domingo, 26 de fevereiro de 2017

Sem excelências e mordomias



Em 2014 uma jornalista brasileira, Claudia Walin, lançou um livro, cujo impacto foi nulo, ou praticamente nenhum. Pelo menos em Portugal. O que não é de admirar num país que no raking europeu se encontra em 5º nos países mais CORRUPTOS do velho continente, e onde a terceiro-mundista classe politica assume temas sem interesse algum para o vulgo, obstruindo realidades que exigiriam carácter, inteligência e sensatez.
A editora Geração é brasileira (o que complica tanto a leitura como a forma de adquirir o volume). Prestou um bom serviço cívico ao publicar o volume. Como em Portugal o livro nem sequer apareceu nas estantes das livrarias, quem o quiser ler pode fazê-lo AQUI. Alguém o inseriu online. Óptimo. É claro que o português é roufenho, mas vale a pena lê-lo.
Cláudia casou-se com um sueco e há dez anos que vem observando a sociedade sueca.
Anders Borg, à época ministro das finanças sueco, vivia num apartamento de 25 metros quadrados; os deputados, idem. Sem terem privilégios alguns em relação ao vulgo, como carro oficial, motorista, ou um conjunto de assessores inúteis.  Cláudia diz-nos ainda que os políticos suecos se deslocam de metro, autocarro, bicicleta ou a pé.
Sendo um dos países mais ricos do planeta, a Suécia não perdoa áquilo que em Portugal se denominaria de populismo: um politico que utilize táxi sem necessidade, ou compre “uma barra de chocolate com o cartão corporativo”, corre o risco de entrar em desgraça, fazendo manchetes jornalísticas. Ou ainda o exemplo dos deputados ou ministros que lavam e passam as suas próprias roupas. O próprio primeiro-ministro em entrevista, de aspirador em punho, limpa a própria casa, dando dicas à imprensa como fazer uma limpeza eficaz!
Os vereadores, por exemplo, não recebem salários e a maioria dos políticos recebe o vencimento idêntico ao que recebia na vida civil (aquilo que defendemos há mais de 20 anos!).
O objectivo de Cláudia é comparar esta sociedade politica exemplar com a sociedade politica corrupta brasileira. Mas a comparação deve ser feita ainda com países como Portugal (o que se tem observado com processos como o do “Marquês”, com arguidos insuspeitáveis noutros tempos, e numa sociedade saudável!).
Quem pisa o risco não se safa. Cláudia dá o exemplo de Ingmar Bergman. Ao ser suspeito de fraude fiscal foi preso no teatro onde encenava. Foi interrogado, mesmo tendo um enfarte não lhe perdoaram.
Quem não conhece a Suécia, ao ler este livro julga estar a ler um livro de ficção, mas não está. É claro que Cláudia faz alusão aos tempos remotos dos Vikings (nalgumas situações erradamente). Na Idade Média, já os Vikings funcionavam com certa democracia, quando os restantes europeus viviam sob domínio feudal. Já possuíam um sistema jurídico que lhes permitia socialmente conviverem com certa decência (com todos os defeitos que acalentava). Já possuíam o thing, assembleia na qual se reuniam os homens livres, ao ar livre, onde eram definidas as leis pelas quais o povoado se orientaria. E isso faz hoje toda a diferença.
Há cem anos a Suécia era um país pobre, hoje é o que sabemos, porque investiu essencialmente na educação. Mas não da mesma forma que o fez Portugal e outros países terceiro-mundistas. Investiu na educação com justiça (sem interesses ideológicos e de umbigo – corruptos, despreziveis), para o interesse da nação. Fortificaram as instituições, reformaram o sistema politico, apostaram na ciência, na tecnologia e em projectos nacionais (sérios) integrados.
Havia muito para comentar, mas é melhor que seja lido. Cláudia entrevista ainda, ministros, deputados, jornalistas, prefeitos, juristas e cidadãos para desvendar este universo tão distante dos brasileiros (e dos portugueses). E encontra a tríade conclusiva: transparência, alta escolaridade (séria e decente) e igualdade social (sobretudo com igualdade de oportunidades). Uma receita poderosa contra a CORRUPÇÃO!
E uma imprensa verdadeiramente livre, séria, com competências profissionais e humanas, diremos nós. E eles.   Armando Palavras

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