segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Revisitada "Casa de Bragança" de Ernesto Rodrigues



A narrativa inicia como acaba: 550 anos depois em Bragança.
O enredo circula em torno de um tema caro aos portugueses, transposto para o Romance, poema característico da tradição oral, popularizado no século XV (que La Vega - sendo um erudito - trasladou para o seu Romanceiro espanhol), ao qual não foi estranha a famosa declaração de Cantanhede: o Amor entre Dom Pedro I de Portugal e a galega Dona Inês de Castro, a aia de Dona Constança, mulher do futuro rei português.
Casaram em Bragança. Atesta-o La Vega, atestam-no ainda Dom Pedro em Cantanhede (IANTT, Gav. 15, mç 20, nº 10), e Ernesto Rodrigues n’A Casa de Bragança, acrescentando-lhe primorosos pormenores, ora históricos, ora de ficção.
O narrador, da linhagem dos Roiz (ou Rodrigues), reafirma-o, alinhando o enlace na Igreja de São Vicente (ou de Santo Cristo), próxima da Igreja de Santa Maria, construída junto do sardão onde fora encontrada a imagem da Virgem, escondida no ano de 716.
Mas, a narrativa não é indiferente ao cronista Fernão Lopes (às suas omissões), às tramas e às manhas de Leonor e de sua irmã, Maria Teles, “linda como a morte”, como é contado pela avó do narrador; às desgraças de Dom João de Portugal e à lembrança de Teresa Lourenço, provável mãe de Dom joão I.
Como é bela a História. A da origem remota assente nos alicerces do rei Brigo, ou a da origem medieval, anexa ao mosteiro de Castro de Avelãs.
Como num filme, vemos crescer a muralha medieval, a chegada da princesa arménia, forçada a esposar o velho senhor de Avelãs (origem da linhagem dos Rodrigues), ou o quotidiano de Dom João de Portugal e Castro (filho de Dom Pedro I e Dona Inês de Castro), ainda menino, a calcorrear as cercanias da vila velha com os amigos.
E tudo isto conjugado com um rol de expressões da ruralidade transmontana que ressaltam do texto como couve-galega em horta farta: “São berças apanhadas na horta”, “pêlo na venta, sanhuda”, “Eu devia ser mais guicho”, “davam uns pontos nos meotes”, “Bem me eu finto”…
A escrita de Ernesto Rodrigues, embora fluida e poderosa, não é fácil para o leitor pouco acostumado à leitura. Porque a sua narrativa é erudita. E, como na boa Literatura hispano-americana, entrelaça os vários personagens num amaranhado de peripécias, sobrepondo-lhes os nomes próprios.
Mas, após meia dúzia de páginas, a coisa vai fluindo como as águas do Fervença correndo ao encontro das do Sabor. E as talentosas descrições surgem do nada, do cimo de um colchão: “… e já a vizinha rasgava de mansinho os calções … a amiga cortou camisola com os dentes alvos, e lambeu-me do pescoço ao umbigo ... ”.
Na segunda parte do volume, o autor centra-se nas origens da  Casa de Bragança que se inicia com o primogénito Afonso, e com o rapto da jovem donzela Inês Pires Esteves. “que outros dizem Inês Peres ou Inês Fernandes, filha de Fernão Esteves”, e de Maria Anes ou Mafalda Eanes.
E vai por aí fora, entre vales e montes; desgraças e sonhos.

Armando Palavras

ERNESTO RODRIGUES (Torre Dona Chama - Bragança, 1956) é Doutor em Letras pela Universidade de Lisboa (1996), em cuja Faculdade de Letras ministra disciplinas nas áreas da Cultura e Ciências da Comunicação. Poeta, ficcionista e tradutor de húngaro, foi antigo jornalista e leitor de Português na Universidade de Budapeste (1981-1986). Faz crítica literária na Imprensa desde 1979. Tem editado autores portugueses dos séculos XVII-XIX, sendo mais recentes Ramalho Ortigão, As Farpas Completas (6 vols., 2007), Camilo Castelo Branco, Poesia (2008) e Padre António Vieira, Sermões, Cartas, Obras Várias (2008). Foi responsável pelos 3 volumes de Actualização (Literatura Portuguesa e Estilística Literária) do Dicionário de Literatura dirigido por Jacinto do Prado Coelho (2002-2003). Outros títulos: Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1998); Cultura Literária Oitocentista (1999); Visão dos Tempos. Os Óculos na Cultura Portuguesa (2000); Verso e Prosa de Novecentos (2000); Crónica Jornalística. Século XIX (2004); «O Século» de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista (2008); A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Português (1807-1821) (2008); 5 de Outubro – Uma Reconstituição (2010).


Nota: Este texto saiu com dois anos de atraso. Por razões várias, incluindo a sua perda. Só agora recuperado, por essa razão não foi publicado em jornal da Região, dois meses após o livro ter saído a público.

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