Reflexões JBM_ABRIL_2021
J. Barreiros Martins Prof.
Cat. Emérito Jubilado da Univ do Minho
Igreja
da Misericórdia representa o barroco religioso em Olinda
A Igreja da Misericórdia, no Alto da Sé, é o tema da terceira
reportagem da série sobre os primeiros prédios tombados pelo Iphan em Olinda,
em 1938.
Voltámos a Recife que tem praia
maravilhosa. Resolvemos tomar banho nela com toalhas de banho emprestadas pelo
hotel.
Esta foi a última peripécia que nos aconteceu. De Recife voámos
para o Rio de Janeiro e eu terminaria os meus trabalhos poucos dias depois.
Antes disso o Reitor chamou-me ao gabinete dele e deu-me um telefone dizendo: "Telefone para a sua Esposa e tente convencê-la a vir para o Rio de Janeiro com
toda a sua Família. Você tem o lugar de Professor Sénior à sua espera na
PUC-RJ”.
Claro que eu não queria ser desagradável ao Reitor perante tanta
amabilidade e um salário que era bem maior que o da UMinho. Por isso, liguei
mesmo pra a Albertina relatando tais amabilidades. Mas já sabia da resposta que
até tínhamos estudado antes: Eu tinha já 25 anos de serviço prestado ao Estado
Português, bem como ela própria. Certamente que, no Rio de Janeiro perderíamos esse tempo para a reforma. Por
outro lado embora o salário fosse bem mais alto que o da UMinho, a educação dos
filhos era muito mais dispendiosa bem como o aluguer de uma casa decente para
se viver: só na zona dos “ricos”: Leblon . Por isso, o nosso “nível de vida” no
Rio de Janeiro não seria maior que o que já tínhamos em Braga onde já tínhamos
conseguido um empréstimo da CGD para comprar um apartamento num prédio que
estava em construção na Rua João Antunes Guimarães.
Por isso, agradeci com muitas vénias ao Reitor e voltei a a
Portugal, deixando na PUC-RJ vários colegas amigos como o Director da
Engenharia Civil que ainda lá está hoje, e vários outros com os quais mantenho
contactos esporádicos por email e, quando veem a Portugal sempre vão à FEUP e
lá nos encontramos.
Claro que enquanto não ocupámos o 3º andar da rua João Antunes
Guimarães tivemos de vir e ir todos os dias de Vila Fria (Viana do Castelo) com
a Albertina a dar consultas em Barcelos. Rapidamente a Albertina passou a dar
consultas também nos Centros de Saúde de Braga e depois somente nos centros de
Saúde de Braga.
Por minha parte voltei à “faina” das Edificações Provisórias e Definitivas
da Universidade do Minho. Entendeu-se e bem, que a UMinho deveria ter um único
“Campus” que seria próximo das Caldas das Taipas a (5Km de Guimarães na EN 101, Guimarães – Braga).
Entretanto, Veiga Simão, então Ministro,
que veio numa visita a Guimarães, disse aos Vimaranenses que em vez de
um Instituto Politécnico iriam ter um Polo da Universidade do Minho.
Poucos dias depois saiu um Despacho do 1º Ministro, então Mário
Soares, dizendo: “Faça-se o Polo de Guimarães da Universidade do Minho, sem
acréscimo de despesas para as Finanças Nacionais”. O Reitor Lloyd Braga pede-me
então para ir, a mando dele, à Câmara Municipal de Guimarães (CMG) para de
imediato se construírem as instalações provisórias da UMinho em Guimarães.
Fui, e em reunião camarária com toda a vereação, onde expus ao que
ia. O Presidente delegou no vereador da Cultura (VC) para me levar aos locais
onde poderiam ser estabelecidas as Instalações Provisórias da UMinho. O senhor
começou por me dizer que a CMG tinha uma grande “insuflável de plástco” que
estava vazio. Eu respondi que não servia, porque algum malandro poderia com um
prego esvaziar o insuflável e lá se iria a UMinho em Guimarães. Disse-me também
que na parte baixa da cidade a CMG tinha vários barracões de betão armado para
guardar os autocarros camarários que poderia dispensar ficando os veículos à
chuva. Eu disse que essa também não servia dado o mau nome que tinham as
instalações de guardar de autocarros: “cocheiras”. Por fim levou-me ao Palácio
de Vila Flor e jardim viveiro da CMG . O Edifício estava em ruinas e nele se
guardavam produtos da horta da CMG, batatas etc.. VC abriu a porta e logo
fugiram ratazanas que nem coelhos. Eu disse:” Estes espaços servem, mas a CMG
tem de comparticipar nas despesas dos arranjos, pois a UMinho tem magras verbas
que não chegam para isso. E desde logo a CMG pôs dezassete mil contos
(dezassete milhões de escudos) à disposição da UMinho para se realizarem os
trabalhos. Claro que tive de ser eu a definir os arranjos que se tinham de
fazer no interior do Palácio e na cobertura para se ter no R/c uma Secretaria e
uma sala de aulas e no 1º andar um anfiteatro e sala de aulas, etc. . No exterior
havia um espaço livre antes de se chegar ao jardim viveiro, onde se construíram
as Oficinas da UMinho e uma sala para laboratório de Engenharia Têxtil. Para
tudo isso teve de haver Projecto e Concurso para Adjudicação das Obras onde
usei a estratégia já usada para a Universidade de L Marques. Tudo sempre de
perfeita legalidade.
Voltando a Braga o Reitor mandou-me pesquisar uma área suficiente
para o “Campus” da UMinho em Braga e descobrir locais para se darem aulas
provisoriamente.
Em Gualtar havia um largo espaço que pertencia aos Militares, pois
até tinha alguns excrementos de cavalos. Fui, em nome do Reitor, ao Quartel
General do Porto falar com os responsáveis e ver se podiam vender à UMinho esse
espaço e o custo. Conseguiu-se comprar essa área por uns 3 mil contos e
aí se projectaram e construíram as Instalações Definitivas da UMinho, Polo de
Braga.
Com finalidade semelhante fui a Guimarães e vi um largo espaço em Azurém, que pertencia na quase totalidade à própria CMG. Falei com o Presidente da Câmara que disse que cedia à UMinho esse espaço, mas tal tinha de ser incluído no Plano Director da Cidade que estava a cargo do Arquitecto Távora da Faculdade de Arquitectura da UP. Combinou-se logo uma data e hora para eu estar com esse Arquitecto no local, e discutir o lugar exacto para as construções em causa. Eu já tinha visto que havia um ribeiro que corria no lado Leste do campo e quis afastar-me o mais possível do ribeiro pois os terrenos de fundação eram de argila mole até uns 28m de profundidade. Do lado oposto e para cima, o terreno até tinha alguns afloramentos rochosos. Mas, o Távora não concordou argumentando que no limite superior do terreno havia uma estrada da qual os visitantes de Guimarães viam o conjunto da cidade o que era muito útil na atracção de turistas e para os interesses da Região. As Construções iriam impedir essa visualização. Argumento falso porque as construções previstas só teriam R/C e 1º andar. Mas, e hoje eu sei bem porquê, esse Arquitecto não concordou. Por isso, as Instalações Definitivas da UMinho, Polo de Guimarães ficaram bem mais caras do que eu previa.
O Reitor também me encarregou de encontrar espaços para se poderem
dar aulas provisoriamente em Braga. A Reitoria tinha tido a sorte de ter sido
entregue à UMinho o antigo Palácio Episcopal com todos os seus Anexos onde foi
possível instalar o Gabinete do Reitor tendo ao lado a Sala dos Actos Grandes (exames
de doutoramento, etc:.) e instalações para as Finanças, etc.
Isso foi doado pela Câmara Municipal de Braga (CMB) com a
condição da UMinho restaurar tudo incluindo o Arquivo que tem o pergaminho com
a assinatura de Dom Afonso Henriques na Fundação de Portugal. Havia também
quadros com pinturas famosas que tiveram de ser restaurados. Ao lado havia (e
está) o “Salão Medieval” onde eu e outros colegas demos as 1ª as aulas. Também
encontrei na rua de São Vitor um Edifício de 4 pisos que tem por detrás uma rua
e espaço da Gulbenkian, onde se pode entrar pela rua de São Vitor e sair para a
rua da Gulbenkian, e vice-versa. Aí também foram dadas as 1ªs aulas. A
Universidade do Minho tinha então + uma centena de alunos. Hoje tem mais de
vinte mil...Então, havia que acelerar os Projectos e Construções Definitivas e
disso me incumbiu o Reitor. Claro que a 1ª coisa a fazer era lançar um Concurso.
O Reitor queria que os adjudicatários fossem Gabinetes Técnicos de Arquitectura
e Engenharia, um de Lisboa e outro do Porto. Infelizmente ninguém concorreu do
Porto. Só de Lisboa: o Gabinete Técnico de Arquitectura e Engenharia da
PROFABRIL, que tinha grande “fama e proveito” e era dirigido por um ENGENHEIRO
Civil e outro também com o título o Gabinete Técnico de Arquitectura e
Engenharia, mas dirigido por um Arquitecto. Com o 1º, para as Instalações de
Braga, tudo correu bem. Durante a execução do Projecto tinha de haver muitas
conversações entre mim e os encarregados de cada projecto. Para as Instalações
de Guimarães o diálogo foi muito mais complicado, pois quem aparecia era um
Arquitecto, dono da empresa e um Engenheiro Civil que era um “apêndice”. De
modo que as 1ªs soluções arquitectónicas eram estruturalmente de execução
impossível ou duvidosa. Por outro lado, soluções arquitectónicas previam uma
distribuição de espaços “anacrónica” que infelizmente ainda lá está hoje: para
gabinetes dos docentes previam-se (e executaram-se) os chamados “gabinetes
linguiça” onde o docente nem sequer tinha espaço para pôr livros de texto
suficientes. Em contra partida os gabinetes do Presidentes e do Vice das Engenharias
eram enormes e luxuosos. Incrivelmente, projectaram (e está lá) uma Biblioteca enterrada
numa Cave onde toda a luz é artificial. Para “animar” o leitor puseram ao meio
uma trepadeira com algumas flores artificiais e um pingo de água a correr. Em
contra partida puseram o Refeitório dos alunos com largas vistas para o relvado
e flores da beira do ribeiro…
Claro que à parte todos este contratempos eu tinha ainda de montar
o Departamento de Engenharia Civil e procurar docentes e pessoal técnico e
secretaria para ele. Aconteceu que, entretanto, o Reitor mudou. Passou a ser o Professor
Sérgio Santos (SMS) que tinha vindo de LMarques. As ideias dele acerca da estrutura
da Universidade eram totalmente opostas ao existente nas Universidades do Porto
e Coimbra. Em Lisboa já havia uma “miscelânea”. Assim, SMS opôs-se totalmente ao
uso da palavra “Faculdade” ele entendia que as designações deviam ser “Escola
de Engenharia”; “Escola de Ciências Exactas e da Natureza; “Escola de Economia
e Gestão; “Escola de Letras e Humanidades; etc.. Eu e outros não éramos dessa
opinião. Alguns ainda conseguiram mudar para “Instituto de”. Por isso, hoje há
lá o Instituto de Educação; Instituto de Ciências Sociais; Instituto de Letras e Ciências Humanas.
Mas na “Escola de Engenharia” ninguém mexeu. Para complicar mais as coisas, ainda hoje há docentes que
no mesmo dia têm de dar aulas em Guimarães e em Braga e alunos nas mesmas
situações. Continua a ter de haver autocarro da UMinho que de hora a hora
transporta alunos de Braga para Guimarães e vice versa. Isso aumenta e muito as
despesas da UMinho. Mas, disso não se lembraram (nem lembram) os decisores
lisboetas. Quando são distribuídas verbas quem apanha mais são logicamente, as
Faculdades e entidade (verbas da JNICT, etc.) lisboetas, depois as de Coimbra e
do Porto. Depois lá restam umas “espinhas” para a UMinho.
Com tudo isso eu tive de lidar, mas consegui ser útil à Fundação
da Universidade do Minho como o tinha sido à Fundação da Universidade de
LMarques. É o legado que deixo dentro em pouco, quando voltar à terra que me
gerou e me há-de comer. Esse legado é reconhecido por ex-alunos e ex-colega (já
tenho poucos) e isso me dá ânimo para viver tranquilo.
Braga Abril de 2021
Barreiros Martins Prof. Cat. Emérito Jubilado da
Univ do Minho






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