sábado, 25 de fevereiro de 2017

O verdadeiro problema dos portugueses


Alberto Gonçalves – revista Sábado

Se há coisa que os portugueses fazem ainda melhor do que resmungar é obedecer. Pior, fazem-no sem desconforto aparente. E depois queixam-se. E depois obedecem

O sacrifício público do dr. Centeno constituiu, como se diz no meio, um grande momento de televisão. Privado do encantador sorriso com que nos brinda há ano e meio, o homem surgiu com a descontracção de um sequestrado por terroristas. O sequestrado, admita-se, não teria fornecido explicações menos convincentes. Nos intervalos dos tremores, o dr. Centeno limitou-se a atirar novas patranhas sobre as patranhas já conhecidas. Trata-se, sem tirar nem pôr, do método adoptado pela doméstica sensata ao descobrir que o cabrito assou excessivamente: pega fogo à cozinha inteira. Sucede que, sob a evidente imolação do ministro, incêndios menores prosperavam. Uns provocados pelo dr. Costa, que abusou de um pobre diabo para tipicamente salvar a própria pele. Outros provocados pelo prof. Marcelo, que só garante a excelência do Governo enquanto a respectiva incompetência não lhe cair em cima. O que não nos falta é gente corajosa.
Curiosamente, foram esses valentes ou valentes similares que passaram a semana anterior a desvalorizar o "caso" da CGD, do dr. Domingues e das promessas ao dr. Domingues (sem prova escrita – daqui em diante, condenações exigem confissão escrita e papel timbrado). De acordo com as teses dominantes, o extraordinário espectáculo em redor da "Caixa" não passava de "tricas", o termo exacto utilizado pela dra. Ferreira Leite e por coincidência repetido num ápice pelo dr. Costa. De seguida, a dra. Ferreira Leite lançou a frase sacramental: as "tricas" desviam a atenção dos verdadeiros problemas dos portugueses.
Ficámos assim informados de que as aldrabices "institucionais" cometidas a pretexto de um banco público e ruinoso não são um dos verdadeiros problemas dos portugueses. Quais serão, pois, os verdadeiros problemas dos portugueses, tantas vezes invocados? Ninguém sabe. E se alguém sabe, não diz. O que quem manda nisto costuma inventariar é aquilo que não faz parte dos verdadeiros problemas dos portugueses: por regra, tudo o que possa beliscar a oligarquia. Por definição, a oligarquia não apenas determina o que não interessa à populaça, mas principalmente percebe o que não interessa a si mesma.
Em certo sentido, o verdadeiro problema dos portugueses é a ligeireza com que, por necessidade ou apatia, se deixam manipular por uns rústicos que as peculiares circunstâncias de um país pobre cobrem de poder, influência ou "prestígio". A impunidade concedida aos senhores que, oficial ou oficiosamente, nos tutelam não nasceu por milagre: é o resultado inevitável de uma longa história de subserviência. Se há coisa que os portugueses fazem ainda melhor do que resmungar é obedecer. Pior, fazem-no sem desconforto aparente. E depois queixam-se. E depois obedecem.

O BOM
Ryanair
Não, o Porto não é o melhor "destino" porque uns sujeitos assim decidiram em votação online. O Porto é hoje uma cidade aprazível porque os cidadãos regressaram à nobre arte do comércio. E o comércio justifica-se porque há turistas. E os turistas vêm sobretudo porque uma companhia aérea irlandesa os transporta. O único mérito dos poderes públicos foi contemplar, pasmados, a sequência de fenómenos, sem perceber, mas também, pelo menos até agora, sem estragar. A indiferença do Turismo de Portugal não é incúria: é um favor.

O MAU
Precisa-se: tradutor no parlamento
Ouvir o dr. Costa defender o ministro Centeno na AR impressionou muitos pela concentração de intrujices. A mim afligiu-me mais a acumulação de desastres lexicais, notável até pela EJJ (Escala Jorge Jesus). Certa ocasião, um jornalista hoje intelectualmente falecido explicou-me que preferia o dr. Costa a Passos Coelho porque com o primeiro poderia falar de livros. Imagino de que livros falariam: a autobiografia de Zezé Camarinha, os poemas dos Xutos reunidos, os ensaios de Raquel Varela, Anita Adquire um T4 à Custa do Amigo Santos Silva, etc.

O vilão
Então não queimam o hijab?

O actual Executivo sueco, repleto de senhoras, autoproclamou-se o "primeiro governo feminista do mundo". Que bonito. E serve para quê? Até ver, para criticar o sr. Trump. E para enviar uma delegação a Teerão, onde as bravas feministas desfilaram embrulhadas nas farpelas exigida pela etiqueta islâmica. As "causas" actuais sofrem deste problema: o desprezo instrumental pelo respectivo objecto. Vale que nenhuma das ministras se parece com a loira dos Abba nos idos de 1978, pelo que as farpelas não ocultaram nada de relevante. Mas isto é o sexismo a falar.

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