in: Jornal Público
12/09/2015 - 04:48
O
público e os comentadores gostam de excitação e de alarido, como os pacóvios
gostam de ver desastres.
Não se percebe por que
razão o jornalismo português (profissional ou amador) resolveu achar que
António Costa tinha ganho a Passos Coelho.
A ideia parece ser que um
debate é uma espécie de altercação de taberna em que ganha quem der mais murros
no adversário e se mostrar, de maneira geral, mais malcriado e belicoso. Se
este modelo se aplica a uma discussão sobre o Estado e a vida dos portugueses
nos próximos cinco anos, temos, de facto, razão para desesperar. António Costa
gritou e esbracejou mais do que Passos Coelho. E Passos Coelho foi falando com
uma certa serenidade e não permitiu que, da parte dele, a conversa degenerasse
num chinfrim com o primeiro-ministro. Mas, dizem os peritos, perdeu. O público
e os comentadores gostam de excitação e de alarido, como os pacóvios gostam de
ver desastres.
Veio a seguir um coro
geral de lamentações. Afinal, o debate não tinha esclarecido ninguém. Primeiro,
porque se discutiu durante muito tempo a personagem de Sócrates (um argumento
absurdo). Segundo, porque os portugueses não perceberam metade do que ouviram
(a reforma da segurança social, a saúde, a troika, a dívida pública e por aí
fora). Só que, se não perceberam, o único critério que lhes ficou foi a
intensidade do barulho dos dois cavalheiros em presença. E isto para não entrar
no capítulo das mentiras, que ferveram do princípio ao fim: sobre a bancarrota,
sobre o pedido de resgate, sobre o “memorando”, sobre o melancólico facto de
que, à mais pequena crise nos mercados financeiros, não haverá dinheiro para as
salvíficas promessas de Costa ou para os sonhos sem sentido de Passos.
Não passou pela cabeça
dos jornalistas que “presidiam” ao debate com a sua insuportável embófia
perguntar às duas notabilidades que ali putativamente discursavam ao país onde
tencionavam arranjar o dinheiro para a redenção da Pátria. Ao contrário do que
um observador ingénuo talvez concluísse, em todo aquele espectáculo, digno de
Las Vegas (e tirando uns 600 milhões que faltam à segurança social), não se
ouviu a imunda palavra “dinheiro” uma única vez. Vivemos numa situação
periclitante em que o menor abano pode deitar tudo abaixo. Mas naquela arena
(não sei que outra coisa lhe devo chamar) não se mencionou a Europa, a América
ou a China. Apesar da retórica sobre a “globalização”, Portugal acaba em
Badajoz. E o dr. Costa e Passos Coelho, coitados, suspeito que também.


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