sábado, 5 de maio de 2018

O silêncio dos indecentes



João Miguel Tavares – Público

A era dos cegos chegou ao fim. Sejam bem-vindos à era dos sonsos e dos enganados. Quem lutou pelo fim da primeira não pode simplesmente engolir a segunda.
Estive dez anos a aguardar por este momento, e como sempre acontece quando esperamos demasiado, não foi tão bom quanto imaginei. Mil duzentos e cinquenta e nove dias depois de José Sócrates ter sido detido no aeroporto de Lisboa (21 de Novembro de 2014); nove anos, seis meses e um dia após milhões de portugueses terem ouvido no Jornal Nacional da TVI Charles Smith afirmar que Sócrates era corrupto (27 de Março de 2009); o Partido Socialista descobriu finalmente, e em peso, que José Sócrates envergonhou o PS e desonrou a democracia.
A era dos cegos chegou ao fim. Sejam bem-vindos à era dos sonsos e dos enganados. Quem lutou pelo fim da primeira não pode simplesmente engolir a segunda. Tomemos como exemplo Augusto Santos Silva, que à SIC declarou: “Se se verificar que algum dos meus colegas de Governo, seja ele quem for, cometeu crimes no exercício [das suas funções], sentir-me-ei evidentemente enganado.” A sério? Isso daria um bom título para um livro – Os Enganados –, mas apenas se fosse ficção. Não é aceitável que Augusto Santos Silva assuma o papel de mero enganado por José Sócrates, quando ele sempre desempenhou com evidente entusiasmo e zelo o papel de guarda-costas mediático do então primeiro-ministro. A 3 de Fevereiro de 2009 (3378 dias atrás), publiquei no DN um artigo intitulado “A cabala explicada às criancinhas”, onde dizia isto: “Augusto Santos Silva e Pedro Silva Pereira não são o Bobby e o Tareco de José Sócrates. São dois ministros do Estado português. Convinha que se comportassem como tal.” Infelizmente, escolheram ser o Bobby e o Tareco.
O sucesso de Sócrates também dependeu, e muito, do trabalho dessas sinistras figuras, uma das quais é hoje ministro dos Negócios Estrangeiros, e a outra deputado do PS no Parlamento Europeu, com um programa de televisão semanal onde nunca arranjou oportunidade para explicar se é verdade, ou não, que Carlos Santos Silva também pagou casa ao seu filho em Paris e deu emprego à sua mulher. Colocar na lista dos meros “enganados” personagens deste calibre, que cresceram ao lado de Sócrates, adoptaram os seus métodos e assumiram alegremente durante anos a fio os papéis de capangas do socratismo, não é apenas fazer deles idiotas úteis – é fazer de idiotas cada um de nós.
Harry G. FrankfurtFerreira Fernandes – que, justiça lhe seja feita, nos últimos quinze dias abandonou o silêncio respeitoso e passou a falar de corrupção de forma desembaraçada – alinhavou numa das suas crónicas um argumento que é importante ser desmontado. Segundo o seu raciocínio, enquanto as acusações a Sócrates foram “anónimas ou endrominadas por fontes obscuras”, ele não se “permitiu suspeitar” do então primeiro-ministro, e muito menos “publicitar palpites”. A sua “desconfiança política” só foi publicamente verbalizada quando o próprio Sócrates assumiu “factos graves”, que exigiam “explicações políticas claras”. Ou muito me engano, ou esta tese vai ser repetida por muitos outros. A saber: hoje há boas razões para duvidar de Sócrates; em 2009 eram só palpites. 
Pessoas como eu – ou como José Manuel Fernandes, Pedro Lomba, Henrique Raposo e alguns outros – seriam, assim, uma espécie de apostadores, que num golpe de sorte fizeram bingo. Não, meus senhores. Não compro. Esta tremenda mentira não passará. Não foi preciso ser esperto, sortudo ou vidente para perceber quem José Sócrates era. Bastou ter olhos abertos e sensibilidade moral. Nunca houve um silêncio dos inocentes. Houve, apenas e só, o silêncio dos indecentes.

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