terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Reino Judaico da Ucrânia



Quando um conflito a nível mundial aparece nas páginas dos jornais, logo surge a opinião respeitada (e bem paga, diga-se) deste ou daquele comentador. O que mais incomoda, no caso de Portugal (mesmo nos diversos países), é o tipo de análise redutora. Sempre com pano de fundo a questão militar e a questão estratégica (a que juntam sempre os aspectos económicos). Neste tipo de análise nunca é considerado o aspecto histórico, sociológico ou religioso. E da etnografia nada se diz.
Este intróito vem a propósito dos conflitos recentes, sobretudo do que diz respeito à Ucrânia (mas serve na mesma para os outros).
Quando os analistas abordam apenas  a questão da estratégia, incorrem num erro crasso de cultura redutora.
A 24 de Abril de 2008, depois da última Cimeira da NATO em que George W. Bush participou, em Bucareste, Vladimir Putin virou-se para o então Presidente dos Estados Unidos da América e disse-lhe: “Tu não estás a entender, George, a Ucrânia nem sequer é um Estado, parte do seu território pertence à Europa de Leste, mas a parte maior foi uma oferta que lhe fizemos”.
Vladimir não estava a falar de estratégia, nem de economia, nem de interesses. Estava simplesmente a falar da História. E dos aspectos sociológicos e etnográficos.
O erro de Vladimir é que conhece muito pouco a História do seu país. A Grande Rússia é um enorme território composto de geografias anexadas ou conquistadas, Foram os casos de territórios consideráveis que apenas se tornaram independentes depois do desmembramento da antiga URSS em 1989, mas sobre os quais mantém muita influência:  o Cazaquistão (1854), o Turquestão (1873), a Província do Amur (1859), o Pamir (1895), metade da Moldávia – para eles a Bessarábia (1821).
Deixemos, portanto, todo o extenso território conquistado no século XVII, a partir de Tomsk (1604) que se alongou por toda a Sibéria. Foquemo-nos apenas na Ucrânia.
Em meados do século X (948), Menahem ibn Saruq, um judeu a viver no extremo ocidental do mundo conhecido, em tinta feita de bílis, endereçou uma missiva a outro judeu na extremidade oriental, o rei José. Menahem apenas cumpria a missão que lhe fora confiada pelo seu patrono e senhor, Hasdai ibn Shaprut, homem considerado indispensável por Abdarramão III, califa de Al-Andalus, na Península Ibérica.
José era o rei dos Cazares, um imenso reino judaico situado nas elevadas pradarias da Ásia Ocidental, banhado pelo curso inferior do Volga, tendo como fronteira a leste o mar Cáspio (conhecido à época por mar Jorjan), o mar Negro, ou “Constantino” a oeste, e as montanhas do Cáucaso a norte. A ele pertencia toda a Crimeia e (supõe-se) a cidade de Kiev.
Esta história vem soberbamente descrita nos fragmentos descobertos por Solomon Schechter no imenso depósito de Geniza do Cairo e agora recontada por Simon Schama no seu mais recente livro: A História dos Judeus.
Este reino durou um século. Em meados do século XI, juntou-se às crónicas das catástrofes judaicas. Acossado pelos exércitos dos Rus de Kiev (Rus é a Primeira Rússia, note-se), compostos por  Escandinavos e Eslavos e, com alguma regularidade pelos Bizantinos, seria arrasado e a sua capital real de Atil completamente pilhada.
A partir daqui a história deste território foi-se confundindo com o da própria Rússia. Umas vezes conquistado, outras anexado.
Importa porém, revisitando os fragmentos,  acrescentar o seguinte: Quando os Bizantinos derrotaram os Persas em meados do século VII, estava em vigor a política de conversão do imperador Heraclio. Muitos dos judeus que falavam grego, fugiram dos Balcãs e da Crimeia, junto do Bósforo (principalmmente da cidade de Pantikapeum), onde haviam prosperado durante vários séculos, transpondo o Cáucaso em direcção à segura Cazária ainda pagã. Foram bem recebidos e aí permaneceram durante gerações, unindo-se por casamento às populações locais. Com o tempo, esses judeus deixaram de se distinguir do resto da população, e um deles tornou-se bek dos seus exércitos, nomeado rei após uma vitória de assombro. Esse primeiro rei judaico chamado Bulan, casado com uma judia , Serakh, adoptaria o nome teofórico de Sabriel e daria origem a uma dinastia judaica. Sucederam-lhe mais seis reis judaicos: Obadia, Ezequias, Menashe, Benjamim, Aarão e, finalmente, José.
Se Vladimir conhecesse a História do seu país, não teria sido tão imprudente com o  presidente americano em 2008.

Armando Palavras


                                                                                    Post-scriptum

No dia da independência, os pró-russos, humilharam prisioneiros de guerra afectos a Kiev. Uma clara violação de dois artigos da III Convenção de Genebra: o 13º que protege os prisioneiros de guerra de “insultos e curiosidade pública”, e o 14º que lhes garante o “respeito da sua pessoa e da sua honra”.
Ao violarem estes dois artigos deixaram de ser combatentes para serem terroristas.
Quando o ás dos ases da aviação da Primeira Guerra, o alemão Manfred von Richthofen, o mítico Barão Vermelho, foi abatido, um caça inglês deixou cair uma mensagem sobre as linhas alemãs, onde constava o seguinte: “ O cavalheiro barão Manfred  
von  Richthofen morreu em combate a 21 de abril de 1918 e foi sepultado com todas as honras militares”.
Foi o que aconteceu. Embora inimigos, respeitavam-se.

Actualizado em 27 de Agosto

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