terça-feira, 9 de junho de 2020

Um Refugiado da Guerra Civil de Espanha

Guernica - Picasso


A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) deixou marcas profundas em Espanha e memórias em Portugal, principalmente nas gentes dos povoados raianos entre Chaves e Montalegre. A vida pouco valia para republicanos e franquistas. As chacinas de Paracuellhos, bem como os muitos milhares de padres, por exemplo, pelos Republicanos e as impiedosas execuções dos Nacionalistas deixam as mãos da Direita e Esquerda espanhola muito manchadas. O ódio ainda hoje medra em alguns políticos espanhóis, ao ponto do Sanches mexer com os ossos do Franco. Que lhe retirasse a lápide da tumba, mas ir à terra mexer nas ossadas demonstra uma doentia dose de ódio. Seja como for, não vai ser o Sanches a escrever a História de Espanha, mas o tempo histórico. Não há ideologia que se sobreponha aos factos históricos. À medida que os Republicanos (Socialistas, Anarquistas e Comunistas) perdiam terreno para os Nacionalistas (Franquistas e outras forças), muitos refugiavam-se do lado de cá da fronteira. Quando algum «vermelho» (republicano) era preso pelas nossas autoridades, seguia-se a sua entrega aos Nacionalistas. Por ter casado em Terras de Monforte de Rio Livre aprendi muito sobre o modo como a população acolhia os refugiados espanhóis. Um orgulho meu foi o meu avô materno, Manuel Deimãos, ter acolhido uns dias um general (?) republicano espanhol na antiga Casa Sá Lima, nos Eixes. A minha Mãe disse-me que o homem era muito calado e todos os dias lia os jornais. Depois, com identificação falsa seguiu para o Porto. Certo é que o meu avô, passado algum tempo foi chamado a Mirandela, para prestar declarações (alguém dos Eixes «bufou» às autoridades) ao que ele terá dito que acolheu em sua casa alguém que lhe pediu guarida (o Messias, amigo do meu avô, estaria por trás, ainda há em Lebução os netos, filhos do genro, Mário Ferrador), mas nem lhe perguntou o nome ou quem era. Certo é que, em Lebução (Valpaços), ouvi várias histórias de prisioneiros e vários lebuçanenses emprestavam a cédula de vivos ou mortos para os refugiados terem a identificação portuguesa (falsa) em Lisboa. Também o Morgado de Vilartão, Doutor Armando Morais Soares, que apelidei de «Último Doutor João Semana» me confidenciou que acolheu vários refugiados da Guerra Civil de Espanha e valia-se da amizade com o bragançano António Gonçalves Rapazote para não ser importunado. Mas, dou-vos a conhecer o texto que lavrei há quase quarenta anos de uma memória transmitida pelo então jovem 1.º Cabo Alberto Miranda (1939?), do 4.º Esquadrão de Cavalaria (do RC 6 – Porto, sediado, em Chaves, no Terreiro de Cavalaria), natural de São Lourenço (Chaves) e tinha como título: «Missão Arriscada». O Cabo Alberto, alto e forte, era dos mais distintos da sua aldeia, ajudando nas folgas o pai num comércio, na aldeia e na curva mais à esquerda da estrada de Valpaços-Chaves. Ajudava, ainda, a cultivar as leiras, lavrando-as com um possante cavalo. As idas de S. Lourenço para o aquartelamento no Forte de S. Francisco queimava-a em pouco mais de meia-hora e sempre a abrir e a descer todos os santos ajudavam. Se tinha dispensa de pernouta do Destacamento de Cavalaria, levava-lhe (quase sempre a subir), a S. Lourenço uma hora acogulada. O Cabo Alberto somava uns competentes 11 meses a marcar passo. O Sargento Barrigas (que conheci) informou o Capitão Crispim que aquela «missão arriscada» tinha de ser confiada ao Cabo Alberto. Passava pouco das 16H00 quando recebeu ordem de se apresentar no gabinete do Capitão. Uma curta espera e disse-lhe que tinha de ir a Lebução buscar um «prisioneiro vermelho»: - agora escolhe duas praças em quem confies – disse o Capitão. Ele informou: - podem-me acompanhar o (soldado) 516 (Maldonado das Travancas) e o 114 (Ramiro de Tinhela). Disse o capitão: - Levas quatro mulas. Lembrou o Barrigas: - não podes dizer ao 516 e ao 114, qual é a tua missão! Teve autorização de partir ao entardecer, com a condição de as quatro mulas ficarem recolhidas num palheiro, em S. Lourenço. Explicou ao Maldonado e ao Ramiro que iam fazer uma estafeta, mas que à hora do almoço, no dia seguinte, já estariam atirados ao rancho. À chegada a S. Lourenço o pai disfarçou o nervosismo do filho e sem delongas, disse-lhe para acomodar as azémolas no palheiro e: - Vós os três ficais na enxerga que está no quarto pequeno. Depois da ceia ligeira, ainda quente, deitaram-se, mas o Alberto demorou-se a matar saudades com os pais. Disse-lhe a Mãe: - Já sei que vais para uma missão arriscada. Oxalá que não seja para prender nenhum desertor aqui das redondezas! O pai: - Ó mulher cala-te, o rapaz é que sabe ao que o mandaram. O Alberto: - Tenho de partir às cinco horas. Quero estar em Lebução ao aclarar para receber um prisioneiro, mas isto é segredo. Nem as praças sabem ao que vão. Sei que é espanhol, que é perigoso e que é muita responsabilidade. Disse-lhe a Antónia que era padeira: - Podes dormir descansado, filho, que nós acordamos-te! Às cinco vou cozer a 1.ª fornada. 
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O Manuel deitou-se muito sisudo, porque a missão do filho era arriscada. A nossa conversa ficou por aqui e o Alberto já há muito partiu, para sempre. O prisioneiro foi entregue no quartel em Chaves e levado para ser entregue aos «falangistas», geralmente, para fuzilarem. As histórias que fui ouvindo destroçavam-me o coração, mas eram parecidas quer fossem do lado franquista, quer dos «vermelhos». Recordo-me que só da congregação dos Irmãos Marista foram fuzilados uns 2.000, pelos republicanos. O «crime» desses religiosos era serem católicos e servir os necessitados. A História das guerras no mundo sempre teve os seus excessos dos vencedores e sobre os vencidos e deve ser vista no seu tempo histórico e não servir para novos ódios, intolerâncias e racismos ideológicos.

2 comentários:

  1. A Guerra Civil de Espanha deixou marcas em Espanha e em Portugal e, quando hoje se fala em guerra, essas memórias ressuscitam.Na parte final do texto, quando o autor diz que a História "... deve ser vista no seu tempo histórico" estou plenamente de acordo, porque os intérpretes geralmente refazem o passado através da visão do presente e, portanto, a História é reconstituída "à sua maneira". Neste sentido, Guernica é mais verdadeira e intemporal.Picasso descreveu/pintou o sofrimento causado pelo bombardeamento da cidade, eternizando-a para as gerações vindouras.

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  2. Obrigado pelo comentário! Guernica foi um impiedoso ensaio alemão para a brutalidade da Segunda Grande Guerra. Já tinha referido o tempo histórico logo no início do texto.
    Não foi a GCE que me motivou, mas um pormenor fronteiriço com todo o humanismo, compaixão, traição e ódio, porque são sempre pessoas que estão em jogo com as suas virtudes e defeitos.
    O que me motivou mais foi ter um apontamento/testemunho perdido durante uns 40 anos e dar-lhe vida que a memória das personagens merece e os amigos leitores também.

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