quarta-feira, 31 de julho de 2019

Partiu a andorinha



JORGE LAGE
Estava eu a milhares de quilómetros do continente europeu, quando sou apanhado, em conversa cruzada, por amigos da Tertúlia Transmontana de Lisboa, sobre as andorinhas. Um (Jorge Golias) queixava-se que as andorinhas este ano não tinham vindo e outro (João de Deus), com o coração de poeta, descrevia a azáfama das andorinhas para a Caparica a limparem o ninho para mais um sublime acto criador. Pelo meio o Eduardo Botelho botou um poema e o Carlos Cordeiro mostrou-se cauteloso. Assim, na conversa cruzada que eu apanho e em que mergulho, ficou a promessa de eu falar das andorinhas da minha aldeia e da minha que partiu. Como criança lembro-me da azáfama de fazerem o ninho em locais inacessíveis à garotada. Nos entardeceres infernais a dizimarem a mosquitada e nos voos rasteiros quando se adivinhava a tormenta. Lá continua a imagem especada do Tonho Fena, no jogo da esquina do curral da Tia Rosaira, com os dentes da forcada afiados, para apanhar as andorinhas em voo rasante. Elas, moradoras de arribação, conheciam bem o trajecto da sua caçada insectívora: rua de Cima, fundo da Igreja, rua de Baixo, Terreiro do Capitão e aí estavam elas, como setas, na esquina do curral. O Tonho Fena distraía-se a pensar na andorinha da Taberna da Tia Cristina e só dava por elas depois de passarem e o movimento de as caçar, com a forquilha, era digno de um filme do Charlot. Passaram-se muitas décadas e as andorinhas tornaram-se mais dóceis, fazendo o ninho na nossa varanda, à altura de uma cabeça e na garagem e já eu me tinha assumido ecologista. Perguntei ao meu irmão Manuel se os mosquitos o mordiam como antigamente e a resposta foi negativa. Expliquei-lhe que era a empreitada das andorinhas que os dizimavam. A partir daqui as andorinhas passaram a fazer parte da família. Falou-me da nuvem de andorinhas que num fim de tarde outonal se apinhavam nos fios da electricidade em frente ao Terreiro do Tanque, junto a nossa casa. Esta despedida em cacho teria a ver com a protecção que o Manel lhe dava. Este ano as andorinhas não verão o protector porque a tarde invernal chegou quando a Primavera ainda não desabrochava. A minha aldeia é agora uma sombra mortiça, sem a luz e a vida do meu segundo pai e do primo António. Somos andorinhas de ruínas que chegamos e vamos partindo.

1 comentário:

  1. Caro Amigo Jorge: Li este seu interessante texto e ocorreu-me um poema que fiz lembrando casas e andorinhas lá na minha aldeia. Eram assim, os dizeres:

    ANDORINHA NO BEIRAL

    No beiral da velha casa
    Havia um ninho a um canto
    Que a andorinha fazia.
    Um dia quebrou a asa
    E eu perdi o encanto
    Que ela sempre me trazia.

    Não mais voltou a criar,
    Ficou um ninho enjeitado,
    Não mais houve Primavera
    Nem se voltou a caiar
    Esse prédio abandonado
    Que toda a graça perdera.

    A casa ficou sem dono…
    Já ninguém ali morava
    Depois que a ave se foi.
    Nesse completo abandono
    Só negra sombra pairava
    Duma tristeza que dói.

    Lembro o voo da andorinha
    Por vezes rasando o chão
    Ou a pique levantando…
    Mais parece a alma minha
    Vogando na confusão
    E, de saudades, penando.



    Meimoa, 2 de Novembro de 2010
    João Afonso

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