Pedro Vaz Patto
Como de esperar e tem sucedido noutras ocasiões análogas, os
apoios do governo e autarquias locais à realização das Jornada Mundial da
Juventude têm suscitado uma velha discussão sobre a compatibilidade entre tais
apoios e o princípio da laicidade do Estado e há quem invoque esse princípio
para negar a legitimidade desses apoios.
A laicidade do Estado deve, porém, distinguir-se do
laicismo.
Laicidade
implica a aconfessionalidade (ou seja, que o próprio Estado não adira a uma
qualquer confissão religiosa), o tratamento não discriminatório das várias
comunidades religiosas e a separação entre a Igreja e o Estado. De algum modo,
pode encontrar-se na máxima evangélica “dai
a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” uma raiz histórica e
cultural deste princípio. Essa separação entre Deus e César tinha um alcance
revolucionário no império romano, assente no culto religioso do imperador.
Podemos dizer que se fecha a porta à absolutização do poder político que gera o
totalitarismo. E também se distingue de civilizações como a islâmica, onde a
lei religiosa e a lei civil se confundem. Isto vem sendo salientado em vários
documentos dos últimos Papas, sendo de destacar, a este respeito, por exemplo,
o discurso de Bento XVI no parlamento alemão.
O
laicismo vai além da neutralidade e da aconfessionalidade do Estado. Traduz-se
na assunção pelo Estado de uma ideologia hostil à religião ou, pelo menos,
indiferente à relevância social da religião. A liberdade religiosa é restringida
a uma dimensão pessoal (sendo que as todas as convenções internacionais de
proteção dos direitos humanos reconhecem também a dimensão pública e
comunitária dessa liberdade). O laicismo em larga medida caracterizou a nossa
primeira República. Tradicionalmente tem influenciado a conceção da laicidade
prevalecente em França (a “laïcité de
combat” ou “laïcité francaise”), em nome da qual estão excluídas aulas de
religião em escolas públicas, têm sido removidas de espaços públicos presépio e
estátuas de santos e, precisamente, têm sido proibidos apoios públicos (como a
cedência de espaços de estabelecimentos escolares) a eventos religiosos.
O
laicismo esquece, pois, a dimensão social e cultural da religião. Que o Estado
seja laico e neutral, não significa que a sociedade seja laica e o que Estado
pretenda impor ou promover uma sociedade
laica e religiosamente neutra. Não significa ignorância ou indiferença em
relação à dimensão social e cultural da religião. Essa indiferença impedirá o
Estado de cumprir a sua missão de serviço à sociedade, desde logo porque ignora
uma das mais relevantes características desta e aquilo que para muitos dos seus
cidadãos é mais precioso.
Considerar
a dimensão social da religião é reconhecer o papel que as várias comunidades podem
desempenhar na realização pessoal dos seus membros e, sobretudo, no reforço da
solidariedade social. É reconhecer, por exemplo, o papel que em Portugal tem
desempenhado a Igreja Católica (e, à sua medida, também outras comunidades
religiosas) no campo das instituições de solidariedade social, e situações de
crise económica e social ou no acolhimento de imigrantes e refugiados.
Vistas
as coisas nesta perspetiva, não será ilegítimo e contrário ao princípio da
laicidade que o Estado apoie iniciativas de comunidades religiosas, e até a
construção de lugares de culto, em função da sua relevância social. Seria uma
forma de discriminação negativa da religião (e não de neutralidade), e de ignorância
da importância que esta tem para muitos cidadãos e contribuintes, recusar tais
apoios quando não se recusam apoios a eventos culturais e desportivos sem
conotação religiosa, porventura sem a relevância pessoal e social dos que têm
essa conotação.
O
que a laicidade do Estado impede é que se favoreçam umas comunidades religiosas
em relação a outras, segundo critérios que não sejam o da respetiva
representatividade e relevância social. Para alguns efeitos, será justo um
tratamento diferenciado em função do número de crentes de cada religião (assim,
por exemplo, quanto aos tempos de antena em canais públicos de televisão),
porque a igualdade também se respeita quando se trata de forma desigual o que é
objetivamente desigual. Mas não deixam de ter relevância social iniciativas de minorias
religiosas com um mínimo de expressão, e também elas poderão receber apoios
estatais.
Por
outro lado, tais apoios devem obedecer ao princípio da subsidiariedade, isto é,
devem ser apoios, não uma forma de assunção integral de custos de edifícios e
eventos que dispense o contributo das próprias comunidades de acordo com as
suas possibilidades.
Expressão
desta visão “aberta” e “positiva” da laicidade é o princípio da cooperação
entre o Estado e as comunidades religiosas, consignado no artigo 5.º da Lei da
Liberdade Religiosa: «O Estado cooperará com as igrejas e
comunidades religiosas radicadas em Portugal, tendo em consideração a sua
representatividade, com vista designadamente à promoção dos direitos humanos,
do desenvolvimento integral de cada pessoa e dos valores da paz, da liberdade,
da solidariedade e da tolerância.»
Partindo
destes pressupostos, parece não suscitar dúvidas a legitimidade das várias
formas de apoio que a realização das Jornadas Mundiais da Juventude tem
recebido e vai receber dos poderes públicos (sem querer aqui discutir o
montante de cada uma das despesas em causa), do governo e de autarquias locais
de vários pontos do país e de várias tendências políticas. Todos estes
políticos, católicos e não católicos, reconhecem a relevância social deste
evento.
A
relevância social das Jornadas Mundiais da Juventude é notória. Trata-se,
talvez, do encontro de maior dimensão alguma vez realizado em Portugal e este
tipo de jornadas são, talvez, o encontro juvenil de maior dimensão em todo o
mundo. Perto de um milhão de jovens dos mais variados países terá uma
oportunidade irrepetível de conhecer o nosso país e a nossa cultura. Há um
retorno financeiro que compensará as despesas realizadas. Mas há, sobretudo,
outro retorno, a que são sensíveis crentes e não crentes: a mensagem das
Jornadas é uma mensagem assumidamente cristã, sim, e também de fraternidade universal.
Uma mensagem da maior importância numa atualidade marcada pela guerra, pelos
nacionalismos “exacerbados e agressivos” de que fala o Papa Francisco, e por
polarizações de vária ordem. Essa fraternidade há de ser vivida naqueles dias e
no futuro dessa multidão de jovens. Com o sucesso dessas Jornadas todos os
portugueses ganham.
artigo, publicado no
jornal digital Sete Margens
Pedro
Vaz Patto
(presidente
da Comissão Nacional Justiça e Paz)


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