domingo, 12 de agosto de 2018

Quando as escolas são territórios para o assédio moral

O editorial de hoje do jornal Público, zurzido pelo seu director, Manuel Carvalho, um transmontano de Alijó, demonstra a realidade do ensino público da aldeia lusa. Assenta no estudo do Académico de Évora. Mas toda a gente sabia disto, desde 2005. Contudo, como é costume, os do costume enfiaram a cabeça na areia, como a avestruz, durante todos estes anos! O Doutor António Portelada apenas levanta o pó (o que já é bom num país ao nivel do Burkina Faso), mas a questão é muito mais grave. Será que Portugal já não tem gente decente em barda?


MANUEL CARVALHO
Jornal Público

Um em cada quatro docentes diz ter sido vítima de agressões morais. Não, desta vez não está em causa um estudo sindical — o que obriga a olhar o problema com outros olhos.

A garantia de boas condições para o exercício da docência não é um assunto que diz apenas respeito aos professores, aos seus sindicatos ou ao Ministério da Educação. O seu desempenho individual e colectivo é um assunto que tem de preocupar toda a comunidade. Por isso, é impossível não ler as conclusões do estudo académico de António Portelada, da Universidade de Évora, que o PÚBLICO hoje revela, e encolher os ombros como se o que estivesse em causa fosse apenas mais um desconforto de uma profissão cada vez mais exigente, hierarquizada e engolida pela burocracia.
Ao revelar que um em cada quatro professores de uma amostra razoavelmente expressiva foi vítima de assédio moral, o estudo atesta um pano de fundo propiciador para a desmotivação ou a negligência. Não se pode acreditar que um professor (ou qualquer profissional) vítima de assédio moral por parte da instância que dirige a escola, dos seus pares ou dos alunos e encarregados de educação reúna as melhores condições para dar à escola o que pode e deve dar. E não, desta vez não está em causa um retrato promovido pela Fenprof e realizado por uma académica conhecida pelo pendor ideológico das suas intervenções – o que, se serviu para alimentar suspeitas, não basta para minar os méritos científicos.
O Estado tem por isso o dever de considerar que há um problema e agir. Na relação com os alunos e os pais, a autoridade dos docentes tem de ser reforçada, seja pela produção de nova legislação ou pelo agravamento das penas já previstas na lei para os agressores. Mais difícil, porém, será resolver o problema dos abusos atribuídos aos directores das escolas. Porque o que aqui se reflecte é aquele mundo ínvio de pequenos poderes, do sectarismo tribal muitas vezes contaminado pela política local, que tende a considerar a escola como um feudo sujeito ao autoritarismo e à prepotência. É, por isso, uma questão cultural que é urgente combater.
Os desafios são imensos. E difíceis. Mas depois de anos de queixas avulsas, este estudo faz prova de uma realidade inaceitável. Se queremos boas escolas, não podemos deixar que os protagonistas dessa condição, os professores, continuem a viver com estes constrangimentos.

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