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| MÁRIO ADÃO MAGALHÃES Jornalista |
Carta sem sê-lo
Por: Cid Adão Urbano
Bem comido a minha alma de
nada quer saber. E nem
os maiores desgostos a
conseguem comover. Moliére
Foi a Natureza!
A Justiça é a primeira a não
imputar responsabilidades. Três anos foi quanto o sistema levou para chegar à
conclusão de que 59 pessoas faleceram pelo simples infortúnio de “causas
naturais”.
A sociedade actual premeia a
incúria, distingue os covardes e mentirosos e promove a incompetência.
Os casos que em Portugal
ultimamente mais têm despertado o interesse público são os da queda da ponte de
Entre–os-Rios e, claro, da Casa Pia. Neles estão em causa crimes de homicídio
por negligência e de abuso sexual de menores.
No caso Casa Pia quase todos
os arguidos, depois de presos criteriosamente, estão sendo estrategicamente
soltos. Não tarda que estejam todos cá fora agraciados, recebidos como heróis e
concedendo grandes entrevistas. Vão escrever livros que se tornarão best
sellers e têm o futuro garantido. Mas das crianças quase ninguém falou ou fala.
Com elas ninguém se preocupa. Antes são consideradas uns vândalos, prostitutos.
Quem os terá prostituído? As vítimas são os senhores arguidos. São eles os
coitados. E o bode expiatório é o senhor ex-funcionário da Casa Pia que não
goza dos mesmos princípios de presunção de inocência.
O senhor juiz inicialmente,
para aqueles que viam o caso desapaixonadamente, era bestial. Agora é besta
como querem fazer querer.
Aquando da tragédia de
Entre–os-Rios todo o país chorou e teve oportunidade de ver a miséria neste
rectângulo coitado onde estamos entregues à bicharada. Os senhores governantes
choraram (lágrimas de crocodilo) e logo se anteviu o que eram mesmo: lágrimas
de crocodilo. Que tudo não passava de espectáculo e que as promessas não
passariam de meras circunstâncias e aproveitamento político. E que tudo ficaria
namesma.
Aí está! As indemnizações e
outros apoios tardam a as burocracias sucedem-se. Parecem gerirofobos.
Agora por douta decisão do
tribunal o país ficou a saber (ou concluíram os mais atentos) que a culpa é de
ninguém. Ou antes: de causas naturais.
Perante tantas evidências e
provas de desleixo, de negligência, os presumíveis implicados ficaram ilibados
pelo tribunal. Esqueceu a jurisprudência que uma ponte é feita para resistir às
causas naturais. Há pontes romanas de pé.
No processo Casa Pia pretende-se
agora inculpar um juiz que dizem desempenhou mal as suas funções. Ou terá sido
da natureza corajosa, prática e simples do senhor juiz? Ao ponto de se arranjar
argumentos para ser afastado.
Em Portugal quando a justiça
toca aos galos ninguém é culpado. Antes: é a natureza.
Culpa-se a coitada da natureza
porque criou (desenvolveu) políticos e governantes assim. Julgadores assim.
Tratantes assim. Crianças assim, que pela sua natureza são indefesas.
Enfim. Crie-se o tribunal da
natureza e façam-se as coisas (julgue-se) com mais natureza. Só que fico com
medo da Lei de Lavoiser: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se
transforma.
Não é de estranhar que um dia
destes, chegada a época de veraneio, alguém regresse de férias impune e
entronizada cidadã honorária.
Mário Adão Magalhães
[2004/04/06]"
In O Jornal da Lixa
--
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o
chamado Acordo Ortográfico).


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