JORGE GOLIAS
Infelizmente não guardo nenhum exemplar destes livrinhos de
papel de jornal, talvez de mais qualidade o Cavaleiro Andante, e mais
caro também. E juro que não fui eu que os joguei borda fora, pois os juntei
religiosamente.
Esta prática literária deve-me ter ocupado alguns tempos
livres, poucos, porque se liam rapidamente, até aos meus 12 anos. Depois devo
ter começado a reparar que havia outra literatura mais romanesca, onde se
contavam belas histórias de amor e devo ter ido nessa direcção. Não me lembro
do primeiro livro destes que li nas leituras obrigatórias, mas talvez fosse A
Morgadinha dos Canaviais, do Júlio Dinis que conta a história de um
lisboeta, Henrique de Souselas, que um dia aterra numa aldeia do Norte. Romance
logo em potência que não correu bem, mas que acabou bem, como acabavam quase
todos. Depois talvez o Primo Basílio, de que só me lembro do nome da personagem
principal, Jorge, e do que sei que foi uma das primeiras obras do realismo
português queirosiano.
E, pronto, as palavras são como as cerejas e lá fujo eu do
tema que me impus ab initio. Mas diga-se em abono da verdade que o tema,
em termos de BD estava para mim esgotado porque pouca mais BD li na vida, o que
não abona muito em meu favor, porque é um excelente género literário/artístico.
Ontem recebi uma newsletter da In Libris, alfarrabista
on line que frequento e que vem fazendo promoções diárias. A de ontem
era então, imaginem, um conjunto de 655 livros policiais da Colecção Vampiro (o
completo era de 703) no valor de 300 euros. A colecção completa era de 500
euros. Estamos a falar de cerca de 46 cts a unidade! Sendo que estes livros
eram (são) de bolso (11x16cm) de cerca de 3 centenas de páginas, editados e com
capas de bons pintores ou ilustradores: o surrealista Cândido Costa Pinto, Lima
de Freitas e Infante do Carmo. Logo grande qualidade na impressão portuguesa
dos grandes autores policiais, Agatha Christie, Erle Stanley Gardner, Georges
Simenon, etc. Pois desta colecção, de que bem me lembro, apenas detecto um
livro na minha Biblioteca: O Assassinato de Roger Ackroyd, de Agatha
Cristie, com uma interessante capa surrealista (sem crédito autoral) e com o
seu Poirot em edição de 1947.
Vamos fechar esta crónica fazendo a ligação entre a BD e o
policial de bolso. Assim: o escritor Diniz Machado foi chefe de redacção da
edição portuguesa da BD sobre o Tintin. Mais tarde tornou-se ele também escritor
de policiais, mas para isso adoptou o nome Dennis McShade, pois eram os
anglo-saxónicos que dominavam este género. E assim vendeu, e eu também o
comprei sem saber que era um jornalista desportivo português que escrevia
aquilo e bem.
Mas aqui chegado não podia fechar a crónica sem lembrar que
Diniz Machado em 1977 publicou o romance O Que Diz Molero, Bertrand, que
eu comprei no Continente, em 1984, 13ª edição, por 599 escudos. E que fez uma
carreira de mais de 20 edições e 100 mil exemplares. Uma bomba! Que vendeu em 6
línguas e andou pelo teatro e cinema. Quando apareceu a crítica foi unânime a
anunciar um novo grande escritor português, nobelizável, que introduziu uma
“nova cultura de romance” (Eduardo Lourenço), “um livro que não ganhou uma ruga
e permanece fundamental” (Clara Ferreira Alves), “um livro do nosso tempo” (António
Mega Ferreira) ou “Uma Obra-prima” (António Alçada Baptista). Pois, quando se
esperava o início de uma carreira literária à Saramago, tardia mas brilhante,
aconteceu o mesmo que a muitos outros escritores e escritoras que ficaram
famosos (as) por apenas um livro. Ou seja, Diniz Machado pôs a carne toda no
assador! Que maneira tão rasca de acabar a crónica!
CNX 9 Mar 2023 JG82


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