domingo, 11 de dezembro de 2016

No jardim-de-infância




Alberto Gonçalves – Diário de Noticias


Houve para aí certa comoção perante a notícia de que, coisa nunca vista, os alunos portugueses ficaram acima da média da OCDE nos testes do PISA. A comoção é desajustada. Por um lado, porque os testes dizem respeito a 2015 e, logo, traduzem benefícios do tempo do dr. Crato e do governo da "direita", período negro que urge esquecer. Por outro lado, porque os testes versam assuntos como as ciências, a matemática e a língua, anacronismos que, conforme se constata nas contas do responsável (?) das Finanças e no português do chefe dele, não preparam os petizes para exercer cargos verdadeiramente relevantes.
A nossa sorte é que todos estes infortúnios ficarão para trás. Por obra e graça (a graça é relativa) do ministro Mário Nogueira ou do seu jovem representante no Ministério da Educação, os níveis de exigência nas disciplinas tradicionais serão continuamente reduzidos até coincidirem com as competências de um orangotango esforçado. Em cima disto, o ME projecta despejar nas criancinhas lições sobre procriação e aborto. Dado tratar-se de gente ponderada, a primeira temática precede a segunda: tal como seria absurdo temperar a salada antes de semear a alface, não faria sentido explicar a interrupção da gravidez antes de se esclarecer a maneira de engravidar.
Naturalmente, é no "pré-escolar" que começarão a ser incutidos os rudimentos do sexo, os quais, no belíssimo jargão das entidades competentes, incluem: "Tomar consciência da identidade do género e dos papéis sociais"; "identificar diferentes papéis socioculturais em função do sexo"; "saber distinguir as diferentes expressões afectivas", "conhecer que existem mudanças físicas ao longo da vida", ou "identificar e respeitar a diversidade dos contextos familiares". Não custa imaginar a alegria do bebé que, entre uma mudança de fraldas e a deglutição de um punhado de terra, espera avidamente que o ilustrem acerca dos "papéis socioculturais" e da "identidade de género".
Porém, o ponto alto dos novos currículos é o ensino do aborto (teórico, espera-se) aos alunos do "2.º ciclo", que se não reprovarem excessivamente andam pelos 10 ou 11 anos. Eu, que sou um nadinha mais velho, ainda não consegui ter uma opinião definida a propósito, razão impeditiva de frequentar o Prós e Contras aos gritos. Mas o ME tenciona introduzir uma complexa matéria científica, filosófica e moral em cabecinhas convencidas de que os Países Baixos são habitados por anões e de que Snoop Dogg é um artista. Para o ano, acrescenta-se a eutanásia (teórica, volto a desejar) ao programa das creches.
Ao contrário do que parece, o problema não é o Estado usurpar funções e evangelizar crianças. O problema é que, independentemente da idade, as crianças mandam no Estado. Suspeito que os próximos PISA estarão inclinados.

Quinta-feira, 8 de Dezembro
A revolução não dorme

Em Cuba, de madrugada, três jornalistas do Expresso e da Sic saíram da casa onde se hospedavam para testemunhar a vigília final do "povo" ao sr. Fidel. Um telefonema do proprietário bastou para que, mal trespassaram a porta, caíssem nas mãos da polícia. Não se trata, ao contrário do que refere a enviada do Expresso, da "insólita situação de detidos pela polícia cubana". São apenas os comportamentos triviais em regimes totalitários: a vigilância, o medo, a desconfiança, o segredo, a denúncia, a prisão sem motivo aparente. Em lugares como aquele, a situação nada tem de insólito.
Nem é insólita a indiferença que, por cá, a maioria dos colegas das pessoas envolvidas dedicou ao episódio. Seria até esquisito que, após dias a fio de louvores ao "líder histórico" e à "revolução triunfante", os nossos media acabassem por admitir que, afinal, Cuba é uma barbárie sem grandes rivais no hemisfério norte. Quando o assunto é a prepotência, os jornalistas daqui gostam imenso de recordar os interrogatórios (alguns superiores a meia hora - o horror!) que ocasionalmente sofreram à entrada dos EUA. E se um se visse encarcerado em qualquer país democrático, ainda que por atropelar uma velhinha, a classe desceria a avenida com archotes. Mas uma ditadura de esquerda pode, com total discrição, fazer o que quiser com eles. E, em certos casos, é bem feito.

Sexta-feira, 9 de Dezembro
Os intolerantes deviam ser mortos

Geert Wilders, político holandês, "populista" e de "extrema-direita", foi condenado por discriminação, racismo e "discurso de ódio" após ter perguntado à audiência de um comício se queria mais marroquinos no país. Já há cinco anos o sr. Wilders fora a tribunal por comparar o islão ao nazismo - pormenor curioso para quem é acusado de abominar muçulmanos e de ser nazi. De qualquer modo, o sr. Wilders é de facto impertinente. As pessoas de bem sabem que o racismo, a xenofobia, a discriminação e o ódio em geral só são tolerados quando dirigidos contra: a) banqueiros, especuladores e, salvo ditadores "revolucionários", milionários em geral; b) alemães, americanos brancos, israelitas e "sionistas" em geral; c) políticos populistas, de extrema-direita ou à direita do socialismo em geral; e d) cavalgaduras que dizem coisas de que não gostamos em geral.
E é isto. Agora resta esperar para ver o exacto tipo de gente que persegue o sr. Wilders mostrar-se incrédulo com a popularidade crescente do sr. Wilders e similares. Vou comprar pipocas.

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