sábado, 17 de fevereiro de 2018

Os novos censores andam aí (6)

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por Pedro Correia - Delito de Opinião

O abominável Mein Kampf poisa aí por todas as livrarias, com várias chancelas editoriais, ao alcance das mentes mais frágeis ou perturbadas: até uma criança pode adquirir um exemplar (ou dois ou mais). E tornou-se até um best seller na própria Alemanha, com 85 mil exemplares vendidos em 2016.
As torrentes de ódio vertidas pela pena do "cabo Hitler", como lhe chamava Churchill, deixam hoje aparentemente indiferentes os plantões de turno. Já a baba anti-semita escorrida por  Louis-Ferdinand Céline - admirável escritor com indefensáveis ideias políticas - continuam remetidas para o limbo da clandestinidade. Num tempo em que tudo se publica, do excelso ao péssimo, o autor de Viagem ao Fim da Noite mantém obras interditas: a editora Gallimard desistiu de lançar a edição crítica, anotada e profundamente contextualizada que planeara de três panfletos, escritos entre 1937 e 1941, e que permanecem por reeditar desde a II Guerra Mundial: Bagatelas por um MassacreEscola de CadáveresOs Maus Lençóis.
O reaparecimento destes títulos reunidos sob a designação Escritos Polémicos seria "uma agressão aos judeus de França", bradou Serge Klarsfeld, presidente da associação gaulesa de filhos e filhas de judeus deportados. Uma voz estridente entre tantas outras, somadas às pressões políticas e mediáticas, que forçaram a bater em retirada o poderoso grupo editorial, que tem no seu catálogo 36 escritores galardoados com o Prémio Goncourt, dez com o Pulitzer e 38 com o Nobel da Literatura.
"Suspendo este projecto por entender que não estão reunidas as condições metodológicas e memoriais para encará-lo com serenidade", anunciou no mês passado Antoine Gallimard em comunicado à agência France Presse. Céline, falecido em 1961, continua a ser censurado. Enquanto Hitler renasce como "besta célere" nestes dias incongruentes em que a liberdade é um bem escasso, sujeito a critérios selectivos e arbitrários.

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