domingo, 12 de março de 2023

A Banda Desenhada e os Livros de Bolso


JORGE  GOLIAS


Foi por aqui que todos teremos começado nas leituras não obrigatórias. As minhas memórias começam em O Mosquito (50 centavos ou 5 tostões), depois o Mundo de Aventuras e, finalmente, o Cavaleiro Andante. São estes os meus mais remotos vícios, porque os tive, das leituras de chegada semanal, que me levava muitas vezes a esperas ansiosas, para ver se o herói se salvava ou se salvava a heroína, sempre uma bela mulher, muitas vezes uma princesa de sonhar. Depois de juntar os tostões do preço, que a mãe ou a avó sempre arranjavam, ali à porta da que foi a livraria Martins, na avenida da República, eu esperava a chegada do libreto de BD. E lia-o logo ali em quase desespero, deixando para mais tarde, já em casa, no retiro do meu quarto, uma leitura devota, aplicada, degustando as frases como se fossem comidinha gourmet.

Infelizmente não guardo nenhum exemplar destes livrinhos de papel de jornal, talvez de mais qualidade o Cavaleiro Andante, e mais caro também. E juro que não fui eu que os joguei borda fora, pois os juntei religiosamente.

Esta prática literária deve-me ter ocupado alguns tempos livres, poucos, porque se liam rapidamente, até aos meus 12 anos. Depois devo ter começado a reparar que havia outra literatura mais romanesca, onde se contavam belas histórias de amor e devo ter ido nessa direcção. Não me lembro do primeiro livro destes que li nas leituras obrigatórias, mas talvez fosse A Morgadinha dos Canaviais, do Júlio Dinis que conta a história de um lisboeta, Henrique de Souselas, que um dia aterra numa aldeia do Norte. Romance logo em potência que não correu bem, mas que acabou bem, como acabavam quase todos. Depois talvez o Primo Basílio, de que só me lembro do nome da personagem principal, Jorge, e do que sei que foi uma das primeiras obras do realismo português queirosiano.

E, pronto, as palavras são como as cerejas e lá fujo eu do tema que me impus ab initio. Mas diga-se em abono da verdade que o tema, em termos de BD estava para mim esgotado porque pouca mais BD li na vida, o que não abona muito em meu favor, porque é um excelente género literário/artístico.

Ontem recebi uma newsletter da In Libris, alfarrabista on line que frequento e que vem fazendo promoções diárias. A de ontem era então, imaginem, um conjunto de 655 livros policiais da Colecção Vampiro (o completo era de 703) no valor de 300 euros. A colecção completa era de 500 euros. Estamos a falar de cerca de 46 cts a unidade! Sendo que estes livros eram (são) de bolso (11x16cm) de cerca de 3 centenas de páginas, editados e com capas de bons pintores ou ilustradores: o surrealista Cândido Costa Pinto, Lima de Freitas e Infante do Carmo. Logo grande qualidade na impressão portuguesa dos grandes autores policiais, Agatha Christie, Erle Stanley Gardner, Georges Simenon, etc. Pois desta colecção, de que bem me lembro, apenas detecto um livro na minha Biblioteca: O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha Cristie, com uma interessante capa surrealista (sem crédito autoral) e com o seu Poirot em edição de 1947.

Vamos fechar esta crónica fazendo a ligação entre a BD e o policial de bolso. Assim: o escritor Diniz Machado foi chefe de redacção da edição portuguesa da BD sobre o Tintin. Mais tarde tornou-se ele também escritor de policiais, mas para isso adoptou o nome Dennis McShade, pois eram os anglo-saxónicos que dominavam este género. E assim vendeu, e eu também o comprei sem saber que era um jornalista desportivo português que escrevia aquilo e bem.

Mas aqui chegado não podia fechar a crónica sem lembrar que Diniz Machado em 1977 publicou o romance O Que Diz Molero, Bertrand, que eu comprei no Continente, em 1984, 13ª edição, por 599 escudos. E que fez uma carreira de mais de 20 edições e 100 mil exemplares. Uma bomba! Que vendeu em 6 línguas e andou pelo teatro e cinema. Quando apareceu a crítica foi unânime a anunciar um novo grande escritor português, nobelizável, que introduziu uma “nova cultura de romance” (Eduardo Lourenço), “um livro que não ganhou uma ruga e permanece fundamental” (Clara Ferreira Alves), “um livro do nosso tempo” (António Mega Ferreira) ou “Uma Obra-prima” (António Alçada Baptista). Pois, quando se esperava o início de uma carreira literária à Saramago, tardia mas brilhante, aconteceu o mesmo que a muitos outros escritores e escritoras que ficaram famosos (as) por apenas um livro. Ou seja, Diniz Machado pôs a carne toda no assador! Que maneira tão rasca de acabar a crónica!

CNX 9 Mar 2023                                                                                                                               JG82

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Tintim traduzido para mirandês.

 

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