| ANTÓNIO MAGALHÃES ( em Sheffield) |
Quando o Maestro levantou os braços, fê-lo por natural instinto.
Poder-se-ia imaginar, que pelo facto de ser Maestro, levantaria os
braços porque estaria a conduzir uma orquestra. Mas não. O Maestro levantou os
braços numa reação normal, de quem subitamente se vê perante uma situação que
põe em risco a sua integridade física, e até mesmo a sua vida. Levantou os
braços, mesmo antes do medo se manifestar. Levantou os braços porque, perante a
ameaça outra coisa não era de esperar.
- Isto é um assalto.
O assaltante saiu-lhe repentinamente, de uma esquina solitária, das
muitas esquinas solitárias da noite, da cidade. A noite, por sua vez,
sorrateira e silenciosa, cobrindo a cidade, como se, sobre ela estendesse o seu
manto de escuridão, á medida que as luzes se acendem para iluminarem alguns
espaços que esse manto cobre, dá abrigo ás maiores atrocidades, ao mesmo tempo
que, em silêncio as testemunha.
O assaltante não surgiu apenas de rompante, da esquina, das muitas
esquinas da cidade. Cobardemente, esperou sob o manto escuro que a noite lançou
sobre a cidade, e como um predador pronto a agarrar a sua presa, saltou para a
luz que iluminava o espaço coberto pelo manto escuro da noite. Trazia na mão
uma navalha, que em tom ameaçador apontou ao Maestro.
O Maestro, um homem culto, inteligente, sábio, e acima de tudo sensato,
só iria saber se o medo que tentava disfarçar, seria justificado, perante,
apesar de tudo, a situação assustadora, se o assaltante se revelasse um
ignorante, ou alguém que, apesar das circunstâncias ainda tem alguns miolos.
Por isso, calmamente e com inteligência, vai tentar dissuadi-lo de
praticar o ato em iminência. O sucesso não está na sua capacidade de dissuasão
e na inteligência em o praticar, mas sim na capacidade de o possível dissuadido
o entender. Afinal de contas o desfecho desta situação não está nas mãos do
Maestro, que apesar de tudo “não baixa os braços,” mas sim na capacidade de
entendimento aos seus argumentos, por parte do assaltante…
Esta teoria, não a história, ouvi-a há muitos anos pela boca do maestro
Vitorino de Almeida, e vem a propósito de uma notícia que ouvi na rádio quando
um domingo de manhã conduzia o carro com a minha família dentro, em direção ao
centro da cidade de Sheffield onde havíamos concordado por unanimidade tomar o
pequeno almoço.
A notícia referia-se a uma rixa envolvendo arma branca, e que fez duas
vítimas mortais levando à prisão de 2 jovens com pouco mais de 20 anos.
Infelizmente são bastante comuns estas notícias trágicas que envolvem a
morte, na sua maioria de jovens. Em Leeds, uma jovem foi encontrada morta,
esfaqueada. Uma outra jovem de apenas 22 anos, desaparecida na noite de Natal,
foi encontrada morta em Finsbury park, norte de Londres, perto da casa onde
vivia, com indícios de facada e ferimentos na cabeça.
E eu, muitas vezes perplexo, pergunto a mim mesmo que raio de espécie é esta,
que deveria ser supostamente a mais inteligente do planeta, acaba muitas vezes
por mostrar em muitas situações o quanto tem de maléfico e de ignorante.
Como dizia o maestro Vitorino de Almeida, “o meu medo no caso de ser
assaltado na rua, é o de me sair um assaltante ignorante. Se for uma pessoa com
inteligência eu sei que tenho argumentos suficientes para o dissuadir do ato
que está prestes a praticar, mas se for um ignorante…não importa o que eu lhe
vá argumentar porque ele não vai entender…
Ah… a propósito… o Maestro, não o Vitorino de Almeida, mas sim o da
história, está morto e o assaltante está preso. E, no entanto, o que mais dói
neste caso, nem sequer é só a perda de um homem bom, inteligente e útil à sociedade,
porque essa é infelizmente irreversível, e ele será chorado para sempre. O que
dói, é saber que o assaltante, por ser tao burro e ignorante, por muitos anos
de prisão que tenha pela frente, não tem inteligência, ou muito menos humildade
suficiente, para que alguma vez entenda a dimensão da merda que fez.
Mais do que o azar do Maestro encontrar nessa noite um assaltante, foi o
de encontrar um ignorante.
O que faz de nós humanos?

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