sexta-feira, 8 de junho de 2018

PÁSCOA – A CELEBRAÇÃO



Joaquim do Nascimento colaborou na Antologia de Autores Transmontanos, Durienses e da Beira Transmontana, editada pela Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro, lançada a público no passado dia 25, por altura da abertura do IV Congresso de Trás-os-Montes e Alto Douro, no Pavilhão do Conhecimento, no Parque das Nações em Lisboa. Enviou-nos este belo texto onde relembra a Páscoa da sua Aldeia (Pereiros - São João da Pesqueira). Aqui vai.



PÁSCOA – A CELEBRAÇÃO

JOAQUIM do NASCIMENTO
Quis falar-vos do forno comunitário da minha Aldeia e do cheiro bom que saia dele por esta altura da Pascoa dos mimos que ali estavam a fazer-se, quis mas desconsegui porque começo a não ter dúvidas que fico a falar sozinho quando falo da minha exígua Aldeia, mais me vale por isso falar com os meus botões que são, ao fim e ao cabo, a minha consciência, o meu sentir, a minha saudade, o meu eu interior, até lhe podes chamar alma, se te der jeito trazê-la a esta conversa, se quiseres trazer traz, porque é a parte mais animada de mim.
Na Páscoa cozíamos o pão e devia ser no sábado para ainda estar estaladiço, fazíamos biscoitos que é um bolo doce que se amassa com ovos, azeite e leite, um cálice de aguardente e dez tostões de bicarbonato que lhe serve de fermento, estava-me a faltar a farinha, não é preciso esperar que a massa levede. Porque o bicarbonato faz isso durante a cozedura e, quando saem do forno saem com a forma de um seio cheio, redondinho, alevantado, aureolado que se deixa fechar inteiro numa única mão.
Estes eram os mimos da nossa Páscoa que deviam ser compostos com uma perna de carneiro velho ou de ovelha redundante, os nosso mimos eram poucos e sem grande imaginação, mimos de forno, da panela e da certã, tira açúcar põe açúcar, mais canela, menos canela, olha as filhós do Natal olha os bolos da Páscoa para o folar dos afilhados olha os biscoitos amarelinhos da dúzia de ovos que levaram, tão banais os nossos mimos sempre que queríamos celebrar, junta aí uma travessa de arroz doce com corações desenhados a canela para enfeitar, uma almofia de creme com açúcar queimado com a rapadoira de tender o pão, eram as guloseimas que conhecíamos se lhe juntarmos, do soto, os rebuçados de alteia e mel uma dúzia de confeitos coloridos, meia dúzia de bombons de chocolate, no sapatinho, mais pela prata multicolor que os envolvia do que pelo gosto que se evaporava na cova de um dente. E um pacote de bolachas Maria dos pequeninos, redondinhas, torradinhas, de comer e sonhar por mais.  
Por esta azáfama já vês o jeito que nos dava que Cristo ressuscitasse ao meio dia de sábado quando repicavam os sinos e tinha terminado a Quaresma com os santos tapados por detrás de panejamentos roxos despidos de seus ouropéis.
Da festa fazia parte uma roupa nova para a missa do Domingo que já não era do galo, nós que desconhecíamos as tendência da moda éramos pouco exigentes, umas botas de atanado natural e rasto de pneu, umas calças de cotim que ainda cheiravam a goma, uma camisola de maralha que a mãe tinha feito ao serão, era quanto podíamos ambicionar, Mas posso dizer-te que nunca houve mocidade mais elegante do que a mocidade dos Pereiros, saia e blusa para as raparigas, são cravos e flores criados na Primavera, no sonho de cada rapaz ficava por cumprir uma fato de pana e uns sapatos de calfe num dos mercados em redor, não, ainda não tinham sido inventados os kispos, nem os ténis de todas as cores.
Hoje fui comprar uns ténis novos para estrear no dia de Páscoa, se ninguém ache inconveniente que eu não calce, para ir à missa, os meus sapatos de polimento, os meus sapatinhos de ver a Deus e à nossa avó.
Para as minhas amigas e para os meus amigos que continuo a encontrar aqui, ainda muitos, apesar das baixas e da desaceleração ainda somos muitos, só não faço uma lista vossa para não correr o risco de me esquecer de alguém
Até depois da Páscoa que, na minha terra, sempre foi à segunda-feira para desmentir o rifão “temos a Páscoa ao domingo, como no ano passado”.
Salto por cima da procissão e do folar que é por este nome que nós conhecemos o compasso.
29’03.2018
© Joaquim do Nascimento 

2 comentários:

  1. Obrigado, Professor Armando Palavras pela inserção, se lhe convier eu passo a mandar-lhe mais "croniquetas" e prometo que farei uma revisão mais cuidada delas.
    Obrigado também pelas fotos que leccionou, como se vê pelas paredes estamos na zona do xisto, mas o granito já nem ´é muito longe de nós.Houve um tempo em que os Pereiros teve um blog, chamava-se Pereiros e Douro, era da Catarina, Alves do ex-marido, Fernandes de nós, mas finou-se nem sei por quê, escrevi muito, se calhar demais, para o nosso blog, que foi um factor de afirmação da nossa identidade. Renovo o meu bem-haja!

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  2. É claro que essas "croniquetas" de Pereiros (terra por onde passei há mais de uma década em trabalho Doutoral) - ou melhor dizendo, do Douro - serão bem vindas.
    Abraço fraterno.

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