sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Isto é um assalto


ANTÓNIO   MAGALHÃES
( em Sheffield)

Quando o Maestro levantou os braços, fê-lo por natural instinto.
Poder-se-ia imaginar, que pelo facto de ser Maestro, levantaria os braços porque estaria a conduzir uma orquestra. Mas não. O Maestro levantou os braços numa reação normal, de quem subitamente se vê perante uma situação que põe em risco a sua integridade física, e até mesmo a sua vida. Levantou os braços, mesmo antes do medo se manifestar. Levantou os braços porque, perante a ameaça outra coisa não era de esperar.
- Isto é um assalto.
O assaltante saiu-lhe repentinamente, de uma esquina solitária, das muitas esquinas solitárias da noite, da cidade. A noite, por sua vez, sorrateira e silenciosa, cobrindo a cidade, como se, sobre ela estendesse o seu manto de escuridão, á medida que as luzes se acendem para iluminarem alguns espaços que esse manto cobre, dá abrigo ás maiores atrocidades, ao mesmo tempo que, em silêncio as testemunha.
O assaltante não surgiu apenas de rompante, da esquina, das muitas esquinas da cidade. Cobardemente, esperou sob o manto escuro que a noite lançou sobre a cidade, e como um predador pronto a agarrar a sua presa, saltou para a luz que iluminava o espaço coberto pelo manto escuro da noite. Trazia na mão uma navalha, que em tom ameaçador apontou ao Maestro.
O Maestro, um homem culto, inteligente, sábio, e acima de tudo sensato, só iria saber se o medo que tentava disfarçar, seria justificado, perante, apesar de tudo, a situação assustadora, se o assaltante se revelasse um ignorante, ou alguém que, apesar das circunstâncias ainda tem alguns miolos.
Por isso, calmamente e com inteligência, vai tentar dissuadi-lo de praticar o ato em iminência. O sucesso não está na sua capacidade de dissuasão e na inteligência em o praticar, mas sim na capacidade de o possível dissuadido o entender. Afinal de contas o desfecho desta situação não está nas mãos do Maestro, que apesar de tudo “não baixa os braços,” mas sim na capacidade de entendimento aos seus argumentos, por parte do assaltante…
Esta teoria, não a história, ouvi-a há muitos anos pela boca do maestro Vitorino de Almeida, e vem a propósito de uma notícia que ouvi na rádio quando um domingo de manhã conduzia o carro com a minha família dentro, em direção ao centro da cidade de Sheffield onde havíamos concordado por unanimidade tomar o pequeno almoço.
A notícia referia-se a uma rixa envolvendo arma branca, e que fez duas vítimas mortais levando à prisão de 2 jovens com pouco mais de 20 anos.
Infelizmente são bastante comuns estas notícias trágicas que envolvem a morte, na sua maioria de jovens. Em Leeds, uma jovem foi encontrada morta, esfaqueada. Uma outra jovem de apenas 22 anos, desaparecida na noite de Natal, foi encontrada morta em Finsbury park, norte de Londres, perto da casa onde vivia, com indícios de facada e ferimentos na cabeça.
E eu, muitas vezes perplexo, pergunto a mim mesmo que raio de espécie é esta, que deveria ser supostamente a mais inteligente do planeta, acaba muitas vezes por mostrar em muitas situações o quanto tem de maléfico e de ignorante.
Como dizia o maestro Vitorino de Almeida, “o meu medo no caso de ser assaltado na rua, é o de me sair um assaltante ignorante. Se for uma pessoa com inteligência eu sei que tenho argumentos suficientes para o dissuadir do ato que está prestes a praticar, mas se for um ignorante…não importa o que eu lhe vá argumentar porque ele não vai entender…   
Ah… a propósito… o Maestro, não o Vitorino de Almeida, mas sim o da história, está morto e o assaltante está preso. E, no entanto, o que mais dói neste caso, nem sequer é só a perda de um homem bom, inteligente e útil à sociedade, porque essa é infelizmente irreversível, e ele será chorado para sempre. O que dói, é saber que o assaltante, por ser tao burro e ignorante, por muitos anos de prisão que tenha pela frente, não tem inteligência, ou muito menos humildade suficiente, para que alguma vez entenda a dimensão da merda que fez.
Mais do que o azar do Maestro encontrar nessa noite um assaltante, foi o de encontrar um ignorante.
O que faz de nós humanos?

Sem comentários:

Enviar um comentário

A liberdade ...

 

Os mais lidos