quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Vale Maduro *


Vale Maduro

Desceu ao Vale Maduro,
A meio da noite.
Buscava um lugar seguro
Fugindo ao açoite.

Deixava uma alça caída,
A porta da lora
Esperava que raiasse o dia
Nos seios da Aurora,

A cama de giesta moída
Ficou na ladeira
Soltava um resto sem vida
Numa terroeira

Coelho ladino menino, reguila e tão giro.
Fugiste ao furão, ladeaste o cão,
Mas não fugiste ao tiro....

Jorge Lage
* Inédito de Zé do Bale (pseudónimo de Abílio Bastos) 1957.

O rapaz ia tocando as vacas pela quelha de Cortinhelas (Abadim) quando apareceu o Ti Francisco Carqueja com o seu largo bigode, caminhando de passo sempre  abrir, a esquerda e a direita, lhe  pergunta: - Não viste passar por aqui um coelho? Pelo  seu sorriso via-se, que o Ti Francisco Carqueja, mesmo  de sachola em punho, não queria fazer mal ao bichinho. Mas lá foi dizendo: - Vi-o ali de pé, até parecia que trazia umas calças com alças! Respondeu o rapaz: - Escondeu-se na lora. Continuou o Ti Francisco Carqueja: - É  mesmo reguíla! E sabes que aqui é tudo maduro? Passado uns dias, quase a noitinha, passou um caçador ao fundo barbeito e o seu cão. Levanta-se um coelho dum silvado. O bichinho reboca o cão para o centro da bessada e com uma pirueta obriga-o a seguir em frente. Nesse momento esconde-se no calço novo. - Salvou-se - pensou o rapaz! Mas, o caçador, sacou do casaco um bicho feio. Um furão que enfiou no muro e aguardou de arma em riste, enquanto o cão corria em todas as direcções. Num instante, o coelho saltou e, quando já parecia livre, veio o tiro que o deixou de patas para ar. - Pobre fim - disse o rapaz! O furão não apareceu mais naquela noite. O caçador pediu uma lanterna de petróleo a um morador do Vale (de Abadim) e deixou-a apagar-se encostada ao calço da bessada. O rapaz (Zé do Vale) pegou nas palavras do tio Francisco e deu vida a «Vale Maduro».

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