Manuel Cardoso
Há muitos muitos anos íamos pescar para Miranda,
Picote e a jusante de Bemposta, onde com sorte se enchia à linha com anzol um
bom cesto de barbos, bogas e escalos. Desses passeios fazia parte, à ida ou à
vinda, comprar a lavradores de Bemposta um ou dois garrafões dum vinho palhete,
forte e rescendente. Ficou-me de então o contacto com a margem direita do Douro
Internacional e gravei na memória o vale espantoso que é esse troço do rio, com
as suas fragas abruptas, abrigos precários para aprestos, animais e
contrabando, campos cultivados em nesgas, oliveiras e amendoeiras como meros
apontamentos de sobrevivência, trilhos que têm de se adivinhar, aves de rapina
vigiando oportunidades – e vinhas heróicas a produzir o tal vinho!
Do lado de Espanha há hoje o “vino de
la Tierra Arribes del Duero”, um VQPRD reconhecido como DO ARRIBES, de
vinhas do noroeste de Salamanca e do sudoeste de Zamora, geograficamente unidas
pelos vales encaixados do Douro e afluentes principais Águeda e Tormes e pela
ecologia: do solo, do clima mediterrânico menos seco que o do nosso Douro
Superior e diferente dos outros segmentos deste rio, também eles viníferos com
carácter. Do mapa varietal das castas destas Arribes, há uma, comum a quase
toda a bacia hidrográfica do Douro, a Tempranillo (Tinta Roriz), mas as outras
predominantes são a Juan Garcia, o Rufete, a Garnacha, a Mencía, a Dona Branca
(Malvasia Castelhana), quase todas vicejando em pé baixo (cabeça de salgueiro,
dir-se-á em Portugal), poucas em espaldar, vinhas antigas, anteriores a 1956.
Há adegas de vitivinivultores, de empresas e cooperativas a produzir sob a
marca-chapéu ARRIBES e o Conselho Regulador trabalha na certificação do selo de
garantia e na promoção das características distintivas.
Há umas semanas foi-me oferecida uma
garrafa, ainda sem rótulo, dum field blend feito de Verdelho
Branco, Donzelinha, Malvasia, Posto Branco, Bastardo Branco, Dedos de Dama e
outras uvas com menor expressão, sãs, pisadas sem desengaçar e imediatamente
prensadas, sem adição de leveduras alóctones pelo que fermentaram “de forma selvagem”
apenas com as indígenas e sem controlo de temperatura. As fermentações
alcoólica e maloláctica ocorreram completamente. 13%. Os experientes enólogos
praticam uma filosofia de intervenção mínima em toda a vinificação pelo que o
mosto foi apenas trasfegado para barricas de carvalho francês em que estagiaram
dez meses em borra fina e sem batonnage. Essa garrafa foi experimentada cá em
casa pela Mariana, por um amigo meu, lavrador aqui da aldeia de Latães, o
António, e por mim. Não lhe poupámos elogios à surpresa e originalidade.
Chamar-se-á Belfo 2020, no mercado. A vinha donde provém fica em Bemposta, nas
arribas do Rio Douro.
O Visconde de Villa Maior escrevia já em
1865: “No concelho de Mogadouro estão as vinhas da Bemposta situadas sobre
as vertentes para o Douro, em frente da margem hespanhola d’este rio, e em
condições análogas às dos vinhedos de Fermoselhe, no reino vizinho, cujas
práticas de cultura e fabrico de vinho os da Bemposta copiam quasi
textualmente; assim os vinhos produzidos na Bemposta apresentam os mesmos
caracteres e são inteiramente comparáveis aos vinhos da província de Zamora, ou
pelo menos aos de Fermoselhe. Na Bemposta conserva-se a vinha baixa e rasteira,
sendo podada em galheiros e formando cabeça próximo da terra.”[1]
Tem havido mais estudos vitícolas do lado
português das Arribas quanto às características do clima e solo, as práticas
culturais associadas aos sistemas de condução, o reconhecimento duma
intervenção fitossanitária mínima porque as uvas são naturalmente sãs, a rega
desnecessária pela forma baixa das videiras podadas em cabeça de salgueiro, a
grande variedade de castas autóctones, algumas exclusivas desta região vitícola…
e daí vinhos muito específicos, de grande concentração pela velhice dos
vinhedos, propensos a uma grande identidade e qualidade.[2]
Uma DO ARRIBAS integrada na CVR de
Trás-os-Montes faria sentido com as suas características próprias.
Geograficamente aderida à raia do Douro Internacional desde Paradela até
Lagoaça, incluindo estas e os campos das povoações ribeirinhas de Bruçó,
Vilarinho dos Galegos, Bemposta, Urrós, Sendim, Picote, Vila Chã de Braciosa,
Cércio, Miranda do Douro, Vale de Águia e Aldeia Nova. Num segundo passo, faria
sentido que, como transfronteiriça, viesse a beneficiar desta sinergia para o
desenvolvimento regional e aumentar o valor a remunerar pelas uvas e vinhos
aqui produzidos. Competirá à CVRTM concertá-lo com as demais instituições. Toda
a DO Trás-os-Montes e IG Transmontano beneficiariam com mais esta diferenciação
entre o Planalto Mirandês e as Arribas, ganhando-se motivos para maior notoriedade
e atractividade turística desta região tão do interior mas tão internacional![3]
Manuel Cardoso
Consultor e escritor, ex Director Regional
de Agricultura e Pescas do Norte, 2011-2018; ex Vice-Presidente do IVV,
2019-2021.
[1] In Memoria Sobre os Processos de Vinificação
Empregados nos Principais Centros Vinhateiros do Continente do Reino, pela
Comissão Nomeada em Portaria de 10 de agosto de 1866, Lisboa, Imprensa
Nacional, 1867, pag. 16.
[2] Vide Nuno Magalhães, João Verdial Andrade,
António Castro Ribeiro e Afonso Martins, “A viticultura das Arribas do Douro
Internacional – uma história para contar, um futuro a reflectir”, publicado no
âmbito do Congresso das Arribas do Douro Internacional Norte, 2012. Disponível
on-line em pdf.
[3] A Comissão Europeia reconheceu uma DOP
transfronteiriça de vinho no vale do Maas, entre a Holanda e a Bélgica, a
Maasvallei Limburg, em 2017.
FONTE: https://www.agroportal.pt/das-arribas-do-rio-douro-manuel-cardoso/
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