Santana Castilho*
15/03/2023 - Jornal Público
1. Como se esperava, terminou sem acordo a reunião suplementar entre o
Ministério da Educação e os sindicatos. O que se segue? A promulgação de um
diploma que colocará milhares de professores, contra a sua vontade, a centenas
de quilómetros de casa, dificultará ainda mais os mecanismos de aproximação à
residência e conferirá aos directores o poder de afastar os professores
incómodos, mesmo que sejam do quadro. Numa palavra, passará a vigorar um
normativo que só piora o que já estava em vigor.
E seguem-se novas reuniões negociais para debater a recuperação do tempo de
serviço. Mas sobre a matéria, João Costa já esclareceu que as próximas
negociações não se ocuparão da recuperação do tempo de serviço de todos os
professores, mas sim das compensações (“correcção dos efeitos assimétricos”, no dizer do ministro) a atribuir aos que
tenham sido mais prejudicados durante o congelamento das carreiras.
Aquilo que o ministro agora apoda de “efeitos assimétricos” é uma epígrafe
maliciosa para uma ideia racionalmente sem nexo e eticamente desprezível.
Limpando-a dos floreados palavrosos do ministro, o que ela significa é isto:
João Costa vai entrar, mais uma vez de má-fé, numa negociação viciada, porque
já tem o resultado antecipadamente determinado, qual seja distribuir umas
migalhas a uns e discriminar os restantes. Como se não tivessem trabalhado todos,
João Costa propõe-se promover ultrapassagens indecorosas, com um confrangedor desprezo
pela justiça mínima.
2. Duas sondagens recentes e a observação simples dos factos expõem o fracasso
da estratégia de manipulação da opinião pública promovida pelo Governo e,
particularmente, por João Costa, no contencioso com os professores. Mas, no
domínio dos resultados, João Costa levou a dele avante: a sua política ruinosa avançou e um péssimo decreto-lei vai ser
aprovado num Conselho de Ministros inerte ante a destruição do sistema nacional
de ensino e da escola pública.
A união genuína dos professores e a abnegação com que se entregaram a
manifestar publicamente a sua repulsa pelas políticas nefastas de que são
vítimas não demoveram um ministro desumano e incompetente. Daí a pergunta que
se impõe: que fazer agora?
Talvez reflectir sobre a forma como Peter Singer aborda, no seu livro “Ética
Prática”, a relação entre a consciência individual e a lei. A dado passo, o
autor formula esta pergunta:
“Temos alguma obrigação moral de obedecer à lei, quando a lei protege e
sanciona coisas que achamos totalmente erradas?”.
E Peter Singer responde a si próprio pela escrita de Henry Thoreau, assim:
“Terá o cidadão de entregar a sua consciência ao legislador, nem que seja por
um só momento ou no grau mínimo? Para que terá então todo o homem uma
consciência? Penso que devemos ser em primeiro lugar homens e só depois
súbditos. A única razão que tenho o direito de assumir é a de fazer sempre aquilo
que penso ser justo”.
Posto isto, que bela lição dariam os professores a João Costa se o deixassem a
falar sozinho com o diploma que vai levar a Conselho de Ministros e nem um só
dos contratados concorresse à pérfida vinculação dinâmica! A que outra artimanha
recorreria o criativo ministro, para não ser levado ao Tribunal de Justiça da
União Europeia, por incumprimento da correlata Directiva 1999/70/CE?
3. A realização das provas de aferição em suporte digital é um processo que
começa a revelar-se como de princípio era de prever: sem computadores
suficientes, sem estruturas de base (rede eléctrica e de Internet preparadas e
adequadas nas escolas) e muitos alunos insuficientemente familiarizados com as
rotinas informáticas, não passa de uma iniciativa de novos-ricos
irresponsáveis. O irrealismo (Projecto de Desmaterialização das Provas de Avaliação
Externa) terminará, antecipo, atribuindo, como é habitual, a culpa do fracasso
às escolas e à falta de formação dos professores.
A esta vertente operacional acresce a mais importante, sobre a qual venho a
escrever, de há muito: sendo a utilização do digital desejável e incontornável,
não deve ser impulsionada por dogmas políticos, antes com a consideração dos
avanços científicos no domínio das neurociências, particularmente da psicologia
cognitiva. E esses avanços permitem expor a pobreza pedagógica e a limitação de
exames assentes em escolhas múltiplas.
*Professor do ensino superior

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