domingo, 18 de outubro de 2015

Morte na nabarega



Jorge Lage
4- Morte na nabarega – Conheci o Luís (do Carolino) Alves (António, por matreirice do prior que lhe fez o registo de assento paroquial) há mais de quarenta anos, quando casei na sua aldeia, Lebução – Valpaços, e passei a ser vizinho. Nesse tempo, ainda engrossavam o lar um tio e uma tia e os irmãos, Aninhas e Acácio. Com o andar dos anos partiram os tios e, mais recentemente, os irmãos. Nos últimos anos, era uma sobrinha que mais o assistia e visitava. A nossa amizade e respeito mútuo construiu-se com boa vizinhança, ainda ele tinha um Volkswagen dos anos sessenta e com o convívio no Café do Tótó Gordo (leia-se António Ventuzelos) em que os respeitáveis anciãos tinham assento e voz. Era um ás na sueca, no estenderete e na escopa (jogo adoptado da Galiza). Mas, um dia triste o Café do Tótó não abriu mais a porta. As Áfricas não lhe devem ter dado tempo para fazer casamento. Era forte e muito calmo, não dispensando o cigarro. Os seus conselhos ou opiniões eram escutados e a sua voz calma. Nas minhas deslocações a Lebução encontrava-o nas escadas ou no alpendre da sua casa para uma palavra e depois do jantar ou da ceia no Café do Mário. Muitas vezes o interpelava para ouvir um conselho ou uma opinião. Quando a crise dos PEC e da Troika apertou mais, perguntei-lhe: - ó Sr. Luís, Portugal vai vencer a crise? E a resposta não se fez rogada: - bô era! Não bejo jeitos, porque as silvas continuam a crescer debaixo dos castanheiros! E guardei bem a sua máxima de economia. De facto os partidos (e os políticos) em vez de se unirem cada qual escorna para seu lado o feno da ilusão e da mentira. Voltei a receber dele uma grande e sábia lição para o meu livro «Memórias da Maria Castanha» que registei em corpo de escrita. Nos últimos anos o amigo Luís mostrava-se mais distante, mas sempre pronto para um cumprimento que eu abraçava como algo de raro e precioso. Em princípios de Setembro encontro-o sentado nas escadas e cumprimento-o com um abraço mais demorado e disse-lhe quanto o estimava e que me fazia falta vê-lo ali. Ao largá-lo vi que os seus olhos estavam molhados. Nunca o tinha visto desesperado, quanto mais com os olhos rasos de água!!!... Pareceu-me que foi uma despedida de amigos e tive que lhe abrir o meu coração. Ontem (14 de Setembro) telefonei ao Fernando do Tótó, para saber da saúde do pai, e a notícia não se fez esperar: - sabia que morreu o Luís do Carolino faz hoje uma semana? Uma bomba nos tímpanos e uma tristeza imensa na minha alma. Na aldeia vão morrendo os que restam e já ninguém informa ninguém, apenas o sino dá o toque de finados. O Luís, com noventa anos, andava, nas Roseiras, a semear à manta o nabal e caiu de bruços sobre a terra húmida e mimosa da futura nabarega. Acorreu o Manuel do Tótó e outros, mas apenas havia a registar o óbito. Até sempre amigo Luís e uma saudação sentida à família!

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