sábado, 6 de junho de 2020

Carta sem sê-lo


MÁRIO ADÃO MAGALHÃES
Jornalista

Carta sem sê-lo
Por: Cid Adão Urbano
Bem comido a minha alma de nada quer saber. E nem
os maiores desgostos a conseguem comover. Moliére
Foi a Natureza!
A Justiça é a primeira a não imputar responsabilidades. Três anos foi quanto o sistema levou para chegar à conclusão de que 59 pessoas faleceram pelo simples infortúnio de “causas naturais”.
A sociedade actual premeia a incúria, distingue os covardes e mentirosos e promove a incompetência.
Os casos que em Portugal ultimamente mais têm despertado o interesse público são os da queda da ponte de Entre–os-Rios e, claro, da Casa Pia. Neles estão em causa crimes de homicídio por negligência e de abuso sexual de menores.
No caso Casa Pia quase todos os arguidos, depois de presos criteriosamente, estão sendo estrategicamente soltos. Não tarda que estejam todos cá fora agraciados, recebidos como heróis e concedendo grandes entrevistas. Vão escrever livros que se tornarão best sellers e têm o futuro garantido. Mas das crianças quase ninguém falou ou fala. Com elas ninguém se preocupa. Antes são consideradas uns vândalos, prostitutos. Quem os terá prostituído? As vítimas são os senhores arguidos. São eles os coitados. E o bode expiatório é o senhor ex-funcionário da Casa Pia que não goza dos mesmos princípios de presunção de inocência.
O senhor juiz inicialmente, para aqueles que viam o caso desapaixonadamente, era bestial. Agora é besta como querem fazer querer.
Aquando da tragédia de Entre–os-Rios todo o país chorou e teve oportunidade de ver a miséria neste rectângulo coitado onde estamos entregues à bicharada. Os senhores governantes choraram (lágrimas de crocodilo) e logo se anteviu o que eram mesmo: lágrimas de crocodilo. Que tudo não passava de espectáculo e que as promessas não passariam de meras circunstâncias e aproveitamento político. E que tudo ficaria namesma.
Aí está! As indemnizações e outros apoios tardam a as burocracias sucedem-se. Parecem gerirofobos.
Agora por douta decisão do tribunal o país ficou a saber (ou concluíram os mais atentos) que a culpa é de ninguém. Ou antes: de causas naturais.
Perante tantas evidências e provas de desleixo, de negligência, os presumíveis implicados ficaram ilibados pelo tribunal. Esqueceu a jurisprudência que uma ponte é feita para resistir às causas naturais. Há pontes romanas de pé.
No processo Casa Pia pretende-se agora inculpar um juiz que dizem desempenhou mal as suas funções. Ou terá sido da natureza corajosa, prática e simples do senhor juiz? Ao ponto de se arranjar argumentos para ser afastado.
Em Portugal quando a justiça toca aos galos ninguém é culpado. Antes: é a natureza.
Culpa-se a coitada da natureza porque criou (desenvolveu) políticos e governantes assim. Julgadores assim. Tratantes assim. Crianças assim, que pela sua natureza são indefesas.
Enfim. Crie-se o tribunal da natureza e façam-se as coisas (julgue-se) com mais natureza. Só que fico com medo da Lei de Lavoiser: Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
Não é de estranhar que um dia destes, chegada a época de veraneio, alguém regresse de férias impune e entronizada cidadã honorária.
Mário Adão Magalhães
[2004/04/06]"
  In O Jornal da Lixa
--
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

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