terça-feira, 11 de julho de 2017

NOVAMENTE NO OESTE DO CANADÁ


JORGE LAGE
A segunda estadia no Canadá teve como móbil dar apoio ao meu filho e neta, devido à minha nora ter ido fazer um estágio num hospital de Toronto. Toronto é a cidade onde melhor se come, devido aos vários restaurantes geridos por portugueses, como o «Lisboa à Noite».
Em Edmonton, no que respeita a comida, os restaurantes portugueses são fracos. Os cafés e padarias são bons. Mas, nestes custa a perceber qual o motivo por que alguns não recrutam trabalhadores portugueses, havendo uma comunidade lusa de mais de cerca de 10.000 almas? Na Ferry Street (ou Av.ª de Portugal), em Newark, em New Jersey, colada a New York, entra-se numa pastelaria e tem-se a sensação de que estamos em Portugal. Nos cafés/padarias de Edmonton ser atendido por uma asiática, apesar do seu sorriso amarelado e colado, gera algum desconforto. Parece que a riqueza não sacia quem factura bem.
Certo é que se pode aqui comer um razoável pastel de nata, um bom rissol ou um bolo de bacalhau, bem como comprar alguns produtos portugueses, vinho, azeite (já que o italiano e o a americano que provei e observei, comparados com os nossos, são um arremedo). Dos melhores rissóis, folares doces e de carne que comi são feitos por mãos de Sonim – Valpaços e de Viana do Castelo.
Na Páscoa só estranhei a terra, o clima e a gente porque o folar, o folar doce e o cordeiro comeram-se como em Mirandela ou Valpaços. Bom cordeiro de quinta, da província de Alberta, o melhor de todo o Canadá e adquirido no «Mercado de Sábado», dos produtos locais. O cordeiro que chega congelado da Nova Zelândia é fraco e sem paladar.
Em Edmonton, quem quiser deliciar-se com bons petiscos portugueses adquiri-os em casas particulares das nossas compatriotas trasmontanas e minhotas que são muito trabalhadoras e hábeis na cozinha. Aproveitam sempre para ganhar mais uns dólares. Nestas longínquas paragens, até as boas alheiras são as mãos mágicas de uma família numerosa de Sonim, aqui emigrada, que as confecionam com orgulho.
As melhores pizas, como não será fácil encontrar em Portugal, comem-se na «italiana» «Buco Pizzeria, 10665, 109 Street». O preço é convidativo, sendo uma agradável surpresa. Já em Jasper foi o local em que me senti mais roubado à mesa num restaurante gerido por inábeis indianos, sendo a comida intragável. Mas os canadianos, em geral, comem qualquer comida que se lhe ponha à frente. Acho que um grupo significativo deles vive para comer e, depois, aparecem muitos obesos.
Aqui no Canadá tudo se paga, mesmo qualquer papel solicitado pelo governo. Tirar as impressões digitais, as fotos, uma candidatura a cidadão, sem contar com as várias etapas preliminares. Por exemplo, apresentar-se na imigração para prestar prova de conhecimentos (se não souber o mínimo reprova), são 600 dólares (um casal paga 1.200) e ninguém protesta porque as leis e directivas são para cumprir. Se um interno de medicina ou na especialidade quiser prestar provas custa-lhe entre 2.000 a 4.000 dólares. Em Portugal ouve-se protestar por uma magra propina, esquecendo-se essa gente que os restantes cidadãos não têm que pagar os estudos deste ou daquele, porque se um governante diz que vai pagar isto ou aquilo, está a mentir. Quem paga somos sempre nós, os contribuintes. A minha nora no início do estágio, entre as várias provas (de fogo) a que foi submetida, teve de em oito dias fazer quatro urgências de 27 horas cada uma. Isto se fosse em Portugal ninguém se calava, a começar pela Ordem dos Médicos. Uma carta anual para visitar os Parques Naturais custa a qualquer cidadão, por ano, um pouco mais de 100 dólares. Se não tiver a carta e permanecer na área do Parque algum tempo custa-lhe 18 dólares por dia, independentemente de fazer alguma visita ou não. Imagine-se que aqui cobravam 50 euros por se querer visitar um Parque Natural?...
O meu filho programou uma viagem maravilhosa às deslumbrantes Montanhas Rochosas canadianas. Lagos, floresta, picos com gumes afiados, floresta e fauna que nunca pensei ver (carneiros selvagens como nos documentários d’«O Homem e a Terra», de Félix Rodriguez de la Fuente, veados ou da família, águias, imensos gansos selvagens e os totens dos índios canadianos estão presentes em muitos locais).
A nossa viagem começou por Jasper e redondezas. Ficámos três dias alojados num resort, da cadeia Fairmount, com vista deslumbrante para um grande lago e para as jovens e altaneiras montanhas. Os esquilos e os gansos selvagens rendilhavam os pinheiros e o vidrado do lago gelado. Junto ao grande lago Maligne senti-me inseguro porque os ursos podiam estar por perto. As localidades da área dos Parques Naturais vivem muito do comércio, dos desportos de Inverno, das montanhas e das caminhadas a pé ou de bicicleta. Foi nesta área que vi pela primeira vez gelo e neve azuis, vindos dos glaciares, bem como água azul e esverdeada dos lagos. Em Jasper, ainda deu para ver um Centro de Alto Rendimento de Desportos de Inverno e umas impressionantes quedas de água.
Deixado Jasper para trás, rumámos a Banff pela cénica «Estrada de Montanha 93», em que apetecia deslizar no tempo imóvel, tal era o deslumbramento e quando pensava que iam acabar as montanhas, apareciam outras e mais outras, para nos prestarem guarda de honra e nos saudarem pela visita. Ficou-me gravada na alma a neve dourada e sorridente das «montanhas três irmãs», que podiam ser sete ou setenta. Quando apareceram mais umas quedas de água, «Attabasca Falls», foi obrigatória uma das várias pausas. Aqui e em muitos locais vale o ditado popular luso «água mole em pedra dura tanto bate até que fura.» E furou bem para baixo, tal é a pressão de uma garganta profunda e apertadíssima. Ainda deu para visitar o grande Lago Louise que tem acoplado o luxuoso «Chateau Hotel», da cadeia Fairmount, e aí retemperar forças e aconchegar o estômago, gozando um cenário digno dos deuses do Olimpo. Mas não nos aventurámos a percorrer um grande glaciar que o aquecimento global vai devorando, porque «o seguro morreu de velho» e tudo o que tinha algum risco era para saborear com a vista e não com os pés ou com o tacto.
Assim, nunca me aventurei em cima de um lago gelado, nem encosta acima a desafiar a neve adormecida. E se ela acordasse, até eu podia ficar no seu albo e gélido seio dormindo o sono dos justos ou, nestes casos, dos atrevidos e temerários.
A viagem entre Jasper e Banff em que a cota dos afiados cumes das montanhas, na sua maioria, rondava entre os 2.500 e os 4.000 metros a rasgarem o céu, e a água dos rios e ribeiros (Creeks) era de um límpido celestial. Deixámos Banff em paz e alojámo-nos a um tiro de espingarda, em Cannemore, num enorme apartamento de luxo. Em Banff a alimentação era sofrível, o que já não é mau.
Ainda deu para visitarmos Calgary cidade das empresas petrolíferas e algumas transformadoras, que pelos arranha-céus parecia estar-se na Dallas do tal filme da série que foi exibida na RTP entre 1979 e 1983. Deu para ver o que resta das pistas de gelo dos Jogos Olímpicos de Inverno. Ainda houve tempo para visitar de fugida a cidadezinha de Crochane, toda ela airosa e acolhedora, famosa pela plataforma de informática a nível mundial. No regresso a Edmonton parámos em Red Dear que me surpreendeu pelo buliço comercial e social.
Os dias em Edmonton foram pacatos, com alguns passeios a pé e muitas idas, de carro, aos belíssimos Parques urbanos para esticar a vista e amimar as pernas e a alma. Claro que tinha que observar as árvores onde predominam os pinheiros autóctones, os choupos e os freixos.
A cidade é pacata, mas nos dias em que jogava a equipa local, os Oilers (quer dizer, Petroleiros - Alberta é a província canadiana do Petróleo), era um frenesim de carros a cruzarem as avenidas com bandeiras do clube nas janelas e gente pelos passeios com as camisolas dos oilers. Pavilhão imenso sempre cheio com bilhetes de 200 a 500 dólares, sempre esgotado. Uma loucura, justificável porque há onze anos, que não se apuravam para os «Playoffs». Passaram a primeira eliminatória e na segunda perderam para uma poderosa equipa americana. A loucura e euforia contagiaram-me e vi-me a torcer pelos Oilers. O mais curioso foi ver carros, camiões, casas comerciais, aeroporto e autocarros engalanados com bandeiras e autocolantes dos Oilers. Os autocarros de transportes urbanos tinham em intermitência a indicação do destino e a seguir a frase: «go Oilers go» (ou: «Vamos Oilers, vamos»!). Alguns monumentos cobriam-se com a camisola dos Oilers. Os Oilers estiveram a um passo (deixaram virar o resultado a 18 segundos do apito final) da final da «Conferência do Hokey sobre o Gelo do Oeste» (USA e Canadá), comparável aos Campeões Europeus de Futebol.
Fiquei impressionado como os nossos imigrantes aqui constroem grandes casas. Os remediados optam por construir a sua vivenda de rés-do-chão e cave. Mas os mais abastados não se ficam pela necessidade e passam à ostentação com casas imponentes, tal como os canadianos. Tal como cá, quem tem uma casa grande julga-se importante. Projectam o seu sucesso nas casas ou moradias com terreno em volta e nos carros de marca. Podem só ter um filho ou dois, mas a casa tem de ser exageradamente grande. Algumas das mulheres dos imigrantes, fazem fortuna de mulheres-a-dias. Só uma falta de sentido prático da vida os leva a fazer autênticas loucuras. Passam uma vida apertadíssima e dura para depois esbanjarem em casas que pouco aproveitam e que são mais uma ilusão. Quando menos contam partem ou decidem voltar ao torrão que os viu nascer e vendem a casa pelo que der. Curioso é verificar que emigrantes que juntaram fortuna continuam a fazer uma vida apertada e poupada, comprando o que é mais barato. Por outro lado, há uma grande solidariedade e entreajuda entre eles. É como as vessadas e as torna-jeiras que se praticava nas nossas aldeias há 50 ou 60 anos atrás. Não há nada que pague os bons laços que tece a nossa comunidade em Edmonton! Quando me lembro do que os novos amigos do meu filho têm feito por ele, sinto humedecer-me a alma! A nova emigração em que se inclui o meu filho e a minha nora (economista e médica) tem uma perspectiva de vida diferente. Por exemplo, o meu filho só compra produtos orgânicos ou biológicos, desde o leite aos legumes, frutas e carne. Embora os produtos orgânicos e biológicos sejam muito mais caros que os outros, porque «investir» neste tipo de alimentação é sinónimo de melhor saúde e isso não há dinheiro que a pague. Fica assim satisfeito o desejo de amigos que me pediram para que «falasse» do Canadá. Mas, Portugal é Portugal!... (Fotos de Tiago Lage: carneiros selvagens, Montanhas Rochosas e emblema dos Oilers)

Jorge Lage – jorgelage@portugalmail.com – 10MAI2017

Provérbios ou ditos:

      Quem emprenha no bilhó faz a segada ele só.
      Pelo S. João, figo na mão.
      Água e lenha cada dia venha.

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