A partir de hoje iniciamos um percurso pela biografia dos autores que já confirmaram colaboração na colectânea da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa. Seguiremos a ordem alfabética.
E
apresentaremos alguns livros de sua lavra.
Aqueles
que passarmos em claro é porque não temos dados. Assim sendo, têm a
oportunidade, agora, de os enviarem.
Como
diria o nosso amigo Carlos D’Abreu: Saúde e liberdade!

Em Abril de 1970
encontramo-lo em Angola, onde é encarregado de organizar a luta antituberculosa
no distrito do Bié, lugar que desempenha até Maio de 1973, altura em que é
nomeado director do Hospital-Sanatório de Luanda. Ainda em Angola, exerce
funções de Chefe de Serviço de Combate à Tuberculose e responsável pelo Curso
de Tisiologia da Faculdade de Medicina de Luanda. Após o seu regresso a
Portugal, em Novembro de 1975, desenvolveu sempre a sua actividade clínica em
Vila Real. Foi durante a sua permanência
profissional no Caramulo que conheceu a enfermeira Dona Maria Rodrigues Santos
Mamede, natural de Santana da Serra (Ourique, Baixo Alentejo), com quem casou
em 1955 e de quem teve quatro filhos. O seu currículo médico foi sendo
sucessivamente enriquecido com novos estudos, a publicação de trabalhos sobre
pneumologia e o exercício de funções directivas, de que se destaca a direcção
do Hospital-Sanatório de Luanda e a chefia do Serviço de Combate à Tuberculose
de Angola. No âmbito da actividade clínica, no distrito de Vila Real,
desempenhou as seguintes funções (entre parênteses o ano da nomeação para o
cargo): coordenador distrital do Serviço de Luta Antituberculosa – SLAT (1976);
membro da Comissão Instaladora da Administração Distrital do Serviço de Saúde
(1977); presidente da Assembleia Distrital da Ordem dos Médicos (1978);
vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia Respiratória (1980);
presidente da Comissão Instaladora do Hospital Distrital de Vila Real e
director clínico do mesmo (1991). A
carreira de médico e todas estas ocupações paralelas absorveram-no de forma
quase total, pouca disponibilidade lhe concedendo para outras actividades.
Mesmo assim, pôde encontrar tempo para a actividade política e para a escrita.
No plano político, exerceu funções de Presidente da Assembleia Municipal de
Vila Real. No plano literário, além de colaboração episódica e dispersa em
algumas revistas, conferências e comunicações, publicou dois livros de contos,
um livro de poesia e um romance (a que prefere chamar, não sem razão, crónica
romanceada, pois o livro comunga dos dois géneros). Os livros de contos, Gente
da minha terra e Histórias selvagens, saíram em primeira edição em 1960 e 1963,
respectivamente. De ambos se fez uma 2.ª edição em 2002. O livro de poesia, intitulado
Material humano, saiu em 1997. O romance, Caramulo, em 2006. 
A grande vocação de A.
Passos Coelho é a de contista. Os seus contos – alguns de extensão considerável
– retratam com realismo o meio rural vilarealense e a fauna humana que ali vive
os seus dramas e as suas ambições. João Gaspar Simões disse numa recensão
publicada no Diário de Notícias: “Não temos dúvidas em considerar o seu livro
[Gente da minha terra] entre os melhores do género ultimamente aparecidos.” E,
sobre o mesmo livro, escreveu Amândio César: “Trata-se de um volume de estreia,
mas isso nada influi para a real categoria do escritor que aqui me aparece pela
primeira vez”, para depois lhe apontar “um estilo forte, sadio, másculo”. Sobre
Caramulo, que reúne, como apontámos acima, características de crónica e de
romance, escreve António Cabral: “É a relação com Marta e com os amigos do
Grande Sanatório que transforma sobretudo a crónica num óptimo romance; é aí
que ele começa a ganhar altura verdadeiramente literária, qualidade sem dúvida
bem suportada pelo que no longo texto é apenas crónica.” O livro Histórias selvagens serviu de
argumento para um filme de António Campos.
* * *
Cada escritor é um caso
novo. Se relativamente ao anteriormente tratado neste Ciclo, Alberto Lopes, não
descobrimos referências explícitas a Vila Real, em A. Passos Coelho elas
abundam em qualquer dos seus dois livros de contos, Gente da minha terra e
Histórias selvagens. Mais do que contista da ruralidade trasmontana, ele é um
contista da ruralidade vila-realense, que viveu de forma plena, na infância e
na juventude, em Valnogueiras, e que nos revela nos contos, uma vez por outra
com um pé na vila e o pensamento na diáspora que também foi sua e longa de 30
anos. Mas A. Passos Coelho vai surpreender-nos
muito mais, já que esta vivência rural teve sempre também os olhos postos na
vila das décadas de 1930 e 1940 – também ela com muito de rural –, que ele
retrata como ninguém foi ou será capaz de o fazer num livro ainda inédito, Eu e
a minha Vila, acabado de escrever em Outubro de 2006 e que cometemos a
inconfidência de revelar através de uma “ecografia” já muito próxima do
nascimento da “criança” (esperamos).
Aí se conta como vem à
vila pela primeira vez por volta dos seis anos de idade, atraído pela
iluminação nocturna de que via as “milhentas luzinhas” na aldeia. Descobre um
mundo fascinante: as ruas empedradas, a ponte metálica, a “casinha” onde
declarou a cesta de cerejas que trazia para a avó materna, o “escritório dos
elefantes, da cabeça de búfalo, dos flamingos e de mais bicharada africana” na
casa da mesma avó (onde a sua educação é posta verdadeiramente à prova) e o
circo, que foi sempre para as crianças uma forma de descoberta do mundo
exterior e uma prova de que é possível vencer as dificuldades que a vida
apresenta. Levantámos a ponta do véu. O
resto se verá a seu tempo.

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