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| Guernica - Picasso |
A Guerra Civil Espanhola
(1936-1939) deixou marcas profundas em Espanha e memórias em Portugal,
principalmente nas gentes dos povoados raianos entre Chaves e Montalegre. A
vida pouco valia para republicanos e franquistas. As chacinas de Paracuellhos,
bem como os muitos milhares de padres, por exemplo, pelos Republicanos e as
impiedosas execuções dos Nacionalistas deixam as mãos da Direita e Esquerda
espanhola muito manchadas. O ódio ainda hoje medra em alguns políticos
espanhóis, ao ponto do Sanches mexer com os ossos do Franco. Que lhe retirasse
a lápide da tumba, mas ir à terra mexer nas ossadas demonstra uma doentia dose
de ódio. Seja como for, não vai ser o Sanches a escrever a História de Espanha,
mas o tempo histórico. Não há ideologia que se sobreponha aos factos
históricos. À medida que os Republicanos (Socialistas, Anarquistas e
Comunistas) perdiam terreno para os Nacionalistas (Franquistas e outras
forças), muitos refugiavam-se do lado de cá da fronteira. Quando algum
«vermelho» (republicano) era preso pelas nossas autoridades, seguia-se a sua
entrega aos Nacionalistas. Por ter casado em Terras de Monforte de Rio Livre
aprendi muito sobre o modo como a população acolhia os refugiados espanhóis. Um
orgulho meu foi o meu avô materno, Manuel Deimãos, ter acolhido uns dias um
general (?) republicano espanhol na antiga Casa Sá Lima, nos Eixes. A minha Mãe
disse-me que o homem era muito calado e todos os dias lia os jornais. Depois,
com identificação falsa seguiu para o Porto. Certo é que o meu avô, passado
algum tempo foi chamado a Mirandela, para prestar declarações (alguém dos Eixes
«bufou» às autoridades) ao que ele terá dito que acolheu em sua casa alguém que
lhe pediu guarida (o Messias, amigo do meu avô, estaria por trás, ainda há em
Lebução os netos, filhos do genro, Mário Ferrador), mas nem lhe perguntou o
nome ou quem era. Certo é que, em Lebução (Valpaços), ouvi várias histórias de
prisioneiros e vários lebuçanenses emprestavam a cédula de vivos ou mortos para
os refugiados terem a identificação portuguesa (falsa) em Lisboa. Também o
Morgado de Vilartão, Doutor Armando Morais Soares, que apelidei de «Último
Doutor João Semana» me confidenciou que acolheu vários refugiados da Guerra
Civil de Espanha e valia-se da amizade com o bragançano António Gonçalves
Rapazote para não ser importunado. Mas, dou-vos a conhecer o texto que lavrei
há quase quarenta anos de uma memória transmitida pelo então jovem 1.º Cabo
Alberto Miranda (1939?), do 4.º Esquadrão de Cavalaria (do RC 6 – Porto,
sediado, em Chaves, no Terreiro de Cavalaria), natural de São Lourenço (Chaves)
e tinha como título: «Missão Arriscada».
O Cabo Alberto, alto e forte, era dos mais distintos da sua aldeia, ajudando
nas folgas o pai num comércio, na aldeia e na curva mais à esquerda da estrada
de Valpaços-Chaves. Ajudava, ainda, a cultivar as leiras, lavrando-as com um
possante cavalo. As idas de S. Lourenço para o aquartelamento no Forte de S.
Francisco queimava-a em pouco mais de meia-hora e sempre a abrir e a descer
todos os santos ajudavam. Se tinha dispensa de pernouta do Destacamento de
Cavalaria, levava-lhe (quase sempre a subir), a S. Lourenço uma hora acogulada.
O Cabo Alberto somava uns competentes 11 meses a marcar passo. O Sargento
Barrigas (que conheci) informou o Capitão Crispim que aquela «missão arriscada»
tinha de ser confiada ao Cabo Alberto. Passava pouco das 16H00 quando recebeu
ordem de se apresentar no gabinete do Capitão. Uma curta espera e disse-lhe que
tinha de ir a Lebução buscar um «prisioneiro
vermelho»: - agora escolhe duas
praças em quem confies – disse o Capitão. Ele informou: - podem-me acompanhar o (soldado) 516
(Maldonado das Travancas) e o 114 (Ramiro de Tinhela). Disse o capitão: - Levas quatro mulas. Lembrou o Barrigas:
- não podes dizer ao 516 e ao 114, qual é
a tua missão! Teve autorização de partir ao entardecer, com a condição de
as quatro mulas ficarem recolhidas num palheiro, em S. Lourenço. Explicou ao
Maldonado e ao Ramiro que iam fazer uma estafeta, mas que à hora do almoço, no
dia seguinte, já estariam atirados ao rancho. À chegada a S. Lourenço o pai
disfarçou o nervosismo do filho e sem delongas, disse-lhe para acomodar as
azémolas no palheiro e: - Vós os três
ficais na enxerga que está no quarto pequeno. Depois da ceia ligeira, ainda
quente, deitaram-se, mas o Alberto demorou-se a matar saudades com os pais.
Disse-lhe a Mãe: - Já sei que vais para
uma missão arriscada. Oxalá que não seja para prender nenhum desertor aqui das
redondezas! O pai: - Ó mulher
cala-te, o rapaz é que sabe ao que o mandaram. O Alberto: - Tenho de partir às cinco horas. Quero estar
em Lebução ao aclarar para receber um prisioneiro, mas isto é segredo. Nem as
praças sabem ao que vão. Sei que é espanhol, que é perigoso e que é muita
responsabilidade. Disse-lhe a Antónia que era padeira: - Podes dormir descansado, filho, que nós
acordamos-te! Às cinco vou cozer a 1.ª fornada.
O Manuel deitou-se muito
sisudo, porque a missão do filho era arriscada. A nossa conversa ficou por aqui
e o Alberto já há muito partiu, para sempre. O prisioneiro foi entregue no
quartel em Chaves e levado para ser entregue aos «falangistas», geralmente,
para fuzilarem. As histórias que fui ouvindo destroçavam-me o coração, mas eram
parecidas quer fossem do lado franquista, quer dos «vermelhos». Recordo-me que
só da congregação dos Irmãos Marista foram fuzilados uns 2.000, pelos
republicanos. O «crime» desses religiosos era serem católicos e servir os
necessitados. A História das guerras no mundo sempre teve os seus excessos dos
vencedores e sobre os vencidos e deve ser vista no seu tempo histórico e não
servir para novos ódios, intolerâncias e racismos ideológicos.
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A Guerra Civil de Espanha deixou marcas em Espanha e em Portugal e, quando hoje se fala em guerra, essas memórias ressuscitam.Na parte final do texto, quando o autor diz que a História "... deve ser vista no seu tempo histórico" estou plenamente de acordo, porque os intérpretes geralmente refazem o passado através da visão do presente e, portanto, a História é reconstituída "à sua maneira". Neste sentido, Guernica é mais verdadeira e intemporal.Picasso descreveu/pintou o sofrimento causado pelo bombardeamento da cidade, eternizando-a para as gerações vindouras.
ResponderEliminarObrigado pelo comentário! Guernica foi um impiedoso ensaio alemão para a brutalidade da Segunda Grande Guerra. Já tinha referido o tempo histórico logo no início do texto.
ResponderEliminarNão foi a GCE que me motivou, mas um pormenor fronteiriço com todo o humanismo, compaixão, traição e ódio, porque são sempre pessoas que estão em jogo com as suas virtudes e defeitos.
O que me motivou mais foi ter um apontamento/testemunho perdido durante uns 40 anos e dar-lhe vida que a memória das personagens merece e os amigos leitores também.