ANTÓNIO MAGALHÃES
O problema, que deixaria
de ser um problema se assim o entendêssemos, não é o de que não nos
compreendemos uns aos outros, mas sim o de que, cada um de nós tem o seu
próprio mundo dentro de si e, espera que esse mundo seja entendido e percebido
pelos outros da mesma maneira que assim o concebemos.
Ora isso é impossível
uma vez que, cada um de nós tem dentro de si uma vida, muito mais intensa e,
talvez menos complicada, do que a vida exterior que é aquela que esbarra com as
incongruências e a falta de entendimento entre o que se é por dentro e, aquilo
que é possível ser por fora.
E é por falta desse
entendimento, que somos exímios críticos das nossas próprias falhas, que vemos
claramente nos outros, mas não tão claro assim para vermos que nos outros, elas
são o reflexo de nós mesmos.
Vemos os defeitos no
nosso semelhante pelo lado de dentro do nosso próprio mundo e,
incompreensivelmente, esquecemos que cada semelhante nosso tem o seu próprio
mundo interior.
Ontem saí do trabalho,
em Shipley, às duas da tarde. Apesar do sol bonito, estava frio.
Quando cheguei ao parque
de estacionamento, onde uma grande quantidade de carros, mortos até que uma
chave na ignição lhes desse vida outra vez, absorviam o sol pela chapa para
depois o dardejar de novo de volta à atmosfera, parei por uns segundos e deitei
os olhos em redor de todo o parque de estacionamento.
Não importa muito aqui
para o caso, o que vi, porque o que vi será provavelmente o que outros irão ver
quando chegarem ao parque. Ou seja, uma enorme quantidade de carros mortos, à
espera que a chave na ignição lhes dê vida – as árvores que ficam para lá da
vedação – o edifício do lado esquerdo, onde se situam os escritórios da
companhia.
Mas, e isso sim, é onde
está toda a magia da existência de cada ser humano, tudo isso que eu vi e,
outros irão ver também, tudo o que pensei no momento em que, mesmo distraído e
acostumado à monotonia da paisagem, os meus olhos viram, tudo o que senti, todo
esse enorme mundo que me acompanhou nesse momento e em todos os outros momentos
que são a minha vida, é um mundo só meu, um mundo visto do meu ângulo e da
minha perspetiva.
Não espero que mais
ninguém saia do seu próprio mundo e o que ele constitui, para ver o meu, do meu
ângulo. Isso é impossível.
Ao sair do parque de
estacionamento cruzei-me com o Jepson, que dentro do seu carro ao qual tinha
dado vida, uma vez mais, ao rodar a chave na ignição, me cumprimentou ao acenar
com a mão. Foi no momento em que me cruzei com ele e, na troca de acenos de
mão, que me lembrei, uma vez mais, que o Jepson existe. Depois, continuei o meu
caminho, com os meus pensamentos, os meus ângulos de visão, as minhas emoções a
eles associados e, como o comboio que desaparece no escuro depois de ter
entrado no túnel que o engoliu, também o Jepson desapareceu do meu mundo,
deixou de existir.
Vivemos no mesmo
planeta, trabalhamos na mesma companhia, por isso voltará a existir quando nos
cruzarmos novamente. No mundo dele, também eu existi por breves momentos…
Temos um mundo que nos
acompanha em paralelo com a morte, porque esse mundo, tal como o conhecemos,
deixará de existir quando a morte decidir dar o seu passo em frente.
Existimos uns para os
outros de maneira intermitente, à medida que nos cruzamos entre mundos,
pessoas, e, mesmo nessa interação que temos uns com os outros, só vemos uma
parte do mundo exterior que cada um consegue, no momento, dispor.
Existimos de maneira
intermitente, uns para os outros, com maior ou menor intensidade, conforme a
presença que experimentamos com o outro. Menos intenso com os desconhecidos com
quem nos cruzamos por acaso, mais intenso com os colegas de trabalho, porque
com eles passamos mais horas do dia, mais intenso com a mulher e filhos, mesmo
assim menos intenso do que com os amigos pelas horas que as redes sociais e a
televisão, bem como o tempo a dormir, nos rouba.
Vivemos, enquanto
vivemos, todos no mesmo planeta, no entanto, não vivemos todos no mesmo mundo.
(Diário das pequenas
reflexões)
António Magalhães

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