| ANTÓNIO MAGALHÃES ( em Sheffield) |
É tempo de me desligar do
mundo e de me encontrar comigo…
Foi um dia cansativo.
A roda viva começou precisamente no primeiro momento em que o
despertador iniciou a sua persistente e irritante melodia. Fá-lo teimosamente
de cinco em cinco minutos, todas as manhãs muito antes da luz do dia raiar,
mesmo que, ainda meio a dormir meio acordado o procure na mesinha de cabeceira,
onde sempre fica durante a noite, mas ao mesmo tempo quase difícil de
encontrar, encoberto que sempre está pelo escuro da noite e pelo facto de eu
ter acordado, mas não despertado.
E a partir desse instante em que desperta, ele, pela primeira
vez, quase sempre no momento em que finalmente me entregava a um sono mais
profundo, não se cala, até que eu fique ciente de que, com muito custo e muita
pena, já não posso voltar a dormir.
Depois, começa o dia começa a romaria.
Acelerar o passo para não chegar atrasado ao trabalho.
Enfrentar os afazeres desse mesmo trabalho. As suas atribulações. Os colegas,
que tal como eu, têm dias… O relógio que não anda. As mensagens que à socapa se
enviam e se recebem. As reuniões à noite, depois do trabalho. Os problemas que
sempre surgem e parecem não ter fim. A preocupação com a vida, a minha e a dos
filhos. A preocupação com o bem-estar deles. A televisão, os programas de que
se gosta, a publicidade constante entre eles, que irrita. Os telefonemas que
não espero, os outros que espero, mas nem sempre me agradam. O barulho dos
carros. O barulho das pessoas. O barulho do mundo.
Foi um dia de emoções. Algumas boas, outras nem por isso,
umas quantas más e irritadiças.
E é então que, à noite já quando todo o mundo se foi deitar,
quando se desligaram os aparelhos, e o silêncio da noite se abate na calma do
meu quarto, procuro uma posição confortável quando me sento, de joelhos
dobrados e pernas cruzadas, de costas direitas e pescoço firme, mas
descontraído, e medito.
É tempo de me desligar do mundo e de me encontrar comigo. É
tempo de olhar para dentro do meu ser e compreender-me a mim mesmo. Ou morrer
tentando.
E nesse silêncio absoluto, só a minha respiração
na qual me concentro, rasga esse mar de calmaria onde tento mergulhar para me
reestabelecer a mim mesmo. Pacientemente ali fico sentado à espera do
reencontro comigo, enquanto luto para amenizar os barulhos do silêncio, para os tornar harmoniosos e pacíficos. Para acalmar no
alvoroço dos pensamentos e das pequenas distrações, que não param de me
beliscar para me distraírem da minha concentração. Não é um processo fácil. Mas
como em tudo na vida, precisa de persistência. Insistir, praticar, não
desistir.
Os benefícios da meditação raramente são imediatos. Mas com a
prática, com a persistência, em pouco tempo deixa de ser algo
que fazemos porque necessitamos, para ser algo que fazemos porque queremos
ansiosamente fazer.
Inspirar pelo nariz, profundo, até sentir o peito e o estômago a aumentar. Expirar pela boca, serenamente e devagar.
Deixo que as energias negativas escapem de dentro de mim, com esse expirar
longo e calmo. E quanto mais me concentro nessa calma, deixando que a mente
relaxe, sem que me aperceba, já nem sequer ouço a minha respiração. Já quase
não preciso dela para me encontrar nesse estado de calma, de serenidade, de
meditação. Já quase não me lembro do meu corpo. Não preciso.
Entro para dentro de mim pelo lado escuro do interior dos
meus olhos fechados, qual porta de uma imensa serenidade onde me encontro com o
meu ser.
É neste estado, neste silêncio, que tenho uma melhor
compreensão de mim mesmo, e do meu propósito na vida. É neste estado e neste
silêncio que percebo que o meu Deus, não é nem nunca será o Deus
que me impõem, mas sim aquele Poder superior a mim mesmo, que me pode ajudar,
que me pode devolver ao verdadeiro entendimento da minha própria vida e o que
fazer com ela.
Com a meditação aprendi que o importante é viver o presente,
valorizar o momento, sem ficar numa espécie de limbo, entre um passado que não
volta, e um futuro em que nem sequer tenho a certeza de poder viver.

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