Raquel Varela - wordpress.com
Posted on July 24,
2019
Caros, a matéria mais
perigosa na vida é a falta de curiosidade. O “saltar para conclusões” sem saber
nada de um assunto, nicles, rien. Em matéria da greve de matérias perigosas
estamos ao nível dos “5 mil euros dos estivadores”, e os “enfermeiros a matar doentes
com a greve” – é o nível zero do conhecimento, aqui reduzido a “malandros,
mafiosos”, que têm um “advogado que tem um bom carro”. Nem sei que vos diga…é
tanta a superficialidade dos comentários que me dão uma certa vergonha alheia.
Em primeiro lugar
nunca vi ninguém queixar-se de que os patrões são sistematicamente
representados por advogados, gestores de recursos humanos e agências de
comunicação pagas a contratos de até 100 mil euros por ano. Em Portugal nunca
patrão algum deu a cara em nenhum conflito laboral. Aliás com frequência
colocam o Governo a fazer esse papel por eles, o que o Governo tem feito com
gosto. Aqui ninguém sabe o que a Antram pensa porque o Governo não evita falar
em nome da Antram – tem isto um nome na ciência histórica, neo-corporativismo.
E nem o Governo nem a Antram explicam que o patrão real são os accionistas da
Galp e da Repsol, que fixam o preço/Km e que se prepararam para cortar 400
euros no salários dos motoristas. Sendo que de todos os motoristas estes, até
agora, foram os únicos a opor-se a esta mega-valorização dos accionistas da
Galp. Escusado será dizer que Paula Amorim, dona da Galp, um dos patrões-mor
deste conflito, está na capa das revistas cor de rosa a inaugurar espaços
gourmet na Comporta. Enquanto o Ministro do Governo ameaça – perdão “avisa” –
os motoristas que por causa deles não vamos de férias em Agosto para a
Comporta.
Daqui decorre a
segunda ideia. Podemos gostar ou não do advogado. Mas cabe ao sindicato decidir
quem o representa, e não a nós. Felizmente ainda não sou eu, nem vocês, nem o
Governo, a escolher quem representa sindicatos. Foi assim 48 anos, no Estado
Novo. Já não é.
Finalmente o carro.
Para mim falar de carros é…olhem, ainda há 15 dias coloquei gasolina em vez de
gasóleo no meu. Sei tanto de carros como vocês de greves e relações laborais –
zero, nicles, nestum. O meu sonho era nunca mais conduzir e ter sempre um
motorista, como Centeno vai ter no FMI. Mas o FMI é o último lugar da terra –
depois de um jantar a dois com Trump -, onde gostaria de estar. Pelo que vou
continuar sem motorista, a confundir gasóleo com gasolina. Já vi que tantos
consideram o FMI um lugar de prestígio, onde há um carro charmoso. E por isso
não admitem que um advogado de motoristas ande com mais do que um utilitário,
produzido ali na Auto Europa, com trabalho aos Domingos.
Agora a greve – já
que toda a discussão anterior é de uma enorme inutilidade. Vamos ao que
interessa. A Fectrans, dirigida maioritariamente pelo PCP, está ligada
eleitoralmente ao apoio ao Governo actual. Ao romperem uma regra de ouro do
sindicalismo – manter a independência face a qualquer Governo – os dirigentes
da Fectrans abriram a porta a uma ruptura com a sua base. E resolveram assinar
um acordo onde os motoristas passariam a receber de facto menos 400 euros por
mês e sem limite de horário real. Este grupo de motoristas (de matérias
perigosas) achou que a vida ia virar uma geringonça – que só na aparência saía
do mesmo sítio. E resolveu sair da Fectrans e fez um Sindicato novo. E uma greve
que paralisou o país, e ameaçam com outra greve. Podemos ser contra ou a favor.
O que não podemos é inventar desculpas que atacam pessoas individuais (e
carros!), para eludir a compreensão do problema. Tudo indica que já se
escreveram centenas de peças sobre o tema mas ninguém leu o acordo assinado
pela Fectrans. Eu li, claro, todo.
Estes motoristas, bem
como quase todos no país, ganhavam até aqui da seguinte forma: salário base
mínimo de 600 euros, mais 500 ou 600 euros em “ajudas de custo” – em que os patrões
não pagam impostos – ; e mais 100 euros em horas extraordinárias. O que
correspondia a um total real de 15 horas por dia de trabalho quase sempre e um
salário trazido para casa no valor de 1200 a 1300 euros.
A Fectrans assinou
com os patrões um acordo em que deixa de haver de facto limite de horas extra
(é introduzido a laboração contínua, como foi na Auto Europa), mas o salário
aumenta 100 euros na base e mais 300 euros em horas extraordinárias (não
interessa se fazem mais 10 ou 100, o valor a mais é sempre um fixo de 300 –
como na Auto Europa o valor ao fim de semana passou a ser fixo). Assim, os
patrões passam a pagar o mesmo, cerca de 1200 euros, mas entram 300 euros
desses em impostos a Centeno, e os motoristas no fim ficam com um salário real que
trazem para casa de 900 euros (e com horas extraordinárias ilimitadas).
Acrescento que o
número máximo fixo por lei de condução é 9 horas, mas 15 por dia no total –
cargas, descargas etc, ou seja, estes homens trabalhavam 15 horas por dia e
traziam para casa 1200 euros e agora trabalhariam 15 horas por dia e iriam
trazer para casa 900 euros. Centeno vai para o FMI de Bentley, pois consegue
como prémio mais um valor de impostos para pagar tiutlos de dívida
pública-privada. Eles, os motoristas, vão para a estrada arriscar a vida – mas
destas vez a vida vale menos 300 euros.
Em vez disso
resolveram fazer greve, por um aumento real do salário, e que lhes permita
viver sem trabalhar 15 horas por dia. A Galp, Repsol e grandes empresas fixam
um preço Km, subcontratam às empresas que por sua vez subcontratam a empresas
ainda mais pequenas – no fim da cadeia estão estes homens. Que vieram dizer ao
país que não vai ficar no fim da cadeia, que querem salários decentes. O país
não gostou, deles, do advogado e do carro.
Conhecem aquela velha
canção norte-americana, cantada pelos membros dos seus mais poderosos
sindicatos, e pelo magistral Pete Seger? Chama-se “Which side are you on?” – De
que lado estás?. Ela desafia-nos a pensar até onde vai o nosso cinismo. Ou o
nosso sentido de justiça social. São estas escolhas que decidem no fim do dia
quem somos, e quem queremos ser.


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