónia se teria realizado com o acordo de D. Teresa, dadas as
suas relações com Fernão Peres de Trava e também com o seu consentimento».
Cristina
Torrão continua a afirmar que há consenso por parte dos historiadores
profissionais de que essa investidura de Afonso Henriques tenha sido num dia de
Pentecostes, por ser uma data muito usada para este tipo cerimónias na época
medieval. E menciona José Mattoso que recorda esse episódio na sua recente biografia
sobre o Rei Fundador. E situa a cerimónia nos anos 1125 ou 1126,
preferindo, no entanto, a primeira hipótese.
O
Pentecostes, no ano de 1125, ocorreu em 17 de Maio, conclui Cristina Torrão,
concordando com J. Mattoso. Penso, por isso, que podemos assinalar nesse dia o
aniversário da investidura de D. Afonso Henriques.
Mas
este ano irá ocorrer em 29/30 de Abril, data acertada em parceria entre a Grã
Ordem Afonsina, a Fundação Rei Afonso Henriques (sediada em Zamora) e a
Sociedade Histórica da Independência de Portugal. O Ajuntamento de Zamora
prontificou-se, imediatamente, a participar neste programa. E foi entendido,
por iniciativa do vice-presidente da Grã Ordem, o arquiteto vimaranense Abel
Cardoso que, em sintonia com o escultor Diniz Ribeiro, propuseram enriquecer o
programa de celebração dessa data com a inauguração em Zamora, nos dias 29/30
de Abril, de uma peça escultórica simbolizando Afonso Henriques durante a sua
investidura como cavaleiro, aos 14 anos de idade.
As
três instituições promotoras entenderam partilhar tarefas e esforços para quem
quisesse inscrever-se, até 15 de corrente, na viagem até Zamora, para
participar na cerimónia de inauguração da estátua. Os encargos com esta
operação cultural e cívica são, integralmente, custeadas pelos inscritos e
pelas entidades promotoras.
A
Escultura foi oferecida por empresários Vimaranenses. Uma obra de arte, como um
poema, uma tela, um quadro, um desenho, não devem ser condicionados. O artista
deve ter liberdade dentro dos parâmetros convencionais. Os portugueses
acostumaram-se a ver, nos livros, nas imagens da imprensa e nos postais
turísticos, a figura de Soares dos Reis, mas já numa idade adulta. Diniz
Ribeiro pretendeu cinzelar a cabeça, o rosto e a farta cabeleira de um jovem de
14 anos, tantos quantos teria Afonso Henriques em 1125.
Talvez
devesse ter sido distribuída uma pagela com as explicações técnicas e
artísticas, para evitar confusões com um rosto granítico com manchas difíceis
de burilar.
Barroso da Fonte


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