sábado, 6 de junho de 2015

Corpo de Mulher - Abilio Bastos


Corpo de mulher

A norte das almas, sorria,
Pombinha riscada, bonita.
Trajava vestido de chita,
Com fitas douradas.

Um dia voou, e sem ninguém ver
Cortou do jardim todas as flores,
P’ra ninguém colher,
Dizias adeus, com encantos teus,
Levavas no vento, teu sabor a mel.

Ao ver-te partir, ias a sorrir,
            Escrevias no ar, o teu nome Esperança,
Deixavas ficar, um lindo tesouro,
Teu cabelo louro, cortado em trança.

Num adeus que enganava,
Mais tarde voltava,
Corpo de mulher.

Abílio Bastos

Poema inédito de Abílio Bastos, 1957/58


Nota: A Esperança, ainda menina, partiu para o Brasil e como recordação deixou ficar à mãe a bela trança, que ela de coração apertado retirava do saco e ia humedecendo e afogando as saudades. Abílio era um rapaz de 12 ou 13 anos que trabalhava na plantação de árvores na floresta, próximo de Abadim, Cabeceiras de Basto. Nesse tempo sonhava encostado a uma parede pobre e num campo rapado imaginava um restolho, depois de segado, o pão. O restolho era sinal de que o grão tinha ido para a tulha e não iria haver fome, em tempo de míngua ou «do castanho ao cerejo», como diz o povo. Mas, diz o poeta, que «o tempo tudo mata e tudo cura» e seguiram caminhos divergentes que não mais se encontraram. Porque, muitos dos sonhos de criança são apenas isso, que fazem girar quixotescos moinhos de vento. (esta nota é do imaginário de Jorge Lage).

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