|
"Decidi preparar a invasão de Portugal" Por Maria José Oliveira* (in
Público) 23 de Outubro de 2009 Em 1940, o Alto Estado-Maior
espanhol elaborou, a pedido de Franco, um plano de ataque a Portugal, com a
ocupação de Lisboa e a tomada de toda a costa nacional. O documento foi
descoberto pelo historiador espanhol Manuel Ros Agudo, que estará em Lisboa,
na terça-feira, para dar uma palestra sobre o tema O plano não permitia
qualquer falha. Tudo começaria com um ultimato (impossível de cumprir) e um
prazo limite de 24 horas ou 48 horas, findas as quais teria início a invasão
de Portugal. A operação incluía
intervenções por terra, ar e mar e as primeiras incursões terrestres,
realizadas por um contingente de 250 mil combatentes espanhóis, avançariam em
direcção a Ciudad-Rodrigo, Guarda, Celorico da Beira, Coimbra, Lisboa, Elvas,
Évora e Setúbal - a ocupação da capital e a divisão do país em três parcelas
constituíam os passos fundamentais para a conquista de Portugal. Ao longo de quase 70 anos, o Plano
de Campanha nº 1 (34), o grande projecto de Franco para invadir Portugal,
delineado em plena II Guerra Mundial (1940), esteve "adormecido"
nos arquivos da Fundação Francisco Franco. Os rumores da tentação franquista
de conquistar Portugal há muito que circulam no meio historiográfico - até
porque uma das grandes orientações da política externa de António de Oliveira
Salazar, durante o conflito mundial, consistia na independência nacional face
à ameaça da anexação espanhola. Mas só recentemente foi possível
confirmar que os temores de Salazar tinham justificação. Em 2005, o historiador
espanhol Manuel Ros Agudo foi o primeiro investigador a aceder às cem páginas
que compõem o plano de ataque contra Portugal, elaborado pela 1ª secção do
Alto Estado-Maior (AEM) espanhol no segundo semestre de 1940. O ineditismo da descoberta levou o
investigador, de 47 anos, a dedicar-lhe um capítulo na sua obra A
Grande Tentação - Franco, o Império Colonial e o projecto de intervenção
espanhola na Segunda Guerra Mundial, recém-editada em Portugal pela Casa
das Letras. Na próxima terça-feira, Ros Agudo é um dos oradores da conferênciaA
Península Ibérica na II Guerra Mundial - Os planos de invasão e defesa de
Portugal, a realizar no Instituto de Defesa Nacional, a partir das 14h30,
numa iniciativa conjunta com o Instituto de História Contemporânea. Devastador e célere O projecto de invadir Portugal não
configurava uma "acção isolada", como se pode ler numa das alíneas
dos documentos analisados por Ros Agudo. Tratava-se de uma operação
preventiva, no âmbito da ambição franquista de declarar guerra à Inglaterra.
Numa altura em que França já caíra sob o domínio da Alemanha nazi, Espanha,
então com o estatuto de país não-beligerante, acalentava o sonho de um
império norte-africano. Nem Hitler nem Mussolini podiam, em 1940, garantir a
Franco a concretização deste desejo. Mas isso não fez esmorecer as ideias
expansionistas e bélicas do "Caudilho". A guerra contra a Inglaterra teria
início com a tomada de Gibraltar. Porém, os estrategas do AEM prenunciavam
que a primeira resposta britânica a este ataque fosse "um desembarque em
Portugal com a ideia de montar uma cabeça-de-ponte para a invasão da
península". Por isso, no plano ofensivo,
determinava-se o emprego dos "meios necessários para bater o Exército
português e o seu Aliado; ocupação do país e defesa das suas costas". Tudo isto seria realizado sem o
conhecimento prévio de Hitler e Mussolini. Porque Franco "queria manter
o carácter secreto das operações, ter liberdade de manobra e também por
questões de orgulho", explicou Ros Agudo ao P2. Contudo, após iniciados os
ataques a Gibraltar e a Portugal, Espanha previa o apoio da aviação alemã,
"nomeadamente com o reforço de bombardeiros e caças". A
participação da aviação espanhola estava também definida no plano de ataque
(com as missões de "destruir a aviação inimiga e as suas bases" e
de "atacar os núcleos de comunicação, especialmente nas direcções da
invasão, e os transportes de tropas"). Mas Espanha receava que o vasto
contingente de homens em terra se confrontasse com a superioridade
luso-britânica no ar. Neste âmbito, o reforço alemão seria indispensável.
Assim como se afigurava prioritário um ataque terrestre devastador e célere. Para a Marinha, o AEM
planeara um conjunto de acções de defesa ("exercer acções com os
submarinos sobre as comunicações inimigas", "proteger as
comunicações com o Protectorado de Marrocos e Baleares"; "efectuar
acções de minagem nos próprios portos") que pressupunham uma reacção
rápida da Marinha britânica. E Salazar? Em Dezembro de
1940, quando Franco escreveu, assessorado pelo AEM, que decidira atacar
Portugal - "Decidi [...] preparar a invasão de Portugal, com o objectivo
de ocupar Lisboa e o resto da costa portuguesa" -, o Tratado de Amizade
e Não Agressão, firmado pelos dois países em Março de 1939, não passava de um
documento sem importância para o "Caudilho". Mas foi a partir desse acordo que
os franquistas intensificaram as pressões diplomáticas para Portugal deixar
de respeitar os compromissos da aliança luso-britânica: fizeram-no através de
Nicolau Franco, irmão do ditador espanhol e embaixador em Lisboa; e também
"aconselharam" o então embaixador português em Madrid, Pedro
Teotónio Pereira. Perante os planos de
anexação, Espanha não desprezava apenas o pacto de não agressão, mas também a
intervenção activa e material do Governo de Salazar no apoio aos franquistas
durante a Guerra Civil de Espanha - três a cinco mil "viriatos"
combateram nas fileiras das milícias da Falange, do Exército e da Legião
espanhola, muitos deles recrutados através de anúncios nos jornais pagos pelo
Estado; a rádio emitia propaganda franquista; e Salazar promoveu a
mobilização anti-comunista (recolhendo benefícios para a sustentação do
Estado Novo). Atentando no rigor e na
determinação plasmadas no Plano de Campanha nº 1 (34), urge questionar qual o
destino que reservava Franco para o ditador português, na eventualidade de a
ocupação ter avançado. A documentação descoberta por Ros
Agudo cinge-se aos aspectos puramente militares e não contempla a "sorte
pessoal" do presidente do Conselho. Mas o historiador, professor de
História Contemporânea na Universidade San Pablo, em Madrid, avançou ao P2
duas hipóteses: "O destino de Salazar e do seu Governo, no caso de
Portugal não conseguir resistir à invasão, seria estabelecerem-se nas
colónias (Angola ou Moçambique); ou podiam exilar o Governo em Londres, como
aconteceu com alguns países europeus ocupados pelo Eixo". Palavras encomendadas Quanto ao
futuro de Portugal, não há qualquer referência nos documentos, ficando sem
resposta a pergunta sobre se a ocupação seria ou não temporária. No entanto, Ros Agudo cita no seu
livro as "inquietantes" palavras de Serrano Suñer, ministro dos
Assuntos Exteriores espanhol, ao seu homólogo alemão, Joachim von Ribbentrop,
datadas de Setembro de 1940: "(...) ninguém pode deixar de se dar conta,
ao olhar para o mapa da Europa, que, geograficamente falando, Portugal na
realidade não tinha o direito de existir. Tinha apenas uma justificação
moral e política para a sua independência pelo facto dos seus quase 800 anos
de existência". Ros Agudo acredita que estas
palavras, proferidas em Berlim, foram "encomendadas" a Suñer por
Franco, com a intenção de averiguar "a reacção de Hitler perante a ideia
de um Portugal integrado num futuro grande Estado ibérico". Mas o Führer não
quis fazer qualquer compromisso sobre este assunto", nota o historiador. Apesar das declarações de
Serrano Suñer, Manuel Ros Agudo não crê que Franco pretendesse "uma
integração pura e dura num Estado ibérico" Porque isso arrastaria
"muitos problemas". "É possível que, sob uma Nova Ordem
europeia, na eventualidade da vitória fascista e da derrota da Grã-Bretanha,
Franco tivesse permitido a existência de um Portugal marioneta, fascista e
inofensivo", diz. E, continuando num exercício de História virtual,
acrescenta: "Se a Rússia tivesse sido eliminada por Hitler, o grande
confronto, ou a Guerra Fria dos anos 50 e décadas posteriores, teria
acontecido entre os EUA, por um lado, o grande bloco euro-africano fascista,
pelo outro, assumindo este último um papel semelhante ao bloco soviético que
conhecemos. Tanto Espanha como Portugal teria feito parte desse bloco
constituído pelas potências do Eixo". Nos últimos meses de 1940, o
Plano de Campanha nº 1 (34) esteve prestes a ser realizado. Franco ordenara a
prontidão militar para o ataque. Mas o que lhe sobrava em meios operacionais
faltava-lhe em condições políticas, nomeadamente a garantia dos apoios alemão
e italiano e a concretização das ideias imperialistas. "Os requisitos
políticos para dar esse passo - as garantias de obtenção de um império em
África - acabaram por não ser dados", explica Ros Agudo. O plano foi então depositado
em arquivo e tornado inacessível durante quase sete décadas. * A jornalista foi obrigada a demitir-se
do jornal Público em 2012 |
segunda-feira, 11 de outubro de 2021
TENTATIVA DE INVASÃO DE PORTUGAL EM 1940...
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Os mais lidos
-
Os mais lidos nestes ultimos meses... Posts Actuação do governo? 1.32K "Pessoas que menstruam". 848 FESTA ! 80...


Sem comentários:
Enviar um comentário