sábado, 17 de abril de 2021

O 25 de Abril. Onde e como eu o Vivi (9)

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Reflexões JBM_ABRIL_2021

J. Barreiros Martins Prof. Cat. Emérito Jubilado da Univ do Minho

 

 

Igreja da Misericórdia representa o barroco religioso em Olinda

A Igreja da Misericórdia, no Alto da Sé, é o tema da terceira reportagem da série sobre os primeiros prédios tombados pelo Iphan em Olinda, em 1938.

Voltámos a Recife que tem praia maravilhosa. Resolvemos tomar banho nela com toalhas de banho emprestadas pelo hotel.

Ambos conhecíamos a ladroagem que há nas praias. Por isso, combinámos ir um de nós de cada vez tomar banho, ficando o outro a guardar os pertences do primeiro. O primeiro foi o Vargas e eu fiquei a vigiar a toalha dele. O Vargas tinha metido uma nota de 100 cruzeiros sob a ponta da toalha que ficava mais longe da minha. Mas, Nada me disse a esse respeito. Eu vi os jovens jogando a “capoeira” e passando perto da toalha do Vargas, mas não dei importância porque julguei que nada haveria sob a toalha. Quando o Vargas chegou do banho diz-me : “Onde está a minha nota de 100 cruzeiros?” Pá. Eu respondi : Nada me disseste e passaram à beira da tua toalha uns “bandulos” jogando “capoeira” e passando perto da tua toalha, mas pensei que nada haveria sob a toalha. Eles estavam atrás e viram a manobra que fizeste metendo a nota sob uma ponta da toalha e logo arranjaram maneira de com dois dedos de um pé roubarem a nota.

Esta foi a última peripécia que nos aconteceu. De Recife voámos para o Rio de Janeiro e eu terminaria os meus trabalhos poucos dias depois. Antes disso o Reitor chamou-me ao gabinete dele e deu-me um telefone dizendo: "Telefone para a sua Esposa e tente convencê-la a vir para o Rio de Janeiro com toda a sua Família. Você tem o lugar de Professor Sénior à sua espera na PUC-RJ”.

Claro que eu não queria ser desagradável ao Reitor perante tanta amabilidade e um salário que era bem maior que o da UMinho. Por isso, liguei mesmo pra a Albertina relatando tais amabilidades. Mas já sabia da resposta que até tínhamos estudado antes: Eu tinha já 25 anos de serviço prestado ao Estado Português, bem como ela própria. Certamente que, no Rio de Janeiro  perderíamos esse tempo para a reforma. Por outro lado embora o salário fosse bem mais alto que o da UMinho, a educação dos filhos era muito mais dispendiosa bem como o aluguer de uma casa decente para se viver: só na zona dos “ricos”: Leblon . Por isso, o nosso “nível de vida” no Rio de Janeiro não seria maior que o que já tínhamos em Braga onde já tínhamos conseguido um empréstimo da CGD para comprar um apartamento num prédio que estava em construção na Rua João Antunes Guimarães.

Por isso, agradeci com muitas vénias ao Reitor e voltei a a Portugal, deixando na PUC-RJ vários colegas amigos como o Director da Engenharia Civil que ainda lá está hoje, e vários outros com os quais mantenho contactos esporádicos por email e, quando veem a Portugal sempre vão à FEUP e lá nos encontramos. 

Acerca da construção do prédio da Rua João Antunes Guimarães vale a pena relatar uma peripécia fruto do 25 de Abril, onde o próprio Mário Soares tinha aderido à ideia do PCP de os “trabalhadores” terem “direito à preguiça”. Era inverno, fazia frio e os trabalhadores que andavam na construção desse prédio, passavam a maior parte do tempo junto de uma grande fogueira que acenderam na área das traseiras. Isso fez com que o prédio levasse a construir mais um ano do que o previsto para estar concluído. E o Empreiteiro tinha um “Encarregado” no local muito sabedor também na relação com os “trabalhadores”. Mas, eu estava preocupado também com outra questão: Os canos de alimentação da água potável eram fabricados por uma Empresa algures no Norte do País que também tinha sido nacionalizada. O novo dono nada sabia sobre “controlo” de qualidade dos tubos fabricados que, pura e simplesmente deixou de ser feito. Então houve casos em que o tubo fabricado tinha rolos de raspas de plástico dentro. Esses trechos de tubo foram vendidos e aplicados em edifícios cujos moradores ficaram sem abastecimento de água potável durante meses, pois a “descoberta” do entupimento não era fácil e mais difícil era substituir o tubo. Felizmente não tivemos esse problema.

Claro que enquanto não ocupámos o 3º andar da rua João Antunes Guimarães tivemos de vir e ir todos os dias de Vila Fria (Viana do Castelo) com a Albertina a dar consultas em Barcelos. Rapidamente a Albertina passou a dar consultas também nos Centros de Saúde de Braga e depois somente nos centros de Saúde de Braga.

Por minha parte voltei à “faina” das Edificações Provisórias e Definitivas da Universidade do Minho. Entendeu-se e bem, que a UMinho deveria ter um único “Campus” que seria próximo das Caldas das Taipas a (5Km de  Guimarães na EN 101, Guimarães – Braga). Entretanto, Veiga Simão, então Ministro,  que veio numa visita a Guimarães, disse aos Vimaranenses que em vez de um Instituto Politécnico iriam ter um Polo da Universidade do Minho.

Poucos dias depois saiu um Despacho do 1º Ministro, então Mário Soares, dizendo: “Faça-se o Polo de Guimarães da Universidade do Minho, sem acréscimo de despesas para as Finanças Nacionais”. O Reitor Lloyd Braga pede-me então para ir, a mando dele, à Câmara Municipal de Guimarães (CMG) para de imediato se construírem as instalações provisórias da UMinho em Guimarães. 

Fui, e em reunião camarária com toda a vereação, onde expus ao que ia. O Presidente delegou no vereador da Cultura (VC) para me levar aos locais onde poderiam ser estabelecidas as Instalações Provisórias da UMinho. O senhor começou por me dizer que a CMG tinha uma grande “insuflável de plástco” que estava vazio. Eu respondi que não servia, porque algum malandro poderia com um prego esvaziar o insuflável e lá se iria a UMinho em Guimarães. Disse-me também que na parte baixa da cidade a CMG tinha vários barracões de betão armado para guardar os autocarros camarários que poderia dispensar ficando os veículos à chuva. Eu disse que essa também não servia dado o mau nome que tinham as instalações de guardar de autocarros: “cocheiras”. Por fim levou-me ao Palácio de Vila Flor e jardim viveiro da CMG . O Edifício estava em ruinas e nele se guardavam produtos da horta da CMG, batatas etc.. VC abriu a porta e logo fugiram ratazanas que nem coelhos. Eu disse:” Estes espaços servem, mas a CMG tem de comparticipar nas despesas dos arranjos, pois a UMinho tem magras verbas que não chegam para isso. E desde logo a CMG pôs dezassete mil contos (dezassete milhões de escudos) à disposição da UMinho para se realizarem os trabalhos. Claro que tive de ser eu a definir os arranjos que se tinham de fazer no interior do Palácio e na cobertura para se ter no R/c uma Secretaria e uma sala de aulas e no 1º andar um anfiteatro e sala de aulas, etc. . No exterior havia um espaço livre antes de se chegar ao jardim viveiro, onde se construíram as Oficinas da UMinho e uma sala para laboratório de Engenharia Têxtil. Para tudo isso teve de haver Projecto e Concurso para Adjudicação das Obras onde usei a estratégia já usada para a Universidade de L Marques. Tudo sempre de perfeita legalidade.

Voltando a Braga o Reitor mandou-me pesquisar uma área suficiente para o “Campus” da UMinho em Braga e descobrir locais para se darem aulas provisoriamente.

Em Gualtar havia um largo espaço que pertencia aos Militares, pois até tinha alguns excrementos de cavalos. Fui, em nome do Reitor, ao Quartel General do Porto falar com os responsáveis e ver se podiam vender à UMinho  esse  espaço e o custo. Conseguiu-se comprar essa área por uns 3 mil contos e aí se projectaram e construíram as Instalações Definitivas da UMinho, Polo de Braga.

Com finalidade semelhante fui a Guimarães e vi um largo espaço em Azurém, que pertencia na quase totalidade à própria CMG. Falei com o Presidente da Câmara que disse que cedia à UMinho esse espaço, mas tal tinha de ser incluído no Plano Director da Cidade que estava a cargo do Arquitecto Távora da Faculdade de Arquitectura da UP. Combinou-se logo uma data e hora para eu estar com esse Arquitecto no local, e discutir o lugar exacto para as construções em causa. Eu já tinha visto que havia um ribeiro que corria no lado Leste do campo e quis afastar-me o mais possível do ribeiro pois os terrenos de fundação eram de argila mole até uns 28m de profundidade. Do lado oposto e para cima, o terreno até tinha alguns afloramentos rochosos. Mas, o Távora não concordou argumentando que no limite superior do terreno havia uma estrada da qual os visitantes de Guimarães viam o conjunto da cidade o que era muito útil na atracção de turistas e para os interesses da Região. As Construções iriam impedir essa visualização. Argumento falso porque as construções previstas só teriam R/C e 1º andar. Mas, e hoje eu sei bem porquê, esse Arquitecto não concordou. Por isso, as Instalações Definitivas da UMinho, Polo de Guimarães ficaram bem mais caras do que eu previa. 

O Reitor também me encarregou de encontrar espaços para se poderem dar aulas provisoriamente em Braga. A Reitoria tinha tido a sorte de ter sido entregue à UMinho o antigo Palácio Episcopal com todos os seus Anexos onde foi possível instalar o Gabinete do Reitor tendo ao lado a Sala dos Actos Grandes (exames de doutoramento, etc:.) e instalações para as Finanças, etc.

Isso foi doado pela Câmara Municipal de Braga (CMB) com a condição da UMinho restaurar tudo incluindo o Arquivo que tem o pergaminho com a assinatura de Dom Afonso Henriques na Fundação de Portugal. Havia também quadros com pinturas famosas que tiveram de ser restaurados. Ao lado havia (e está) o “Salão Medieval” onde eu e outros colegas demos as 1ª as aulas. Também encontrei na rua de São Vitor um Edifício de 4 pisos que tem por detrás uma rua e espaço da Gulbenkian, onde se pode entrar pela rua de São Vitor e sair para a rua da Gulbenkian, e vice-versa. Aí também foram dadas as 1ªs aulas. A Universidade do Minho tinha então + uma centena de alunos. Hoje tem mais de vinte mil...Então, havia que acelerar os Projectos e Construções Definitivas e disso me incumbiu o Reitor. Claro que a 1ª coisa a fazer era lançar um Concurso. O Reitor queria que os adjudicatários fossem Gabinetes Técnicos de Arquitectura e Engenharia, um de Lisboa e outro do Porto. Infelizmente ninguém concorreu do Porto. Só de Lisboa: o Gabinete Técnico de Arquitectura e Engenharia da PROFABRIL, que tinha grande “fama e proveito” e era dirigido por um ENGENHEIRO Civil e outro também com o título o Gabinete Técnico de Arquitectura e Engenharia, mas dirigido por um Arquitecto. Com o 1º, para as Instalações de Braga, tudo correu bem. Durante a execução do Projecto tinha de haver muitas conversações entre mim e os encarregados de cada projecto. Para as Instalações de Guimarães o diálogo foi muito mais complicado, pois quem aparecia era um Arquitecto, dono da empresa e um Engenheiro Civil que era um “apêndice”. De modo que as 1ªs soluções arquitectónicas eram estruturalmente de execução impossível ou duvidosa. Por outro lado, soluções arquitectónicas previam uma distribuição de espaços “anacrónica” que infelizmente ainda lá está hoje: para gabinetes dos docentes previam-se (e executaram-se) os chamados “gabinetes linguiça” onde o docente nem sequer tinha espaço para pôr livros de texto suficientes. Em contra partida os gabinetes do Presidentes e do Vice das Engenharias eram enormes e luxuosos. Incrivelmente, projectaram (e está lá) uma Biblioteca enterrada numa Cave onde toda a luz é artificial. Para “animar” o leitor puseram ao meio uma trepadeira com algumas flores artificiais e um pingo de água a correr. Em contra partida puseram o Refeitório dos alunos com largas vistas para o relvado e flores da beira do ribeiro…

Claro que à parte todos este contratempos eu tinha ainda de montar o Departamento de Engenharia Civil e procurar docentes e pessoal técnico e secretaria para ele. Aconteceu que, entretanto, o Reitor mudou. Passou a ser o Professor Sérgio Santos (SMS) que tinha vindo de LMarques. As ideias dele acerca da estrutura da Universidade eram totalmente opostas ao existente nas Universidades do Porto e Coimbra. Em Lisboa já havia uma “miscelânea”. Assim, SMS opôs-se totalmente ao uso da palavra “Faculdade” ele entendia que as designações deviam ser “Escola de Engenharia”; “Escola de Ciências Exactas e da Natureza; “Escola de Economia e Gestão; “Escola de Letras e Humanidades; etc.. Eu e outros não éramos dessa opinião. Alguns ainda conseguiram mudar para “Instituto de”. Por isso, hoje há lá o Instituto de Educação; Instituto de Ciências Sociais; Instituto de Letras e Ciências Humanas. Mas  na “Escola de Engenharia”  ninguém mexeu. Para complicar mais as coisas, ainda hoje há docentes que no mesmo dia têm de dar aulas em Guimarães e em Braga e alunos nas mesmas situações. Continua a ter de haver autocarro da UMinho que de hora a hora transporta alunos de Braga para Guimarães e vice versa. Isso aumenta e muito as despesas da UMinho. Mas, disso não se lembraram (nem lembram) os decisores lisboetas. Quando são distribuídas verbas quem apanha mais são logicamente, as Faculdades e entidade (verbas da JNICT, etc.) lisboetas, depois as de Coimbra e do Porto. Depois lá restam umas “espinhas” para a UMinho.

Com tudo isso eu tive de lidar, mas consegui ser útil à Fundação da Universidade do Minho como o tinha sido à Fundação da Universidade de LMarques. É o legado que deixo dentro em pouco, quando voltar à terra que me gerou e me há-de comer. Esse legado é reconhecido por ex-alunos e ex-colega (já tenho poucos) e isso me dá ânimo para viver tranquilo.

Braga Abril de 2021

Barreiros Martins Prof. Cat. Emérito Jubilado da Univ do Minho


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