Alberto Gonçalves - OBSERVADOR
Mal sumam os penduricalhos do sr.
Berardo, Portugal entra nos eixos. Se os portugueses acreditarem nisto,
acreditam em tudo. Como acreditam em tudo, e não ligam a nada, é deles que o
sr. Berardo se ri.
Não é apenas o sr. Berardo que deve rir:
é universalmente engraçado que, após o roubo de um banco, o cidadão médio
reclame em exclusivo a punição do moço que segura o papel a dizer “Isto é um
assalto”, e ignore por completo os comparsas armados que o rodeiam, os
capatazes no carro e os cabecilhas na cave. E é engraçadíssimo que a comparação
não seja alegórica, e sim um quase literal. Entre várias distracções pícaras,
como a destruição da PT, o BCP acabou realmente assaltado, por obra, graça
(imensa graça) e no mínimo complacência dos exactos indivíduos que, desde há
dias, se fingiram chocados com o desplante do sr. Berardo.
Chocante – ou não, que uma pessoa
habitua-se – é a aparente incapacidade dos portugueses em ligar as proezas do
sr. Berardo às criaturas que os permitiram, instigaram ou, ó Virgem Santíssima,
lucraram com eles. O dr. Costa, que integrou com prestigiante destaque os
governos que inventaram o sr. Berardo, dá-se ao luxo de falar em desplante. O
prof. Marcelo, que designou o sr. Berardo “empresário do ano” em 2007 (pela sua
imorredoura acção no BCP), dá-se ao luxo de pedir decoro ao madeirense. E
sumidades sortidas, que nunca (elas fiquem ceguinhas) se roçaram neste caldo de
compadrios e franco rapinanço, dão-se ao luxo de proferir sortidas maravilhas
acerca da pouca-vergonha que por aí vai.
Perante a enésima revelação de tão
virtuosa rede de corrupção, o que faz a plebe? Resmunga umas imprecações
alusivas ao sr. Berardo e jura não voltar a consumir certo vinho que, pelos
vistos, o homem produz. Nação valente, de facto. E um nadinha retardada. José
Manuel Fernandes chamou à apatia “indiferença cívica” e primou pela suavidade.
Metade daquilo que os portugueses toleram, engolem e quiçá aplaudem não caberia
na cabeça de um habitante normal de uma sociedade normal, alargando o conceito
ao Chipre e ao Butão. Em lugares civilizados, burlões e comparsas de semelhante
calibre estariam na cadeia ou a caminho da dita, felizes por escapar à turba de
justiceiros com archotes. Por cá, mantêm intactos o poder, a influência e a
convicção de que, logo que concedam o ocasional bode expiatório, não haverá
quem os belisque. A convicção é fundamentada.
Do povo às “elites” (desculpem), cada
elemento da presente história expõe o desconchavo pátrio, que se não fosse
triste nos inspiraria a vencer o sr. Berardo num campeonato de gargalhadas. Há
o pormenor de, na comissão de inquérito, o sr. Berardo ter sido interrogado
pela filha, e confessa admiradora, de um assaltante de bancos reformado. Há o
génio económico dos comunistas de PCP e BE, que recomendam a nacionalização total
da banca para evitar as chatices provocadas pela nacionalização parcial da
banca. Há a reacção peculiar do PSD, que atendeu à cartilha e se concentrou nos
ataques ao sr. Berardo sem tirar uma ilaçãozinha do que o sr. Berardo
significa. E há, principalmente, a condução discreta da história para a
essencial temática das comendas.
No espaço que uma televisão lhe concede,
o advogado barra empresário barra comentador barra fervoroso apoiante do “eng.”
Sócrates e do dr. Costa, José Miguel Júdice, ameaçou devolver uma comenda se
não retirassem ao sr. Berardo a dele. Num ápice, meio mundo começou a discutir
a remoção da comenda, ou comendas, de modo a transformar estas no único ponto
de interesse do caso. O caso, que envolve esquemas de trafulhice dignos de orgulhar
o sr. Lula, reduziu-se repentinamente a uma polémica alusiva às condecorações
que o Estado espalha pelos ilustres. Não importa que os ilustres em questão, de
“revolucionários” a rematados patetas, incluam uma quantidade de gente sem
serventia palpável. Nem importa que, por definição, o regime que entrega os
penduricalhos se confunda frequentemente com os respectivos destinatários.
Importa é lançar a ideia de que, mal sumam os penduricalhos do sr. Berardo,
Portugal entra nos eixos. Claro que se os portugueses acreditarem nisto,
acreditam em tudo. Acontece que os portugueses acreditam em tudo – e não ligam
a nada. É deles que o sr. Berardo se ri. Com razão.


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