sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Evidências falaciosas e imorais

         
Barroso da Fonte

Leio, releio e custa-me a acreditar. Penso que é um sonho.  Mas vejo, ouço e apalpo. Estou mesmo acordado.
Manuel Pinho que, como governante, nos ensinou a cornear a simbologia do gesto, trabalhou cerca de vinte anos no Banco Espírito Santo, «numa «holding» sem atividade, BES África».
«O ex-ministro Manuel Pinho vai avançar com um processo judicial contra o Banco Espírito Santo para receber uma reforma antecipada que lhe terá sido prometida por Ricardo Salgado. Em causa está um valor superior a dois milhões de euros.
 Quando faltavam cinco anos para Manuel Pinho, em 2013, ano de prejuízos históricos para o BES, o banco promoveu alterações no Regulamento do Regime de Pensões de Reforma dos Administradores. Aí, Manuel Pinho, que recebia um salário mensal bruto de 39 mil euros (14 meses por ano) como administrador de uma “holding” sem atividade, a BES África, questionou o banco sobre a sua situação e tentou receber o valor que faltava. De preferência, à cabeça. Mais de dois milhões de euros».
 Ao deixar o Governo socialista, em Junho de 2009, após ter feito um gesto considerado “ofensivo”para a bancada do PCP, durante um debate parlamentar, Manuel Pinho regressou ao grupo liderado por Salgado, mas depois, como vice-presidente do BES África.
Manuel Pinho, de 60 anos, negociou com Ricardo Salgado a sua reforma antecipada. Em paralelo com a atividade de docente, exerce atualmente as funções de vice-presidente da holding BES África, auferindo, mensalmente, cerca de 50 mil euros, o que abriu espaço a que possa reclamar cerca de 3,5 milhões de euros de compensações até à idade da reforma que são os 65 anos.
 Uma fonte próxima do ex-governante disse que a única coisa que confirmava era que  Manuel Pinho estava a contar com  uma reforma a que tem direito, desde os 55 anos, não como administrador do BES África, mas como administrador executivo que foi, durante cerca de 10 anos, no BES”.
Recorde-se que um ano depois de ter saído do Governo, em 2009, o ex-ministro anunciou que ia dar aulas na Universidade de Columbia, na School of International and Public Affairs, numa cátedra criada por si sobre energias renováveis e patrocinada pela EDP. As funções de docente nos EUA, onde hoje reside, são exercidas em simultâneo com as de vice-presidente do BES África.
Este tipo de notícias não podem ser indiferentes a quem quer que seja. Após um ano em que Portugal e os Portugueses, em geral, suportaram uma penosa, injusta e humilhante crise de identidade, olhar para o tipo de vida de certos governantes que a ela estiveram e estão ligados, leva a que se pergunte em que república vivemos. O cidadão comum que vive quase isolado do mundo, no estrangeiro e sem meios para comprar jornais e telefones fáceis para andar informado, precisa de conhecer a realidade do país em que vive e de que é parte ativa.
Abrindo os olhos e os ouvidos àquilo que se promete e àquilo que devem ser os direitos essenciais à cidadania, somos levados a crer que há um abismo entre os cidadãos do mesmo país. Uns têm tudo e outros nada têm. Uns vivem e são tratados como deuses. Outros, ao invés, são explorados, espezinhados e tidos como seres desprezíveis. Se isto é a democracia dos poderosos, declaradamente sou anti-democrata.
                                  Barroso da Fonte


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