Agora conto eu – «Calar, calo-me, mas seis pés são!»
JORGE LAGE
As gentes da aldeia da minha mulher são de um humor invulgar e
quase tudo serve para aliviar a rudeza e dureza da vida serrana, nas Terras de
Monforte de Rio Livre. Quando me casei, no Outono do longínquo de 1972, fui
recebido de braços abertos pelo concelho vicinal de anciãos com assento no Café
do Tótó (Gordo). Foi como se fosse um dos seus pares de sempre, sentindo-me
muito à vontade entre eles. O areópago era o Café, onde todos do grupo
procurávamos as últimas novidades e um pouco de convívio. Isto para só referir
alguns dos que apareciam mais no Café do Tóto, principal centro de onde
irradiava muita novidade. Em «Agora conto eu», escolhi uma história de saias e
dois protagonistas, pai e filho. A vida no Portugal rural não era (nem é) fácil
para qualquer um, por isso, havia estratégias para suavizar as asperezas da
labuta diária e as contrariedades. Por exemplo, quando o «Barbeiro de Sevilha»
soprava gélido dos lados da serra da Sanábria as pessoas abrigavam-se o melhor
que podiam. Quando o céu ameaçava deixar desabar o seu frígido manto branco
recolhia-se da melhor lenha junto da lareira. Quando as preocupações, trabalhos
e canseiras atiravam com um de cangalhas, o melhor era enganar a vida com um pouco
de amena conversa e de humor. Quase tudo servia para um viver positivo, de
humor, de galhofa e de risota. Na aldeia, virada a norte e a nascente, apesar
de extensa em território, as notícias e acontecimentos escorregavam por ela
como skis em gelo vidrado. As noites de Inverno eram longas e quem não tinha
companhia para lhe aquecer os pés ou para uma suadela de joelhos, mais duras se
tornavam. Muitas vezes, os bons momentos aconteciam com alguma promiscuidade.
Conta-se (contavam os antigos) que uma dessas noites o Geadas, que vivia com o
filho, terá combinado com uma amiga, também falha de amores, passarem a noite
em sua casa. Só tinha uma cama onde dormia pai e filho. A estratégia do Geadas
passava por deixar adormecer o filho, receber a amiga na cama e do seu lado.
Dito de outra forma, o filho deitava-se do lado da parede e o pai do outro
lado. Aliás, nos pregos da noite e escuro como o breu e ainda sem a luz
eléctrica, nada se via. Numa dessas noites mais acaloradas de corpos, o Geadas
ficou no meio, com o filho de um lado e do outro a fugaz amiga de alcofa.
Quando o filho parecia dormir a sono solto começava debaixo dos cobertores, o
trabalhinho a dois, Geadas e amiga. Num momento de grande entusiasmo o rapazola
acorda e sub-repticiamente com um seu pé começa a contar os pés que estão na
tarimba e encontra seis, com os seus. Sabendo pela sua matemática primária que
os dois apenas tinham quatro pés, havia mais alguém dentro da cama e deixou-o
em pânico, porque na cabeça dele algo estaria errado. O filho diz: - Meu pai,
estão seis pés na cama! O pai nega: - não estão nada! Cala-te e dorme! O filho
invectiva de novo o pai: - Olhe que eu contei seis pés na cama, meu pai? O pai
que tinha outros desejos e perante a inoportunidade da questão e já agastado
sentencia-lhe: - Tu estás maluco ou quê? Qual seis pés rapaz? Não estás bom da
cabeça! Está calado e dorme antes que te dê uns murros!... E para não azedar
mais o pai que podia desferir-lhe alguma tapona bem puxada ou murro
mal-humorado. O rapaz, desconsolado e desacreditado, mostra a sua convicção o
pai: - Calar, calo-me, meu pai, mas seis pés são! Fez-se silêncio e, na manhã
seguinte, o rapaz não resistiu a contar o sucedido a um amigo. A notícia
espalhou-se pela aldeia como fogo, em abrasador e ventoso dia estival.
Primeiro, tentou-se descobrir quem era a coruja da noite e depois ironizou-se e
zombou-se. Tal o impacto e convicção desta constatação que, hoje, perante
evidências irrefutáveis, as pessoas de Lebução lembram este novo dito
matemático e amoroso. Dito incorporado no riquíssimo reportório imaterial e
jocoso da aldeia: - Calar, calo-me, mas seis pés são!
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