domingo, 27 de julho de 2014

Notas de Rodapé 111 - Jorge Lage


Jorge Lage

1- A Tia Maria, «a criminosa» do mundo rural – Não tenho sido simpático com os grupos europeus, secundados pelos «podengos portugueses», cujo «braço armado avançado» parece ser a ASAE,que querem destruir, «criminosamente», a nossa pequena economia rural familiar. Lembro-me de há 50 anos os nossos agricultores para escoarem os pequenos excedentes, pegarem em meio rasão de chicharros, um frango ou meia dúzia de ovos para fazerem uns magros escudos, para ajudarem a comprar um retalho de cotim ou de chita, ou um cartucho de mercearia que tanta falta lhes fazia. Com a entrada na União Europeia foram apertando o cerco a esta nossa economia rural para a liquidar sem dó nem piedade. Pagaram, com o «Cavaco» a ajudar ao palio, para não produzirmos os bens de sobrevivência e o caminho foi a miséria e a humilhação internacional. Quando Paulo Portas estava na oposição levou para o Parlamento estes desmandos, simbolizados no último pacote de amêndoas de Portalegre confitadas, artesanalmente. Com a entrada deste «defensor do mundo rural» o quadro negro ia mudar, pensei eu. Mas, agora no poder, a estes «maus costumes, disse nada» e continuamos a ser tratados por criminosos. A Tia Maria, de 83 anos, (assim circula na net) é criminosa se vende na feira um ou dois queijos que lhe sobejam. Se cozer uma fornada de pão no forno comunitário e um vizinho lhe quiser ficar com um é criminosa. Se fizer um bolo saudável e sem os «venenos» que lhe adicionam nas padarias, é criminosa. Dizem-me, em Mirandela, que se o agricultor levar dois cestos das suas uvas para pisar na sua casa passa a ser criminoso. E se colher uma cesta de azeitona para quartilhar ou fazer alcaparras tem de levar uma guia para chegar a casa, se não é mais um criminoso. Na Espanha acautelaram a pequena economia rural de subsistência dos desmandos da União Europeia. Por cá os nossos políticos e os mangas-de-alpaca são galgos adestrados na caça e destruição da nossa pequena economia de subsistência e da nossa cultura-sociológica tradicional. Na cidade de Bruxelas, sugerido pelo posto de turismo oficial, bebi vinho doce quente a copo numa barraca de um largo e numa grande avenida, montaram num passeio, exíguas barracas de madeira, onde comi por 15 euros um prato de cogumelos silvestres. Se fosse por cá, vinha a ASAE e fechava o negócio ocasional porque os cogumelos não tinham factura, não havia água canalizada e o vinho a copo não tinha marca registada. Por cá, os políticos preferem destruir a nossa pequena economia rural e importar produtos contaminados com químicos, sejam com fertilizantes, corantes ou conservantes. Por isso, além de pobres ficamos menos imunes às doenças, principalmente às malignas. Quando comprar algum produto agrícola ou artesanal vou considerá-lo uma oferta e eu posso retribuir com dinheiro ou outro produto.

2- Vespa do Castanheiro, a praga já chegou a Portugal – Infelizmente, já chegou a praga, «Vespa do Castanheiro», ao nosso país e, nesta Primavera, foi fotografada no seu estado larvar na região de Barcelos por técnicos dos serviços agrários do Ministério da Agricultura e do Mar. Esta praga veio, possivelmente, à boleia de algum viveirista, porque a comercialização de árvores no espaço europeu é incontrolável e as doenças vão-se propagando nas próprias árvores para plantação. Aliás, quase tudo, no que concerne às fitopatologias (doenças das árvores e arbustos), parece vir da China ou Oriente, como aconteceu há cerca de 200 anos com a «doença da tinta» do castanheiro e, há uns vinte anos com o «cancro do castanheiro». Ainda não temos as outras duas pragas dominadas e a «Vespa do castanheiro» ou «Vespa dos galhos do castanheiro», com o nome universal «Dryocosmus kuriphilus Yasumatsu», já começou a causar estragos no souto lusitano. Tínhamos dito, em texto anterior, que era responsável pela subida do preço da castanha na safra nacional de 2013, porque foi a causadora da diminuição de produção em Itália e França, vindo estes dois mercados a abastecerem-se no nosso país. Esta dendropatologia apareceu no Japão em 1941 e foi referenciada, sucessivamente, na Coreia em 1961, na América do Norte (Geórgia) em 1974, na Itália em 2002, na França em 2005 e em 2013 na Espanha (Catalunha). Sendo assim, estamos em crer, que em 2015 se irá já fazer sentir alguma quebra na nossa produção, se o mal não for atacado de uma forma eficaz, servindo-se, para tal, dos conhecimentos de fitopatologistas europeus para combaterem esta nova praga.


3- Poupar e educar para a sustentabilidade em Montalegre – Numa visita que fiz à abertura Feira do Livro de Montalegre, num espaço amplo e agradável, entre os vários projectos associativos e educacionais, chamou-me especial atenção um de troca de livros escolares, promovido pela Biblioteca Municipal e sua Directora, Gorete Afonso, para se evitarem gastos supérfluos. Mas, para além da criação de bons hábitos na economia familiar, reutilizar manuais é uma boa prática de educação para a sustentabilidade e qualidade de vida. Afinal, em países mais ricos, como a Holanda, a compra de materiais em segunda mão é uma prática estimulada e praticada pela população, passando os materiais escolares de uns para outros (sem recibos doentios dos nossos políticos e mangas-de-alpaca). Um meu amigo de colégio (e homónimo no apelido), pai de uma das alunas com quem conversei, confessou-me que a filha, aluna do 1.º ciclo, lembra à mãe que não precisa do que ela lhe quer comprar, dizendo: - óh mãe, eu não preciso disso, tenho roupa suficiente! Pareceu-me que a Professora Lúcia, será responsável pelo muito saber tradicional dos alunos e pela educação para a poupança, rejeitando o que não lhes faz falta. Os Alunos do 1.º ciclo estavam motivados e participativos, alavancas importantes da aprendizagem.


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