| António Magalhães |
A luz que do sol se irradia espalha-se sobre a
terra num longo e ternurento beijo, mãe que com este gesto assim acariciasse e
aconchegasse seu filho. E essa luz brilha mais, e mais intensamente, mas não
ofusca, apenas num sublime gesto de ternura que nos enche a alma, se mistura
num bem-estar interior que é vida.
A relva estende-se fresca e
verdejante sobre os campos, como que decorada por um manto de gotas de orvalho
onde a luz do sol que nele incide, a dardejar os seus raios luminosos num céu
aberto e às claras, ilumina toda a terra.
De um mundo que não pertence em
exclusivo a mais ninguém a não ser todo o ser vivo ou simplesmente estático,
debaixo de um mesmo sol e uma mesma lua, onde pela natureza das coisas e o seu
propósito, nada se altera que não seja a própria natureza a fazê-lo.
Não há registo de uma única guerra,
por pequena que seja, desde que os homens finalmente perceberam que se
transforma Deus num assassino quando em seu nome se mata ou se cometem as mais
vis e cruéis atrocidades.
Percebeu-se finalmente que
independentemente da raça de cada um, da sua religião, ou falta dela, das
diferenças de opinião, da orientação sexual, ou dos gostos pessoais, é mais o
que nos une do que o que nos separa.
Aos mais fracos e vulneráveis
pegasse-lhes pela mão deixando por esse nobre gesto, num simples momento de
compaixão e senso de igualdade, fluir uma pouco das forças que aos fortes
sobejam e a estes dá alento.
Faz-se luz no mundo de cada vez que
uma mãe protagoniza o milagre da vida, e o fruto desse milagre é acarinhado,
bem tratado e cuidado para que cresça feliz e próspero. Esse milagre da vida é
a outra ponta do amor e o respeito entre dois seres da mesma espécie, como uma
continuação de um sentimento que nasceu entre esses seres e que se estende por
cada vez que o milagre se faz luz.
E impensável seria que qualquer
criança à face da terra fosse vítima de abusos sexuais e psicológicos por parte
daqueles a quem ela não esperava nada mais do que proteção, respeito, carinho e
acima de tudo orientação para a vida.
Não se sabe o significado de
violência doméstica porque ela também não existe. Marido e mulher, companheiro
e companheira, respeitam-se e amam-se pelo que de bom e menos bom um e outro
têm.
Num planeta que é de todos, precavemo-nos
dos animais selvagens, mas deixamo-los viver nos seus habitats naturais porque
a isso têm direito e deixamo-los livres porque livres nasceram.
Aos animais domésticos cuidamos
deles, protegemo-los e respeitamo-los e apreciamos o seu amor e fidelidade para
connosco.
É assim, aqui sentado nesta pedra bem
no cimo da montanha, que eu vejo este mundo onde vivo. Em frente a mim uma
linha do horizonte que perco de vista para lá do que os meus olhos são capazes
de alcançar. Por baixo dos meus pés estende-se uma espécie de lençol que a
ponta dos pinheiros seguidos uns aos outros conseguem formar, e entre os
espaços, pequenos apesar de tudo, que entre eles existe, há vegetação que forma
uma espécie de planta que decora a montanha.
Mas…de repente, as nuvens começam a
enrolar-se sobre si mesmas como novelos de lã a crescer, a ganhar volume, e aos
poucos a transformarem-se num cinzento que cada vez se vai tornando mais
escuro, sinistro, medonho.
O céu pôs o seu ar mais atemorizador
e a rebentar entre frinchas desse novelo escuro que cobriu o céu e escureceu a
terra, surgem relâmpagos empurrados pela trovoada. Começam a surgir as
primeiras gotas de chuva que como teclas de um piano vão batendo aqui e ali ao
som da melodia. No silêncio que surge entre o momento em que a trovoada ganha
fôlego para voltar a rebentar, ouço um sussurro no meu ouvido como se uma brisa
suave e sútil se tivesse transformado em palavras. “Acorda, é apenas um sonho…”
E eu acordo…só para descobrir então
que tudo não passou de um sonho, e que as gotas da chuva que como teclas de um
piano iam batendo aqui e ali ao som da melodia, eram apenas as minhas lágrimas
a acompanhar os meus gemidos, por constatar a não existência de um mundo que só
é possível se for sonhado.

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