domingo, 19 de maio de 2019

A “Ronda” de memórias na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro - LISBOA


Modesto Navarro (autor), Hirondino Isaías (Presidente da Direcção da CTMAD), Armando Palavras (apresentou o volume) e Rui Mota (editor "página a página")


Na passada Quinta-feira, dia 16 de Maio, decorreu na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa, mais um evento cultural: a apresentação pública do livro de poesia do escritor transmontano (natural de Vila Flor) Modesto Navarro.
Como é normal nestes eventos, a agremiação transmontana sediada em Lisboa, ofereceu aos presentes um douro de honra.
Estiveram presentes alguns escritores transmontanos.
Segue resenha aí lida e comentada:




A “Ronda” de memórias

Estruturalmente, o volume encontra-se dividido em quatro grupos de poemas. Um dedicado a Lisboa, outro aos Transmontanos, seguindo-se um dedicado à Reforma Agrária e, finalmente, o último trata da prisão de Caxias.
Contudo, os temas cruzam-se. A abrir, o autor recorda o 1º dia da Revolução de Abril de 1974, seguindo-se um conjunto de poemas caracterizados por conceitos (e sentimentos), como a liberdade, injustiça e opressão fascista.
Caracteriza o campesino, alerta para a angústia das condições de vida, movidas por patrões exploradores, rememora o Ultramar e os imigrantes, gente oriunda da Antiga África Portuguesa, em especial os cabo-verdianos. Traz-nos aos ouvidos os sons barulhentos da cidade.
Estão aqui presentes, as questões ideológicas do autor, mas também as humanas, ao considerar um amigo “carne que não apodrece”.
A cidade em si, descreve-a em pequenos pormenores: os homens cansados apanhando o eléctrico (59); o motorista lambe-botas (54), o restaurante onde comeu um bom bife, vislumbrando à distância David Mourão Ferreira (60); os subúrbios e as barracas (66). Sempre com sentido de crítica social; pronto na denúncia, apontando a miséria social e alguma “escória” humana.
Uma pausa e surgem os Transmontanos. A mesma temática com nuances próprias da região. O rumo é traçado: o sonho, a revolta, a luta por uma vida melhor. Um testemunho solidário, pela igualdade e pela mudança. O poeta descreve a sua descida para Lisboa, como um emigrante, e passa à descrição da sua terra, Vila Flor, e das suas gentes. Uns versos dedicados à praça (“Na feira dos quinze veio muita gente à vila”), aos afazeres do quotidiano (“As carnes/ verdes/ suspensas dos ganchos…”) onde está a sempre presente matança do porco, e a denúncia: “… as nossas barrigas estavam cheias de fome…”. Um hino a Vila Flor, seu termo, e aos seus lavradores e operários.

Este volume de Modesto Navarro, enquadra-se no movimento literário surgido em Portugal nos anos 30 do século XX – o Neorrealismo. Inspirado na literatura norte-americana (John Steinbeck - “As vinhas da ira”) de preocupações sociais e no romance regionalista brasileiro (Guimarães Rosa – “Veredas, Sertões”, ou Euclides da Cunha – “Sertão”, a revolta de Canudos). Comprometido com os princípios do realismo socialista cuja temática se centrava nas condições de vida do campesinato. Um movimento inspirado pelas teorias marxistas do materialismo histórico e dialéctico. Dava ênfase à mensagem simples e directa comunicada pela obra de arte (quer fosse literária, artística ou outra). Abordada de modos distintos por alguns dos intelectuais então intervenientes, como Mário Dionísio (mais moderado, defensor de uma “osmose” entre “forma” e “conteúdo”) ou Rodrigo Soares e Álvaro Cunhal (defensores de um maior protagonismo do conteúdo no resultado criativo).
Filho do Professor Adriano Moreira aguarda autógrafo.
Escritores como Alves Redol (Gaibéus), Soeiro P. Gomes (Esteiros), Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, João José Cochofel, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Armindo Rodrigues, Faure da Rosa, Mário Braga, Antunes da Silva ou Vergílio Ferreira (Vagão J.) [1], procuraram com as suas obras traduzir uma mensagem de liberdade e solidariedade social, esperançados num despertar de consciências que conduzisse à transformação política de um país que caminhava para a mais longa ditadura europeia.
Ora no volume que agora se apresenta, os últimos dois conjuntos de poemas, assim como os dois primeiros, tratam disso – A Reforma Agrária e A Prisão de Caxias, este em prosa poética.
Armando Palavras
*Resenha lida e comentada no dia 16 de Maio de XIX, na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa.



[1]E artistas plásticos como Júlio Pomar, Manuel Filipe, M. Ribeiro de Pavia, Lima de Freitas, Cipriano Dourado, Vespeira, Rogério Ribeiro, Querubim Lapa, Alice Jorge ou José Dias Coelho.

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