quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A Eutanásia da menina Isabel



                                               DEBATE

Alberto Gonçalves – revista Sábado


Depois de conquistados o aborto no SNS, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção de crianças pelos casais atrás referidos, o pavilhão do Sporting e os patrocínios à mudança de género, julguei que a lista das causas "fracturantes" tinha chegado ao fim e podíamos descansar. Imperdoavelmente, esquecera-me da eutanásia. O esquecimento é mais grave na medida em que, nos idos de 1995, concluí a licenciatura com uma tese a propósito. Durante um ano inteirinho, não fiz outra coisa (salvo seja), a não ser estudar a "boa morte". Li o Philippe Ariès e o que me apareceu, realizei inquéritos, entrevistei médicos e cangalheiros, alinhavei dezenas de gráficos, escrevi duzentas páginas, dormi pouquíssimo. Resultado? Apurei que o assunto é demasiado complicado para caber em trabalhos imberbes. Comecei com poucas certezas, terminei sem nenhuma. Um autor outrora célebre dizia, repleto de razão, que a única questão filosófica é o suicídio. Mesmo se "assistido", arrisco acrescentar. Após 22 anos, as hesitações sobre a eutanásia não desapareceram. Entretanto, porém, adquiri um hábito saudável. E não é andar de bicicleta: sempre que dou por mim cheio de dúvidas, procuro a opinião de gente iluminada. Por regra, em matérias profundas corro em busca do conforto intelectual providenciado por um de três sábios, daqueles que, acima da espuma e do ruído dos dias, me garantem orientação espiritual: o rapaz do Querido, Mudei a Casa, o palhaço Companhia e a filha de Adriano Moreira. No caso em apreço, o decorador -guru recusou pronunciar-se. O Companhia mostrou-se incontactável. Restou, para me conduzir à Verdade, a menina Isabel.
A menina Isabel é uma espécie de farol das Grandes Batalhas da Modernidade, isto se os faróis tatuassem no braço o nome de cada navio ao largo. Quando o leigo ainda nem sequer adivinhou a possibilidade de uma "fractura" social, a menina Isabel já está na primeira fila dos convidados do Prós e Contras, a gritar pela urgência de se legalizar o que lhe vier à cabeça e a insultar os intolerantes que discordam dela. Ou então está nas páginas do Expresso, a assinar um artigo intitulado "Eutanásia – reconheçam-me". Além de, no dito artigo, repetir oito vezes a palavra "autonomia", a menina Isabel esclarece: "escolho os valores (...), vivo de acordo com os meus planos pessoais, independentemente das concepções morais maioritárias vigentes na sociedade. Isso decorre, precisamente, da inibição a que o Estado está sujeito no que respeita a interferências na minha autonomia" (eu avisei). E também: "O Estado de direito em que vivo não é um Estado que põe em causa a autonomia (pois é) de cada um."
Murmurei essas frases resplandecentes até os amigos se afligirem com o meu equilíbrio psíquico. De súbito, compreendi tudo. Acerca da melhor maneira de morrer? Nada disso: acerca da melhor maneira de viver. O Estado de direito e a moral vigente não podem interferir na minha – vamos lá – autonomia. O que importa são os meus "planos pessoais", que não incluem, por exemplo, pagar impostos. Sobretudo impostos que sustentem a espécie de carreira da menina Isabel. E se, graças à afirmação dos valores que escolhi, ela cair numa "situação de enorme sofrimento", o remédio é óbvio. E, não tarda, despenalizado.

O BOM
A agenda deles
O PS pede uma "agenda para a década", ou seja, estender a aliança com a extrema-esquerda por 10 anos a fim de facilitar as reformas de que o País carece. Por um lado, acho bem: esquerdismo e reformismo são praticamente sinónimos. Por outro, acho mal: o sucesso da "geringonça" é tal que devia projectar-se por um século inteiro. Entretanto, o Avante! informa em editorial que "não existe um governo de esquerda nem tão pouco uma coligação, maioria de esquerda ou acordo de incidência parlamentar de apoio ao governo". Felizmente, o PS não leu.

O MAU
O dom provinciano
Após o fervor corporativo respirado no congresso dos jornalistas e as críticas às discriminações cometidas pelo sr. Trump, a classe ficou impávida quando o eng. Sócrates recusou falar ao Correio da Manhã. Porém, o pior não foi o facto de os repórteres não terem saído daquela conferência de imprensa: foi lá terem entrado. Uma coisa é um rústico processar as demoras do Estado, talvez por ter pressa de voltar à cadeia. Outra coisa é isso possuir o interesse público que as televisões imaginam. Um caso de polícia não é necessariamente um caso.

O VILÃO
Tenham medo

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A campeã do proteccionismo? A inimiga do euro e da Europa? A candidata, como a própria afirma, do povo contra o dinheiro? Mal consiga distinguir as propostas económicas de madame Le Pen das alucinações de PCP, do BE e de algum PS, juro que passarei a dedicar-lhe uma aversão particular. Até lá, limito-me à exacta aversão que sempre dediquei ao PCP, ao BE e a algum PS, os quais concordam com cada erro crasso da senhora. Nem de propósito (?), só discordam quando, por exemplo sobre o islão, a senhora erra menos. Tenham medo dela, e muito medo deles.

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