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| JORGE LAGE |
Estava eu a milhares de quilómetros do continente europeu, quando sou
apanhado, em conversa cruzada, por amigos da Tertúlia Transmontana de Lisboa,
sobre as andorinhas. Um (Jorge Golias) queixava-se que as andorinhas este ano
não tinham vindo e outro (João de Deus), com o coração de poeta, descrevia a
azáfama das andorinhas para a Caparica a limparem o ninho para mais um sublime
acto criador. Pelo meio o Eduardo Botelho botou um poema e o Carlos Cordeiro
mostrou-se cauteloso. Assim, na conversa cruzada que eu apanho e em que
mergulho, ficou a promessa de eu falar das andorinhas da minha aldeia e da
minha que partiu. Como criança lembro-me da azáfama de fazerem o ninho em
locais inacessíveis à garotada. Nos entardeceres infernais a dizimarem a
mosquitada e nos voos rasteiros quando se adivinhava a tormenta. Lá continua a
imagem especada do Tonho Fena, no jogo da esquina do curral da Tia Rosaira, com
os dentes da forcada afiados, para apanhar as andorinhas em voo rasante. Elas,
moradoras de arribação, conheciam bem o trajecto da sua caçada insectívora: rua
de Cima, fundo da Igreja, rua de Baixo, Terreiro do Capitão e aí estavam elas,
como setas, na esquina do curral. O Tonho Fena distraía-se a pensar na
andorinha da Taberna da Tia Cristina e só dava por elas depois de passarem e o
movimento de as caçar, com a forquilha, era digno de um filme do Charlot.
Passaram-se muitas décadas e as andorinhas tornaram-se mais dóceis, fazendo o
ninho na nossa varanda, à altura de uma cabeça e na garagem e já eu me tinha
assumido ecologista. Perguntei ao meu irmão Manuel se os mosquitos o mordiam
como antigamente e a resposta foi negativa. Expliquei-lhe que era a empreitada
das andorinhas que os dizimavam. A partir daqui as andorinhas passaram a fazer
parte da família. Falou-me da nuvem de andorinhas que num fim de tarde outonal
se apinhavam nos fios da electricidade em frente ao Terreiro do Tanque, junto a
nossa casa. Esta despedida em cacho teria a ver com a protecção que o Manel lhe
dava. Este ano as andorinhas não verão o protector porque a tarde invernal
chegou quando a Primavera ainda não desabrochava. A minha aldeia é agora uma
sombra mortiça, sem a luz e a vida do meu segundo pai e do primo António. Somos
andorinhas de ruínas que chegamos e vamos partindo.


Caro Amigo Jorge: Li este seu interessante texto e ocorreu-me um poema que fiz lembrando casas e andorinhas lá na minha aldeia. Eram assim, os dizeres:
ResponderEliminarANDORINHA NO BEIRAL
No beiral da velha casa
Havia um ninho a um canto
Que a andorinha fazia.
Um dia quebrou a asa
E eu perdi o encanto
Que ela sempre me trazia.
Não mais voltou a criar,
Ficou um ninho enjeitado,
Não mais houve Primavera
Nem se voltou a caiar
Esse prédio abandonado
Que toda a graça perdera.
A casa ficou sem dono…
Já ninguém ali morava
Depois que a ave se foi.
Nesse completo abandono
Só negra sombra pairava
Duma tristeza que dói.
Lembro o voo da andorinha
Por vezes rasando o chão
Ou a pique levantando…
Mais parece a alma minha
Vogando na confusão
E, de saudades, penando.
Meimoa, 2 de Novembro de 2010
João Afonso