(Tanto podem fazer
trabalhos básicos, como terem altos cargos executivos, se quando regressam
parecem autênticos homens e mulheres com dez/vinte anos de atraso, quer de
educação quer de comportamento cívico.)
| António Magalhães (em Sheffield) |
Porque me fica bastante
caro alugar carro sempre que vou a Portugal de férias ou apenas para tratar de
assuntos pessoais, decidi comprar um carro em segunda mão.
A pessoa que me vendeu o
carro alertou-me desde logo que eu tinha de o levar à inspeção, “Mas o carro tá
muito bom, - assegurou-me - não tem problemas e passa na inspeção de certeza.”
Como eu sou emigrante,
não importa se faço trabalhos básicos ou altos cargos executivos em terras de
sua majestade, estou, segundo afirmações de algumas pessoas, com dez a vinte
anos de atraso em relação aos meus conterrâneos que se deixaram ficar por
terras lusas, e por esse motivo eu não sabia que para o veículo passar na
inspeção bastava que eu me esquecesse de uma nota de 20 euros algures pela
caixa de velocidades. Como não esqueci…o carro não passou.
Como qualquer outro
emigrante fico sempre excitadíssimo quando vou a Portugal. É o meu país, o meu
povo, a minha casa, os meus costumes, os meus hábitos, que desde que emigrei se
tornaram ao que parece, barulhentos e incomodativos, mas nem por isso, eu, com
os tais dez a vinte anos de atraso, deixei de amar este país que me viu nascer.
Nunca levo um carro
personalizado, seja lá o que isso significa, porque alugo sempre, e apesar de
me ficar bastante caro, é mais cómodo. Fica-me bastante caro especialmente se o
alugo em Agosto, mas isso, em Agosto tudo é muito mais caro. Será quase como
que um cartão de boas vindas aos emigrantes que não têm vida própria nos países
de onde vem, mesmo que, nesses países se cumpra à risca as leis e os direitos
de cada cidadão que faz parte da população ativa que movimenta a economia
desses países. A única diferença entre o meu querido país e os países para onde
emigraram muitos portugueses é que no nosso querido Portugal se faz muita
batota com as leis…
Quando fui devolver o
carro, estacionei-o de frente à casa da pessoa que mo vendeu, que por sinal é
um amigo. Tive que atravessar a estrada para lhe entregar as chaves, e quanto
às explicações já haviam sido feitas pelo telefone. Foi de facto nessa altura
que ele disse, “Carago, homem de Deus, se fosse eu a levar o carro ele tinha
passado.” E depois lá me explicou o truque dos 20 euros algures pela “moca” das
velocidades. Eu, que sou atrasado dez a vinte anos, estava mais preocupado com
a segurança do veículo do que com o facto de resolver o problema da inspeção do
mesmo.
Foi uma aventura para
atravessar a estrada para o outro lado, mesmo que eu tivesse à minha frente uma
passadeira para peões. Nos países atrasadinhos como aquele de onde eu passo
quase o ano todo a viver e a trabalhar, os carros param sempre que um peão mete
o pé na passadeira. De facto, param mesmo antes disso. Mas em terras lusas, a
constatar por aquilo que tenho apreciado em muitas situações que não só a
daquele dia em que eu tentava atravessar a passadeira, estas listas pintadas no
chão parecem não passar de uma zebra espalmada sem cabeça e sem rabo, e talvez
por esse motivo, qualquer peão que tenha a ousadia de pensar que por esse facto
tem prioridade sobre os veículos, sujeita-se a ser passado a ferro tendo como
destino o mesmo timbre espalmado na estrada, que teve a tal dita zebra.
Resolvido o problema, ou
seja, em nome da boa amizade que tenho com a pessoa que mo vendeu, devolvi-lhe
o carro, ele devolveu-me o dinheiro, e até hoje continuo a não ter certezas de
ele ter percebido o meu dilema que consistia na minha preocupação com a
segurança do carro em vez do mesmo andar pelas estradas a representar um risco
eminente que pode pôr em perigo de vida, não só a pessoa que o conduza, bem
como a pessoa, ou as pessoas, que o tenham que parar com o próprio corpo.
Para mostrar que não
haviam ficado ressentimentos que pudessem de alguma maneira manchar ou danificar
a nossa boa amizade, fomos, por indicação do casal amigo, almoçar a uma
tasquinha algures quase no meio do nada, mas onde se come muitíssimo bem e em
conta.
Se a comida era divinal,
a bebida não lhe ficava nada atrás. De facto, era a combinação mais do que
perfeita.
Como se costuma dizer,
comemos bem e bebemos melhor. Quem me conhece sabe que eu não sou pessoa de
beber muito. Mas se, como se diz, a ocasião faz o ladrão, a ocasião também pode
fazer o borrachão. Veja-se. Boa comida, bom vinho, férias, confraternização,
amizade, e quando se vai a ver…já se passou das marcas. Aqui é quando entra o
bom senso e a responsabilidade. Aliás, é de facto antes de chegarmos aqui. Por
isso, e como o meu amigo mesmo contra os meus protestos que nem eram assim
muito veementes, continuava a encher o meu copo, a minha querida esposa,
sabendo que seria ela a conduzir o carro de volta a casa, não passou de meio
copo de vinho, mesmo contra as insistências do meu amigo, que, isso eu percebi
desde logo, estava apenas a mostrar a sua amabilidade, mas acima de tudo a
amizade.
Acabado o almoço, que foi
longo e em muitas ocasiões jocoso, estava na hora de cada casal seguir o seu
caminho. Para qualquer um de nós, uns bons quilómetros até chegar a casa. Essa
a razão pela qual a mirífica situação que se passaria a seguir me deixou com
sérias dúvidas na exatidão do tal atraso de dez a vinte anos que nós os
emigrantes temos em relação aos nossos conterrâneos. O meu amigo, apesar de ter
bebido mais do que a sua conta assim o permitisse, (percebia-se pelos
perdigotos que soltava boca fora sempre que falava, pela voz arrastada e as
palavras que jorrava aos tropeções, difíceis de se perceberem, já para não
falar das vezes em que chorou sem razão aparente,) saltou para o volante e
arrancou sem dar cavaco aos meus cuidados em lhe fazer perceber que ele não
estava em condições de conduzir. Riu-se, olhou-me como se eu não estivesse a
dizer coisa com coisa, e à medida que alongava a primeira mudança carregando no
acelerador até que esta quase rebentasse antes de passar para a segunda, antes
de desaparecer de maneira barulhenta na nuvem de fumo que o escape deixou ficar
a pairar no ar até se esfumar, ainda me disse, “Você não tá bom da cabeça. Ó
homem de Deus, eu estou bem. Ainda bubia mais…”
E eu, que tinha bebido
também a minha conta, fiquei de ar pensativo a tentar arranjar uma explicação
para o sucedido. Digamos, uma espécie de teoria. E pensei…bem, das quatro
garrafas que vieram para a mesa, eu bebi cerca de dois copos, okay…talvez três,
a minha querida esposa cerca de meio, a esposa do meu amigo pouco mais de
meio…e o resto evaporou-se pela sua garganta abaixo. No fim do almoço pedimos
“um cafezinho”, e o meu amigo, com o café pediu um cheirinho. Pense melhor quem
achar que o tasqueiro lhe trouxe um frasco de perfume junto com o café. Não
fazia sentido. Por isso, e porque pelos vistos o meu amigo é um bom cliente da
casa, trouxe a garrafa de aguardente que deixou ficar na mesa para que o meu
amigo se servisse à sua vontade. Pensei, bem…se ele mesmo afirma que ainda
“bubia” mais…talvez tenha engolido uma esponja em qualquer altura da sua vida.
Infelizmente, o meu amigo
representa muitos dos condutores do meu país no dia a dia, que bebem mais do
que a conta e acreditam que estão perfeitamente bem para continuar a conduzir.
Mas isto são pensamentos meus que estou atrasado cerca de dez a vinte anos quer
em educação quer em comportamentos cívicos.
Esta frase, isto para não
tecer comentários fragosos, sou obrigado a entendê-la como que uma maneira de
disfarçar um certo patriotismo que, no contexto da mesma, vai contra a razão do
seu significado. Também poderia usar uma frase, com menos requinte é certo, mas
que poderia, se não definir, pelo menos explicar o sentido que a afirmação de
quem a fez, assim o pretendia e que é, “chama-lhe p…ta antes que ela te chame a
ti.”
Enfie a carapuça a quem a
mesma servir.
No dia a seguir ao almoço
com o casal amigo, saí com os meus três filhos e a minha esposa e fomos tomar
café. Os rapazes a dado momento entreolharam-se para logo de seguida poisarem
os olhos quase simultaneamente em mim. Percebi. Cheirou-me. Ou seja, o fumo do
tabaco chegou-me ao nariz e isso complementou o ar admiradíssimo e ao mesmo
tempo incomodado, dos rapazes, porque na esplanada onde nos sentamos, mesmo na
mesa contigua à nossa, duas das três pessoas que lá se sentaram estavam a
fumar.
Estive mesmo perto de
perguntar-lhes se o meu café não estaria porventura a incomodar o cigarro
deles, mas isso, convenhamos, só iria mostrar e confirmar o tal atraso de dez a
vinte anos. Neste caso, qualquer número entre o dez e o vinte serviria muito
bem.
Para não incomodar ou
aborrecer ninguém com a minha falta de hábitos, convenci a família a
terminarmos o café dentro do estabelecimento. Acabamos por nos ir embora porque
dentro do café também se fumava. Os rapazes ficaram escandalizados. Não tive
palavras que lhes explicasse, ou pelo menos que os convencesse que em alguns
estabelecimentos em Portugal se fuma, como se fazia à dez anos em Inglaterra.
Disse-lhes apenas que havia um atraso de pelo menos dez anos, só não lhes disse
de quem. Como sei bem que os meus filhos são inteligentes, também sei que eram
desnecessárias outras explicações.
Com uma espécie de
sentimento de frustração saímos do café e por decisão unanime decidimos dar um
passeio até à cidade berço.
Quem conhece o trajeto
entre Felgueiras e Guimarães sabe bem que a estrada é cheia de curvas e
contracurvas.
Tal como o simples ato de
atravessar a rua numa passadeira para peões, para quem já não está habituado a
conduzir em Portugal, quem já não sofre da impaciência e da constante pressa
dos condutores portugueses, ou seja, para quem finalmente aprendeu algumas
maneiras cívicas na estrada, os cerca de 17 quilómetros que separam as duas
cidades pode ser também uma aventura, mas uma aventura nada agradável.
Logo após ter passado a
área do Ramalhal, para quem não conhece a zona, cerca de 2 km depois de ter
deixado Felgueiras, deparo-me com um condutor a quem normalmente se chama
“condutor domingueiro” por este conduzir devagar e despreocupadamente. Está, no
entanto, no seu direito, e por isso mantive-me pacientemente a seguir a sua
cauda sem atentar uma ultrapassagem pois o espaço de uma curva à outra
representa sempre um perigo.
A mesma paciência não
tinham alguns dos condutores que iam surgindo por detrás de mim. Num ato que só
pode ser considerado louco, irresponsável, perigoso, depois de algum tempo de
profunda e enervante pressão, uma ultrapassagem, às vezes mesmo em cima da
curva, e para mostrarem que não estavam nada satisfeitos pela impaciência a que
haviam sido submetidos, o braço de fora da janela, o punho fechado e o dedo do
meio bem hirto a mostrar o desagrado.
Para disfarçar a pressão
e o stress a que fui submetido nesta curta viagem que deveria ser supostamente
um passeio agradável, lá fui dizendo à família que se pensássemos bem a culpa
até seria nossa pois não temos a mesma habilidade destes condutores ágeis e
cheios de coragem, e isso, talvez se deva ao facto de estarmos atrasados
dez/vinte anos em relação a eles. Coitados que têm que aguentar estes
emigrantes tão cheios de cuidados desnecessários, tão parcos de maneiras
cívicas e de educação…
Excesso de velocidade,
pressão no condutor da frente, ultrapassagens em cima das curvas, manobras perigosas,
parece ser um hábito, mau, de muitos condutores nas estradas portuguesas. Por
algum motivo os números drásticos de acidentes e mortes é elevadíssimo. Por
isso, deixem-se de merdas, porque um bom condutor não é aquele que conduz com
muita velocidade, mas sim aquele que conduz em consciência, não só pela sua
vida como pela vida dos outros.
À noite quando me sentei
na varanda de casa a conversar com a minha querida esposa, os mesmos três
solitários que temos vindo a testemunhar quase todas as noites nestes dias de
férias que se referem à época destes acontecimentos, passavam a rua, em fila
indiana, cansados, famintos provavelmente, mal tratados com certeza,
taciturnos, à procura de nada, poiso talvez. Poiso onde possam descansar o
corpo canino abandonado.
É incrível o número de
animais, especialmente cães e gatos, diria que, mais cães, abandonados em
Portugal. Muitas vezes, os desgraçados, como se já não bastasse a sua vida
literalmente de cão, ainda são escorraçados à pedrada, sem razão que justifique
tal ato de cobardia a não ser uma crueldade de uns quantos inhenhos que nem
sequer sabem distinguir a verdadeira lealdade e a fidelidade do mais puro que
se possa esperar e que vem precisamente do cão.
O texto vai longo, e a
mensagem se se perdeu entre parágrafos, poder-se-ia resumir a este parágrafo
que se segue…
Todos os emigrantes que
saem do conforto da sua terra e das suas famílias e amigos e se aventuram a
iniciar uma nova vida num outro país, conhecendo uma nova cultura, novos povos,
novos hábitos, outros mundos, como raio podem estar atrasados em relação a quem
fica no mesmo lugar, acomodado aos mesmos velhos e maus hábitos de sempre?
Como dizia o grande
filósofo Português, Agostinho da Silva…deixem-se de merdas.

Sendo um colaborador do tempocaminhado, a minha maior preocupação é dizer o que tenho para dizer em poucas palavras. Temo que textos extensos não sejam lidos pelos leitores. Neste caso, não vale a pena escrever. Daí ter criado as notas de rodapé e que outros já imitaram. Os tempos não são fáceis. Jorge Lage
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