sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Pilotos da TAP e os lavradores da minha terra


Barroso da Fonte
Escrevo esta crónica na tarde de dia do Trabalhador. Uma data internacional de grande significado laboral. Foi um dia de sol  em metade do país. Na outra metade choveu o dia todo. Numa metáfora perfeita daquilo que é a vida dos bem-instalados sociais, ao lado daqueles que vegetam com o credo na boca. Aos pilotos sobra dinheiro; aos rurais faltam pão, emprego e ninguém os ouve!
  As televisões, as rádios e os jornais mostraram duas realidades distintas: a norte, no país real, em Trás-os-Montes, no Minho rural e nas Beiras campesinas, aqueles que sempre mereceram o pão que  comem, trabalharam no duro,  desde manhã à noite. As televisões não os mostraram nos trabalhos do campo, não falaram das suas dificuldades de sobrevivência, silenciaram os seus protestos. Ao contrário: nas principais cidades, onde neste dia se viram e ouviram reportagens comicieiras, discursos demagógicos, enfadonhos e, alguns insultuosos, gastou-se um dia que era de festa, a impingir mentiras, a repetir falsas promessas, a enganar quem está de boa fé.
 E numa golpaça quixotesca, «meia dúzia de privilegiados» pilotos da TAP e da Portugália, marimbando-se para a crise do país, para o estado da Nação, para o tal povo trabalhador que não tem tempo de ver televisão, nem conhece o significado do dia que a (esse próprio povo) se refere, resolve iniciar dez dias de greve, sabendo que nestes dez dias a economia nacional perde  cerca de 300 milhões de euros. É muito dinheiro. Sabe-se que a TAP está falida. Foi sempre, como a televisão do Estado, um sorvedouro de dinheiros públicos. Sendo uma profissão de risco, mas sempre voluntária e com estatuto aburguesado, «muitos para ela foram chamados, mas poucos escolhidos». Não lhe retirando os méritos, a inteligência e até a coragem, essa classe entrou no reino dos privilegiados, a ponto de ser a pilotagem das profissões mais bem pagas do País: a média mensal é de 8.600 euros. Comparando com um técnico superior da função pública que exige licenciatura e concurso público por cada grau a que ascenda; o mesmo se diga de um médico de Serviço Nacional de Saúde, de um prof. do ensino secundário, ou qualquer profissão que exija concurso. Nem o Juiz conselheiro, nem o Prof. Catedrático que são topos de carreira das mais distintas, recebem semelhantes verbas. Ora os pilotos da TAP reivindicam diuturnidades e até 20% do capital social da Empresa, o que em vez de aproximar as regalias entre cidadãos, muito mais os afasta, voltando-se ao paraíso das classe aburguesadas.
 Em 1999 João Cravinho, ministro com a tutela da TAP, enfrentou uma greve semelhante. E, nessa altura, para a evitar, terá cedido à chantagem que a Procuradoria-Geral da República não sancionou. Aproveitando a crise política e o descontentamento generalizado dos eleitores, o SPAC que é um dos vários sindicatos de Pilotos, contra a vontade dos restantes e do universo dos trabalhadores da empresa, apesar dos apelos de todos os sectores, incluindo de alguns partidos da esquerda, teimou e ainda veio acusar o poder político e a administração da TAP, por não lhes fazerem a vontade. Horas antes do início da greve, o representante desse sindicato, Hélder Santinhos, veio culpabilizar o governo e a TAP por não lhes fazerem a vontade. No programa da RTP  de Sandra Felgueiras, viria a denunciar o mercantilismo que  envolve as greves, com milhões de euros a gerir o caos que medra nalguns  poderosos sindicatos poderosos, como é o SPAC.  Esse porta-voz, com cara de poucos amigos, irritou quem o ouviu. Em pouco tempo proferiu infâmias de todo género, sujeitando-se  a ser vaiado se fosse na via pública. Nunca ouvi falar deste cidadão por rasgos de cultura, de feitos e efeitos científicos que acrescentem algo ao que o País é. Felizmente ainda não atirou nenhum avião contra uma serra qualquer. Mas teve coragem para resistir aos gestores da empresa que lhe deu guarida em 2001,  lhe paga (bem) e da qual pretende, com os seus pares, 20% de capital.
Eu e milhares de jovens fomos à guerra que não era nossa. Não fomos pilotos porque havia poucos aviões. Fomos funcionários ativos e nunca exigimos lucros  nem sequer uma cadeira, uma máquina de escrever ou uma tampa de sanita. Se cada agente do estado reclamasse uma nesga de património, já nem tínhamos aviões, nem TAP para dar emprego a esta geração de «gente especial».
 Este porta-voz nada sabe de democracia, porque se a maioria dos sindicatos votou contra a greve, porque há-de ser ele a fazer valer a sua vontade, em nome dessa «meia dúzia» que impôs a greve?
Enquanto esta rapaziada provocou um prejuízo colossal, a gente da minha Terra, trabalhou e continua a trabalhar para atenuar aqueles prejuízos. É em nome desta camada de cidadãos anónimos, silenciados pelo desemprego e pela dureza da vida campestre que venho dizer a essa privilegiada classe que, se não está contente com o emprego, que o abandone porque há muitos pilotos desempregados  à espera de vaga.
                                                                                        Barroso da Fonte

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