quarta-feira, 1 de março de 2017

Um tempo cada vez mais novo



por Alberto Gonçalves – revista Sábado

Para fingir o contrário, Portugal muda os nomes das coisas que não importam. À Portela chamam agora Humberto Delgado. E o imaginativo prof. Marcelo propôs que o Montijo fosse baptizado em honra de Mário Soares.
É falso que o Governo esteja empenhado em arrasar a economia: o Governo empenha-se em arrasar o que pode. Só a destruição "multidisciplinar" (desculpem) da realidade permite construir o Tempo Novo e deixar o velho em cacos. Nos últimos dias, CGD à parte, deram-se pelo menos três passos heróicos rumo aos amanhãs que cantam, se não lhes falhar o pio entretanto. Ei-los.

1. Enfim a sociedade despertou para o maior flagelo que atinge as crianças do nosso tempo. Não, não é a guerra, nem a fome, nem a droga, nem sequer a popularidade do nome Santiago. A verdadeira tragédia é o peso das mochilas escolares, alvo de uma petição à AR que já vai nas 50 mil assinaturas. Por sorte, o Governo não dorme, e um "grupo de trabalho" (sic) desenhou um "perfil humanista" (sic outra vez) para os alunos. Significa isto que a Matemática e o Português serão subalternizados em favor das Ciências Sociais e de uma coisa chamada Educação Cívica.
Acho bem: se as crianças não souberem fazer contas, as previsões do ministro das Finanças sobre o futuro do País parecerão razoáveis. Se não souberem a língua, a retórica do primeiro-ministro parecerá uma. Quanto ao resto, as ciências sociais dizem respeito a qualquer pantominice que careça de estatuto científico. E a educação cívica prende-se com a doutrinação ideológica de que nenhum regime fasc..., perdão, democrático abdica. Em pormenor, o objectivo passa por estimular "o relacionamento interpessoal, a autonomia e desenvolvimento pessoal, o bem-estar e saúde, a sensibilidade técnica e artística, o saber técnico e tecnologias e ainda a consciência e domínio do corpo". O pudor – e a impossibilidade de decifrar conversa fiada – impede comentários. Mas é garantido que as crianças irão para as aulas com a mochila mais leve. E voltarão de cabeça oca.

2. A 6 de Abril de 2011, o engº Sócrates informou o País de que estávamos falidos. Uma semana depois, inaugurava-se o aeroporto de Beja. Deve ser ritual maçónico: sempre que se aproxima a bancarrota, espalha-se a "notícia" de que a Portela está "saturada" e "investem-se" milhões numa alternativa "essencial" de que nunca mais ninguém ouvirá falar.
Agora voltou a conversa da "saturação" e introduziu-se o reluzente projecto de um aeroporto no Montijo. Tradução: o PS já percebeu que o simulacro de beatitude económica não vai durar muito. A julgar pelas sondagens, os eleitores ainda não perceberam. Trata-se de um erro de percepção, no caso unilateral. E habitual: nas coisas que importam, Portugal não muda.
Para fingir o contrário, Portugal muda os nomes das coisas que não importam. À Portela chamam agora Humberto Delgado. E o imaginativo prof. Marcelo propôs que o desígnio do Montijo fosse baptizado em honra de Mário Soares. Acho bem. O primeiro começou a carreira a venerar a Alemanha nazi (em 1941, o general sem medo nem grande tino afirmava que Hitler era "uma revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar"), o segundo terminou-a a elogiar a Venezuela "bolivariana". Com exemplos assim, o que espanta não são as nossas sucessivas falências, mas a nossa milagrosa resistência. Portugal não precisa de aeroportos para ir pelos ares.

3. O juiz Rui Rangel, emérito entusiasta de José Sócrates, foi naturalmente escolhido para decidir o futuro judicial de José Sócrates.

O BOM
A anatomia da grei
No livro que, suponho, ele próprio escreveu e que o público em geral esgotou num fim-de -semana, Cavaco Silva refere a "tenebrosa máquina de propaganda do PS". É uma perspectiva exagerada: às vezes, a "máquina" diverte. É por exemplo engraçado ler o director de um diário decretar que "o povo, de uma forma geral, está farto do folhetim Centeno-Domingues". E que "a história (...) Mais trica, menos trica, está contada". Há quase 4 mil anos que os homens estudam anatomia, mas ainda nenhum conseguiu explicar como certas colunas dobram tanto e não partem.

O MAU
Os penúltimos a rir
Na Flórida, o sr. Trump berrava contra a imigração desmedida e lembrava o que acontecera na noite anterior na Suécia. Estava instalada a galhofa, mal os media, com mentirinhas pelo meio, perceberam que na noite em causa não acontecera nada na Suécia – excepto provavelmente o que, de tão rotineiro, já nem é notícia: violações, explosões, assaltos, homicídios e distracções assim, em boa parte relacionadas com os 650 mil refugiados, na maioria muçulmanos, que o país acolheu. É mais fácil rir do sr. Trump do que chorar por nós.

O VILÃO
A Europa, apesar de tudo

É fácil perceber quem, por aqui, mais deseja a vitória da sra. Le Pen e a pulverização da "Europa". Basta pensar na prepotência exibida pela esquerda no "caso" da CGD e imaginar essa cultura da impunidade em roda livre e aplicada ao que calha, sem os abençoados constrangimentos com que Bruxelas, cheiinha de defeitos, apesar de tudo modera os apetites da corte indígena. Quando os senhores locais fingem que a Alemanha nos espezinha, lamentam que não sejam eles a espezinhar à vontade. Se não se importam (importam, sim), prefiro a Alemanha.

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