quarta-feira, 31 de maio de 2017

Vinte dias na Rússia


Z. Consiglieri Pedrozo, Ex. Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, ilustre intelectual republicano, culto, pela curiosidade decidiu visitar a Rússia do último Czar em 1856. Dessa visita surgiu este volume: "Vinte Dias na Rússia", onde faz um relato do quotidiano da paisagem, do património, da arte; e compara a balalaika à guitarra portuguesa. Para isso teve de aprender russo.
O prefácio do historiador e jornalista José Milhazes enriquece a perspectiva histórica da obra, integrada na Colecção Viagens & Literatura da Feitoria dos Livros.
Contudo, convém estarmos atentos a certos pormenores. A dado passo, por exemplo, o autor diz-nos, pela boca de um grande negociante de Moscovo: “possuindo a terra mais rica do mundo, os russos deixam-se explorar pelos estrangeiros” (p. 95).
Na verdade, a Rússia nunca tinha sido pobre. No inicio do século XX  era o maior exportador mundial de cereais e a quinta maior potência industrial. E o país com maior dimensão populacional. Mas em quase todos os outros padrões surgia em último. Em 1913 tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa (exceptuando o império Otomano), e a esperança de vida (30 anos) colocava-a século e meio atrás da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América. Mais, um terço do território definha sob o peso do gelo. Tchékhov di-lo sarcasticamente na sua peça “O Cerejal”. Por outro lado, os rios correm na direcção oposta das terras férteis da Ásia central. Só apenas três quartos da população ( e da indústria) acedem a um sexto da água dessa extensão territorial. Além do mais existe escassez de terras. Num império que tem maior superfície que a Lua visível, os solos férteis são insuficientes para alimentar a sua população, que depende de uma estreita cintura de fértil terra negra que inicia no Danúbio, passa a nordeste da Ucrânia, a norte do Mar Negro, chegando a Akmolinsk, a leste.
Resta dizer que o trigo é da Ucrânia.
De resto, o livro foi escrito em determinada época e lê-se muito bem. Aconselha-se a sua leitura, porque tem informação interessante e, de certa forma actual, incluindo sobre a sua literatura. E o texto é ilustrado com belas imagens.
Actualizado a 2 de Maio

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