João Carlos Espada – OBSERVADOR
A experiência mostrou que as culturas
políticas que ignoram o “espectador imparcial” de Adam Smith estão condenadas à
pobreza e à perpétua oscilação entre a servidão e o abuso.
Já tudo terá sido dito sobre o
comportamento peculiar do sr. Joe Berardo numa audição parlamentar. Há uma
dimensão, todavia, que talvez valha a pena re-visitar e enfatizar. Trata-se de
sublinhar que o comportamento do sr. Berardo não revela apenas uma
idiossincrasia pessoal. Exprime uma visão do mundo que em regra está associada
ao tribalismo — o qual, por sua vez, está em regra associado ao
subdesenvolvimento, ao despotismo, ao abuso, e à pobreza.
A esta ignorância ou indiferença perante
regras gerais e imparciais de conduta, Adam Smith atribuiu uma das chaves da
pobreza das nações. As culturas que ignoram o conceito de regras imparciais só
conhecem o interesse de grupos particulares — nós contra eles, os nossos contra
os outros. “Os nossos” podem ser vários: a família, o clã, a tribo, o bairro,
um grupo religioso, um grupo político, uma empresa, um grupo étnico, uma
‘mafia’, uma corte de favoritos dos poderes políticos de plantão.
Basicamente, a visão tribal não consegue
conceber a ideia que Adam Smith designou por “espectador imparcial”: a ideia de
que a justificação das nossas acções deve ser avaliada por referência a um
hipotético “espectador imparcial”, não por referência aos nossos propósitos
particulares. Esta ideia de “espectador imparcial” está em grande parte
subjacente ao preceito de que “os fins não justificam [todos] os meios” — bem
como à ideia crucial de justiça imparcial.
A visão tribal dos grupos caracteriza-se
precisamente por ignorar o conceito de regras de conduta imparciais. De acordo
com a visão tribal, o “nosso grupo” pode — e deve — adoptar condutas que “nós”
denunciamos veementemente nos outros. E, em regra, o “nosso grupo” pode adoptar
essas condutas precisamente porque está em guerra (ainda que surda) contra os
outros. Essa ideia primitiva de guerra tribal entre grupos (de que a luta de
classes marxista é apenas uma das versões modernas, sendo outra a ideia de
política como oposição entre amigo e inimigo, de Carl Schmitt) exclui
inevitavelmente qualquer ideia de “espectador imparcial”.
A experiência mostrou que as culturas
políticas que ignoram o “espectador imparcial” de Adam Smith estão condenadas à
pobreza e à perpétua oscilação entre a servidão e o abuso. Mas, ao contrário de
vários autores seus contemporâneos — geralmente associados ao Iluminismo
continental — Smith não advogou a abolição dos, nem sequer a hostilidade
contra, os grupos ou identidades particulares. A tentativa de abolição da
variedade de grupos ou identidades particulares só poderia ser ensaiada por um
grupo particular central (talvez designado por “Estado”, ou por “Vontade
Geral”) — o qual, para atingir esse propósito, não poderia ele próprio estar
limitado por regras gerais imparciais.
Pelo contrário, Smith defendeu que os
indivíduos (e os grupos que resultassem da sua livre associação) deviam ser
livres de interagir entre si num ambiente de “liberdade natural” protegida pela
lei. A lei — geral, abstracta, igual para todos e independente de propósitos
particulares — deveria proteger a “liberdade natural” das pessoas, sobretudo a
vida, a liberdade, a propriedade e a lisura dos contratos.
Smith argumentou — e aqui reside mais um
dos seus olhares originais — que, nesse clima de “liberdade natural” protegida
pela lei, a interacção e as transacções descentralizadas entre os indivíduos e
as suas associações reforçaria a percepção espontânea da ideia de “observador
imparcial”. Autores mais recentes chamaram a estes resultados não intencionais
da interacção descentralizada sob a lei imparcial “capital social”,
“confiança”, “sociedade civil” ou ainda “civilidade”.
E corroboraram a ideia smithiana de que
interacção descentralizada sob a protecção imparcial da lei tende a gerar, como
que através de uma “mão invisível”, o crescimento da riqueza das nações. Em
contrapartida, estes autores reforçaram o alerta smithiano contra as
intervenções e favores arbitrários do Estado — que corrompem a confiança
civilizada na lei imparcial e encorajam comportamentos tribais.
Em suma, ao justamente denunciarmos o
“desplante” do sr. Berardo, convém recordar o primitivismo tribal que esse
desplante revela — bem como a atmosfera tribal que o tornou possível e
encorajou.



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