Não sei se o
sr. Costa tem azar com as limitações de quem lhe escreve os discursos, ou se
ele escolhe deliberadamente burgessos. Sei que exaltar a língua enquanto a
torturamos com zelo tem a sua piada.
Alterações
climáticas
O
aquecimento global? Faleceu. Agora o drama são as mudanças climáticas, o que
significa que graças à malévola acção do homem (o homem é o sr. Trump) a
temperatura tanto pode subir como descer. É um perigo em ambos os casos. No
primeiro, os noticiários são quase exclusivamente preenchidos com “reportagens”
imprescindíveis na praia, cada uma dedicada à opinião de dezassete banhistas
sobre a água do mar (“óptima!”), o sol (“queima!”) e o Verão em geral
(“espectacular!”). Há alertas imprescindíveis da Protecção Civil acerca dos
cuidados a ter com o calor (beber água, usar roupa fresca), revelados com a
solenidade adequada aos segredos do universo. E há fotografias imprescindíveis
dos termómetros dos automóveis, processo através do qual o cidadão comunica a
um mundo ansioso que na sua cidade estão 35º ou 38º.
No segundo
caso, actualmente em curso, os perigos não diminuem. Os “telejornais” são quase
exclusivamente preenchidos com “reportagens” imprescindíveis em praças do
interior, cada uma dedicada à opinião de dezassete transeuntes sobre a neve (“é
normal”), a roupa (“é muita”) e o Inverno em geral (“é isto”). Há alertas
imprescindíveis da Protecção Civil acerca dos cuidados a ter com o frio (não
sair à rua em pelota, não se lançar para cima de fogueiras). E há fotografias
imprescindíveis dos termómetros dos automóveis, processo através do qual etc.,
etc., etc. Nesta época, há ainda o risco adicional de vermos o prof. Marcelo a
perseguir pessoas sem casa, em princípio infelicidade bastante.
Se o homem,
leia-se o sr. Trump, não fosse egoísta e pensasse nas gerações futuras,
seríamos poupados a todas as calamidades acima descritas. A única calamidade
restante seria a falta de assunto de que o “jornalismo” pátrio passaria a
sofrer. Qualquer dia, os noticiários teriam de transmitir notícias.
Assédio
sexual
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Nas
denúncias indígenas de abuso não há produtores de cinema, realizadores de
prestígio, actores famosos ou um mero humorista digno do nome. Os vilões
referidos são fadistas, padres e, arrisco, barbeiros, beneficiários do RSI,
vereadores com pelouro e funcionários da conservatória do registo predial. O
nosso lastro histórico, por comparação à juventude dos EUA, também pesa, já
que, aparentemente, as poucas-vergonhas em causa aconteceram por volta de 1951.
E, embora tenham profissão, os pervertidos nunca têm nome (porque o país é
pequeno e toda a gente se conhece e tal). Contas feitas, o #MeToo indígena
reflecte as diferenças entre a Brandoa e Hollywood e, de serôdio, não diverte
tanto quanto o americano.
Este é uma
galhofa pegada, principalmente desde que Cristina Garcia, activista
californiana incluída no artigo da “pessoa do ano” da “Time” (“As que quebraram
o silêncio”), é acusada de apalpões e propostas indiscretas pelo assessor de um
deputado (democrata, valha-nos Deus). Outro sujeito, um lobista do mesmo
estado, garante que a senhora tentou tocar-lhe nas partes baixas. É possível
que as delações sejam falsas, é possível que sejam verdadeiras, é provável que
sejam irrelevantes – aliás, à semelhança de muitas daquelas que celebrizaram o
#MeToo. Descontadas a violência e a opressão autênticas, que a histeria em voga
só desvaloriza, sobram a vida e os gestos ridículos com que as pessoas
frequentemente a levam. As pessoas do ano e as de todos os anos.
Identidade
nacional
Portugal não
se distingue pelos humoristas profissionais. Em compensação, fervilha de humoristas
amadores. Há os jurados do prémio Camões, que o atribuíram a Manuel Alegre. Há
Manuel Alegre, que aceitou o dito. E há António Costa, que foi à cerimónia de
entrega dissertar sobre a língua portuguesa. Os jurados não sei quem são. O sr.
Alegre é conhecido pelos textos de promoção ao futebolista Figo e ao BPP. E,
como se dizia nos programas de variedades, o sr. Costa dispensa apresentações.
O que a alta
comédia não dispensa é a parlapatice com que o sr. Costa abrilhantou o
“evento”: “Cada língua representa um mundo e uma visão do mundo, é uma
singularidade e uma pluralidade, é uma fixação e um movimento, é um passado, um
presente e um futuro, é uma oportunidade e uma afirmação…” Quem fala assim não
é gago. Nem, infelizmente, mudo. E quem fala assado? “Quero, neste momento,
reafirmar o compromisso do Governo com a língua portuguesa, com os seus valores
e as suas valências, da mais simbólica e poética à mais prática e
instrumental”. Nem as “valências” faltaram (ainda que as sevilhas primassem
pela ausência).
Não sei se o
sr. Costa, já de si um portento “inchticional”, tem azar com as limitações de
quem lhe escreve os discursos, ou se ele escolhe deliberadamente burgessos. Sei
que exaltar a língua enquanto a torturamos com zelo tem a sua piada. E terá as
suas consequências.
Bola
O presidente
do Sporting, que não parece regular bem, comete uns desabafos sobre os “três
olhos” ou a “mulher, gira ainda por cima” e os “media” precipitam-se a beber
cada sílaba. O presidente do Benfica, que parece um portento de criatura,
embrulha-se em incontáveis trapalhadas judiciais e, salvo excepções, os “media”
nem tocam no assunto. Por uma vez, permito-me parafrasear o comentador
especializado Rui Santos e perguntar, trémulo de aflição, para onde caminha o
nosso futebol.



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