Passam agora 151 anos sobre as famosas Conferências do
Casino, lideradas por Antero de Quental. Este grande poeta e
filósofo tinha então 29 anos, e iria viver apenas mais 20 anos. Mas com esta
tenra idade a sabedoria do escritor era notável, sendo a sua perícia oratória
já conhecida do tempo Coimbrão.
Este ciclo de conferências veio na sequência da também famosa
Questão Coimbrã com a Carta do Bom Senso e do Bom Gosto, do mesmo Antero,
sempre ele na frente da luta progressista de ideias, de cultura e de política.
E são os mesmos que agora já se tinham constituído no famoso
grupo dos Vencidos da Vida, os autores da primeira Tertúlia Literária
portuguesa, também conhecidos por Geração de 70, com a excepção do
Ramalho Ortigão. Talvez porque ainda só tinham passado 5 anos do duelo entre
Ramalho e Antero, que este venceu.
As conferências decorreram entre 22 de Maio e 19 de Junho de 1871, tendo os signatários declarado que queriam reflectir sobre as mudanças politicas e sociais do século. Havia uma clara intenção revolucionária e era um bom começo ligar Portugal com o movimento de ideias que grassava então pela europa mais evoluída, com França à cabeça.
Com esta data de Maio, mas atrasado a sair em Junho, saiu o
primeiro opúsculo da As Farpas onde Eça divulgava este acontecimento, assim: “É
a primeira vez que a revolução, sob a sua forma científica tem em Portugal a
palavra”. Também foi a primeira vez que se falou em Portugal no carácter científico
da revolução. Também eu disse isso durante o PREC e foi por isso que tentei uma
solução científica. Pois, eu sei, ia lixando tudo.
É oportuno lembrar que em França se vivia o dramatismo da
Comuna de Paris, em Espanha a rainha tinha sido destronada e na Itália e
Alemanha corriam processos de unificação.
Eça farpava então que se iriam ouvir as vozes dos
proletários: “É muito mais cómodo encontrarmo-nos com quem representa o
proletário, sossegadamente na sala do Casino, do que encontramos o próprio
proletário mudo, taciturno, pálido de ambição ou de fome, armado de um chuço à
embocadura de uma rua”.
No fundo, Eça queria evitar o dramatismo da situação
internacional e apelava a um diálogo com as forças mais extremistas. Talvez por
isso, o tácito consentimento do poder, leia-se monarquia, leia-se, D. Luís,
liberal, culto, com o qual apareceram os partidos democráticos, socialista,
reformista e progressista e durante cujo reinado se gerou aquilo que ficou
conhecido como o rotativismo.
Mas, ainda assim, as conferências acabariam por ser proibidas
quando começaram a usar uma linguagem mais agressiva.
A primeira conferência, em 22 de Maio, foi proferida
exactamente por Antero de Quental que abordou a questão política justificando
esta iniciativa para libertar Portugal do “sequestro dos grandes movimentos
europeus”. Apesar da bonomia do rei, alguns dos desta geração viviam em quase
corte de relações com a Casa Real, havendo inclusive uma recusa de um convite
do rei, dada por Guerra Junqueiro.
Na terceira conferência, Eça de Queiroz, não abordou a
política, mas sim o momentoso problema da corrente literária do Realismo que
iria caracterizar a sua obra.
Surgiu então, em 27 de Maio, a mais famosa das conferências
que foi “CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES nos últimos três séculos”,
por Antero de Quental.
A versão que nos chega é uma reconstrução do discurso através
dos extractos de jornais e notas de amigos de Antero. Vejamos algumas passagens
deste notável discurso, feito por um jovem de 29 anos!
O início marca logo o terreno desta conferência: “A
decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais
incontestáveis, mais evidentes da nossa história…”
“Meus Senhores: a Península, durante os séculos 17, 18 e 19, apresenta-nos
um quadro de abatimento e insignificância, tanto mais sensível quando contrasta
dolorosamente com a grandeza, a importância e a originalidade do papel que
desempenhámos no primeiro período da Renascença, durante toda a Idade Média, e
ainda nos últimos séculos da Antiguidade. Logo na época romana aparecem os
caracteres essenciais da raça peninsular: espírito de independência local, e
originalidade do génio inventivo. Em parte alguma custou tanto à dominação
romana o estabelecer-se, nem nunca chegou a ser completo esse estabelecimento”.
(Abro aqui um parêntesis para dizer que Antero revela neste
discurso saber muito de história peninsular o que estará ligado ao facto de o
seu grande amigo, e também desta geração, Oliveira Martins, andar a escrever a
História da Civilização Ibérica, aliás muito bem recebida no país vizinho).
Continua Antero assim: “Entre as 43 universidades
estabelecidas na Europa durante o séc. 16, 14 foram fundadas pelos reis de
Espanha. A filosofia neo-platónica, que substituía por toda a parte a velha e
gasta Escolástica, foi adoptada pelos espíritos mais eminentes. Um estilo e uma
literatura nova surgiu com Camões, com Cervantes, com Gil Vicente, com Sá de
Miranda, com Lope de Vega…”
Continua Antero dizendo: “Nos últimos 3 séculos não produziu
a Península um único homem superior… não saiu da Península uma só das grandes
descobertas intelectuais…Durante200 anos de fecunda elaboração, reforma a
Europa as ciências antigas, cria 6 ou 7 ciências novas, a anatomia, a
fisiologia, a química, a mecânica celeste, o cálculo diferencial, a crítica
histórica. A geologia: aparecem os Newton, os Descartes, os Bacon, … - onde
está…um nome espanhol ou português? … É nesses novos fenómenos que se devem
buscar as causas da decadência da Península. Ora esses fenómenos capitais são
três, e de três espécies: um moral, outro político, outro económico. O 1º é a
transformação do catolicismo pelo Concílio de Trento. O 2º é o estabelecimento
do absolutismo pela ruína das liberdades locais. O 3º o desenvolvimento das
conquistas longínquas”.
Cita muito a religião com factor de atraso, a Reforma com Lutero
e Calvino, como factor de progresso, a condenação do Concílio de Trento como
factor de desconsideração do Homem, a condenação do Concílio de Latrão que
lança o anátema sobre quem não crê.
E agora digo eu que
este Frei foi Bispo Primaz de Braga, que teve a coragem de dar a volta às suas
cerca de 140 paróquias, ajudando e denunciando muitas situações negativas. Por
isso foi canonizado há 3 anos pelo Papa Francisco. Mais vale tarde do que
nunca.
Antero recorda ainda que foi neste concílio que a Igreja pôs
restrições à leitura da Bíblia que equivaliam a uma verdadeira proibição. Pois,
muito tempo depois, dizia Saramago que a Bíblia era um catálogo de horrores!
Refere o desastre da Nação dizendo que “Se Sebastião não
fosse absoluto, não teria ido enterrar em Alcácer Quibir a nação portuguesa, as
últimas esperanças da Pátria”.
Então e África, Antero? Para esta geração a vida era em
Lisboa a olhar para a Europa. Mas Antero guardou sobre África o mais impactante
do discurso e disse algo como isto: “A estas influências deletérias, a estas
duas causas principais da decadência, uma moral e outra política, junta-se uma
terceira, de carácter económico: as Conquistas. Há dois séculos que os livros,
as tradições e a memória dos homens, andam cheios dessa epopeia guerreira, que
os povos peninsulares, atravessando oceanos desconhecidos, deixaram escrita por
todas as partes do mundo. Embalaram-nos com essas histórias: atacá-las é quase
um sacrilégio. E, todavia, esse brilhante poema em acção foi uma das maiores
causas da nossa decadência”.
Mas, Antero ressalva a gesta histórica que inspirou Camões,
avisando, no entanto, que “quem domina não é já a musa heroica da epopeia: é a
Economia Política… Ora é à luz da economia política que eu condeno as
Conquistas e o espírito guerreiro”.
A partir daqui o discurso é extremamente duro e implacável
exibindo a Inglaterra que soube aproveitar as riquezas trazidas das Áfricas nas
suas indústrias e na mais poderosa agricultura do mundo! E nós? E os espanhóis?
Disse isto:
“Pelo contrário, nós portugueses e espanhóis, que destino
demos às prodigiosas riquezas extorquidas (o termo é este mesmo, dito há 151
anos!) aos povos estrangeiros?” (e quem diria que depois disto viria o Portugal
do Minho a Timor!). “Respondam a nossa indústria perdida. O comércio arruinado,
a população diminuída, a agricultura decadente, e esses desertos da Beira, do
Alentejo, da Estremadura espanhola, das Castelas, aonde não se encontra uma
árvore, um animal doméstico, uma face humana!”
Se continuasse quase reproduzia este memorável discurso feito
por um jovem de 29 anos, mentor da geração mais brilhante de sempre da nossa
História: a Geração de Setenta, os Vencidos da Vida. Também eu pertenço à
Geração de 70, mas do século vinte, à geração que fez o 25 de Abril. Algumas
semelhanças há entre elas!
Obriguei os meus leitores a um esforço inusual, sabendo-se
que em Portugal se lê cada vez menos, mas tinha de responder a um apelo que
vinha sentindo há muito tempo, o de não deixar passar esta efeméride em branco.
Termino, porém, ainda com mais uma citação, que é o fim desta
história: “Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo
antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno”.
Carnaxide, 23 de Maio de 2022
Jorge Sales Golias




Parabéns pela bela abordagem que faz sobre Antero de Quental e a geração de 70!
ResponderEliminarAntero foi um revolucionário e desrespeitou Castilho; para ele o Socialismo era a sua ideologia lida em Michelet e Proudhon. Reconheço que é um dos melhores poetas da Literatura Portuguesa.
Parabéns por publicamente chamarem o maldito por criminoso, já não estou sozinha! Acrescento: Putin é um assassino, bandalho, aldrabão, vigarista, ladrão, mentiroso, hipócrita, cínico, monstro, impiedoso, tirano, bandido, monstro, bárbaro, agressor, - e tem de ser rebatido e repelido dessa maldita guerra. VIVA a UCRÂNIA unida, livre, soberana, independente, EUROPEIA e em PAZ...
ResponderEliminarJorge Golias deve ser felicitado por não ter deixado "passar em branco" a efeméride das "Conferências do Casino" e as " Causas da Decadência dos Povos Peninsulares" de Antero de Quental, que constuituíram um abanão na pasmaceira mental da época.
ResponderEliminarSe em vez de um acontecimento cultural, tão decisivo quanto ignorado pelos nossos mentores e comentadores, se tratasse de uma comemoração futebolística, não faltariam multidões de futebolófilos a lembrá-la.
... E COMO É QUE ESSES COMENTADORES, QUE OUVIMOS A TODA A HORA, REPETINDO O QUE DIZEM UNS E OUTROS IAM CHEGAR A COMENTAR A VERDADEIRA "CULTURA" ?! ...
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