terça-feira, 19 de agosto de 2014

O filho de Durão Barroso e os filhos de outros pais

                                                                          
BARROSO da FONTE
O escândalo do último dia 13, quarta-feira, consistiu em vir a público a notícia de que Luís Durão Barroso, filho do ainda Presidente da Comissão Europeia ingressou na Supervisão do Banco de Portugal, sem concurso público. Só a meio dessa tarde se soube que, a lei que obriga a concurso – para não fugir à regra -  tem uma excepção: «salvo situações de comprovada e reconhecida competência profissional». Sucede que o sortudo Luís Durão Barroso, não imitou o pai, quando este aderiu ao MRPP, naquele verão quente de 1974 e seguintes. O filho aproveitou a embalagem e fez a licenciatura, o mestrado e o doutoramento numa universidade de Londres. Convenhamos que tão pomposo percurso académico, se ainda foi feito antes do Processo de Bolonha, implicou, no mínimo, doze anos de ensino superior. Freitas do Amaral vangloria-se de, aos 26 anos de idade, já ser «doutorado». É evidente que tinha físico e obrigação de ir à guerra, tal como Jorge Sampaio. Mas o pai deste era director-geral da Saúde. E o de Freitas do Amaral era um alto quadro da Sacor. Obviamente eram «fascistas especiais» e não foram à guerra. Isto para dizer que só mudaram as moscas. Porque as «cunhas», os malabarismos, as piruetas, são velhas e revelhas. Basta olhar para os presidentes das câmaras que nos rodeiam, reflectir nos filhos de Mesquita Machado, de Luís Filipe Meneses, de Valentim Loureiro...  A Assembleia da República teve e tem lá, pais e filhos, esposas e maridos. Nalgumas câmaras o partido do poder compensa os correlegionários, colocando-lhes os cônjuges, muitas vezes os filhos e até os genros, as noras e os netos. No mesmo serviço público, vigiam-se uns aos outros. Para essa casta não há crise. A crise sentem-na aqueles que, como contribuintes, pagam e nem podem refilar... Riem-se?
Vivo numa cidade com pergaminhos, que seria um bom exemplo para um estudo sociológico de mestrado ou doutoramento. É pena que os orientadores não vislumbrem estes paradigmas democráticos.  Muitos autarcas, mal chegam aos pelouros,  usam o método do provérbio latino: «escolhes para te assessorar a minha mulher e, em troca, eu aceito a tua como minha assessora». E, quanto  às cooperativas municipais usamos o mesmo axioma: enquanto a lei não der por ela, acumulamos a presidência daquelas que estão na nossa alçada, com os respectivos pelouros; vencimento daqui, mais vencimento dali, dão para viaturas do último modelo, vivendas apetrechadas com piscina, sauna e alarmes decorativos. Se a lei descobrir que estamos em transgressão, aguentamos enquanto as averiguações durarem. E, de repente, se o Tribunal de Contas nos obrigar, nós próprios delegamos nos nossos chefes de gabinete. Se temos competências e a lei o permite, para que andamos aqui a fazer figuras de parvos?  E se for preciso ir para os tribunais, não importa porque temos as custas pagas pela própria autarquia...
Este forrobodó tem sido o forte destes 40 anos de democracia ditatorial. No último mês aconteceu isto mesmo na câmara da cidade onde escrevo esta sátira. Mas a prática que o Tribunal de Contas agora condenou, foi exercida nos últimos anos. E as notícias que vieram a público, não esclareceram se a lei teve efeitos retroactivos. E não se pense que só acontece nalgumas câmaras. Pratica-se nos ministérios, nas secretarias de estado, em todos os departamentos, onde os políticos não precisam de ter cursos superiores, nem estágios, nem concursos. Basta abrirem os olhos, espreitar o partido político que dá mais garantias de sucesso, bajular os que ocupam os lugares da frente e ir a todas as manif's, comícios, caravanas...
O filho de Durão Barroso deu mais nas vistas porque é doutor. Mas, a crer na notícia que circulou, o vencimento base, é de 1.800 euros/mês. Um pouco menos do que foi ganhar o filho do Presidente do STJ, Noronha do Nascimento quando, a troco do arquivamento das escutas contra José Sócrates este o «encaixou» num vistoso cargo estatal. Marinho Pinto, o Expresso e outros  órgãos, registaram esse episódio que circula online. Não invento nada do que fica escrito. É que Noronha do Nascimento era baixo de físico mas era alto em poder. E o poder, muitas vezes corrompe. Mesmo que seja judicial.
Este «verão quente» que por sinal tem sido fresco, vai aquecer até fins de Setembro. Era bom que o maior partido da oposição lavasse toda a roupa suja destes quarenta anos. E, seja qual for o vencedor, prepare as mentalidades dos seus quadros e de todos os portugueses no sentido de «limpar» o ambiente que tomou conta  da sociedade Portuguesa. A política atingiu o clímax da podridão. É irrespirável. Ameaça de morte os velhos e os novos.  Perderam-se os valores. Ninguém pode atirar pedras porque somos todos culpados desta hecatombe de que o BES é exemplo claro.
                                                                                                       Barroso da Fonte





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